Olho no olho x olho na tela – um paradoxo na Campus Party

•2 02UTC Fevereiro 02UTC 2010 • Deixe um Comentário

“Estamos aqui para compartilhar” -  é o que todos dizem, mas na Campus Party o que mais se vê são pessoas absorvidas em seus próprios micros e debates em que os convidados mal se ouvem, em parte por causa da péssima acústica do local, em parte pela disposição das mesas. Sim, o evento foi incrível, mas fiquei intrigada com essa questão. Como compartilhar sem olhar nos olhos, sem ouvir o que o outro diz com cuidado? Onde aconteceram as verdadeiras conversas da Campus Party?

Claro, tem muita, mas muita vida online. Mesmo assim,  era algo estranho assistir diversos debates e ver que mesmo quando as pessoas estavam interessadas elas olhavam… para seus próprios micros. Já estavam postando, digitando, ouvindo música: multi-tarefas. É um novo modo de viver com as conexões acontecendo em outras dimensões e ocasionalmente…

“posso usar o cabo que está aí debaixo do seu pé?”

“Claro!” – retrucou a garota ao meu lado.

Tive a oportunidade de participar de alguns momentos em que essa rotina foi quebrada:

1. Ao encontrar amigos queridos apresentando seus trabalhos ou passeando: Dalton, Drica, HD, Maria, Talita, Murilo, Fábio, Ronaldo. Abraços! Podia ter um mob do abraço ali, mas acho que era mesmo hora de extravasar e sair gritando de tanto energético na veia.

2. Conversas na Vivo com pessoas super interessantes como a Lala Deheizelin, do Crie Futuros, Gil Giardelli, com seu blog cheio e entrevistas imperdíveis sobre a festa, Helder Araújo, do TED, Walter Takahara, Mafeteca… Ainda não inventaram algo tão divertido quanto sentar e compartilhar ideías com gente inteligente. Gracias, estou seguindo os links que ganhei de vocês.

3. Palestra bizarra, mas em formato aquário, que reuniu Augusto de Franco, da Escola de Redes, Walter Lima, da USP,  Bob Wollheim, Martha Gabriel e Rafael Barreiras entre tantos outros.

"o aquário"

O aquário consiste em manter no centro da conversação um grupo de debatedores com uma ou duas cadeiras vazias, oferecendo a todos que estão na platéia um espaço para participar em pé de igualdade com os convidados. Neste caso, ainda ficou o grande desafio de acolher outros pontos de vista e comunicar-se de forma não violenta. A composição entre as pessoas que estavam ali teria mais potência do que a contraposição. Quase terminou em briga, mas foi bom, muito bom assistir o único debate da Campus Party em que os convidados olharam nos olhos uns dos outros o tempo todo. Valeu Algarra!

O processo foi tão interessante quanto o conteúdo, que vou postar assim que der… as aulas começam, a vida segue na grande cidade.

Quem está está conectado pode até estar em rede, mas nem sempre se comunica de fato.

boa excessão: o músico mineiro e sua infinita paciência de explicar como discotecar com cubos sobre o vidro.

Campus Party, Redes Socias e Simultaneidade

•27 27UTC Janeiro 27UTC 2010 • Deixe um Comentário

Artistas criaram e posters para a Campanha de Obama: Empowerement e criatividade nas imagens mostradas por Scott Goodstein.

Tomar uma coca-cola quente com pringles sabor páprica nunca foi um ideal de vida para mim, mas aqui estou eu. É preciso blogar diretametne da Campus Party para não perder o espírito dos acontecimentos. Piercings nunca vistos, pirâmides de latas de energéticos sobre CPUs que usam chapéus, propagandas de 1001 artifícios tecnológicos que podem se perder em meio a tantas pessoas plugadas… em seus próprios artifícios tecnológicos.

Estou num multievento. Talvez em nenhum lugar se possa tanta simultaneidade. Estamos todos gerando conteúdo. Uns blogam, outros programam, outros pesquisam, uns entrevistam. Todos se entrelaçam por aqui onde quem consegue uma tomada e um cabo nas arenas lotadas é Rei.

Algumas idéias interessantes que ouvi por aqui hoje.

O forum sobre Redes Sociais e Corporações foi bastante focado em questões do marketing 2.0 e afins. Os debatedores reiteraram algo que pode parecer óbvio: uma marca é só mais um player na rede, ou seja, vai ter valor na medida em que agregar conteúdo relevante. Na rede você vale pela sua contribuição, não adianta apenas fazer “propaganda” no sentido antigo.

Segundo os debatedores: “nenhum CNPJ vai conseguir manter-se atualizado com a produção de conteúdo de milhares de CPFs. Se a empresa não participa e entra com um ponto de vista ela ficará à margem, mesmo que tenha o melhor site e a melhor estratégia de comunicação.”

Ter clareza de posicionamento também é fundamental. A identidade e o rastro digital nos obrigam a uma certa coerência, como diria @hdhd. Com as marcas não é diferente. A Porto Seguro, por exemplo, deu um depoimento através do representante Antonio Mafra falando disso com grande simplicidade. O foco deles é atendimento através das redes sociais e ponto, eles estão ali para isso. Começaram ouvindo e entendendo o que se falava deles na rede. Humildade, foi a palavra usada e… claro que um atendimento bem feito para um twitteiro reverbera muito mais do que a maioria dos atendimentos. Ninguém é bobinho por aqui.

mega lan house!

Outro ponto interessante: o papel das agências de publicidade. “Não basta ter uma agência trabalhando para estabelecer uma marca nas redes sociais, essa responsabilidade não pode ser delegada.” Todas as pessoas da corporação precisam entender isso. É preciso ter políticas de relacionamento em nome da marca e alinhar todos os colaboradores com missão, visão, valores e posicionamento de marca. Cada funcionário da empresa acaba sendo um representante em um ou outro momento. Se isso passa por uma rede social, melhor que todos estejam falando a mesma lingua.

Redes sociais também geram mais inteligência e manipulação das informações postadas por qualquer marca, então nada de “colocar o release e p

ensar que as pessoas vão ler e ficar com aquilo”.

Mímica chama a atenção para o processo de recrutamentoda TV Cultura na C. Party

Outra colocação muito interessante foi a necessidade de se conversar dentro das instituições sobre o uso das redes sociais. Uma boa justificativa: as pessoas mais conectadas não são as mais experientes da empresa e as mais experientes normalmente não

são tão conectadas, então também se trata de gerar um debate na organização que seja intergeracional e que mobilize não só os nerds conectados, mas as grandes cabeças pensantes que podem estar offline por aí.

Finalmente, dá pra ter uma estratégia em redes sociais sem envolvimento da cúpula da empresa? No way, foi a posição dos debatedores. O comando da PM da Bahia posta pessoalmente os conteúdos no blog da corporação e é ele quem direciona as estratégias para mídias sociais, segundo o representante Danillo Ferreira. Sim! A PM da Bahia já atua na rede! E você?

TEDx Vila Madá e a coragem de abraçar

•11 11UTC Dezembro 11UTC 2009 • 1 Comentário

Este tem que ser um post rápido. É fim de ano e quase não consigo escapar à histeria natalina, ao trânsito, às 1500 demandas familiares e festas escolares. Óntem, contudo, consegui ir ao TEDx Vila Madá, que foi promovido “na raça” em 15 dias pelo pessoal da Educartis.

As vezes o desejo de abraçar é maior do que a pressa, do que o excesso de fim de ano, do que a agenda lotada, simplesmente é preciso abraçar uma causa ou o desejo de fazer nascer algo que quer em existir.

Acho que foi assim com eles, pelo misto de cansaço e alegria. Quem estava lá sentiu. Organizar um TED em 15 dias não é fácil, mas abre uma porta e inaugura uma série.

O TED em si, a causa de espalhar idéias que valem a pena, e a iniciativa de fazer isso a partir de um nascedouro de cultura como a Vila Madalena, em uma escola que estava quase “abandonada” pelos próprios alunos, recupera um certo espírito paulistano de se mostrar, de tornar presentes idéias vanguardistas. Tomara que os próximos eventos tragam esse espírito cada vez mais vivo.

A coragem de abraçar, seja alguém ou uma idéia, mesmo a essa altura de 2009 é encantadora.

O vídeo que estou inserindo fechou o evento. Talvez você já tenha visto, eu não tinha e me emocionei. Isso, afinal, talvez seja o Natal.

Uma cidade invisível nascendo da visibilidade

•16 16UTC Novembro 16UTC 2009 • Deixe um Comentário

Lalage.

Este é o nome da cidade que encontrei no livro Cidades Invisíveis de Italo Calvino para inspirar o trabalho do grupo ao qual dedico este post.

Kitezh

Kitezh, conhecida como a Atlântis Russa.

Estamos juntos desde do começo do ano e no nosso último encontro fiquei muito tocada com o que pude observar. Relações, olhares e um diálogo visível. Um projeto ganhando força através das relações que lhe dão sustentação. Comprometimento levando a uma sinceridade crua e necessária. Dilemas que se colocam a partir de fora e podem ser transformados a partir de uma mudança de perspectiva construida no grupo, a partir dos olhares diversos, das diferenças, dos conflitos e também do grande projeto que faz dele um grupo. Eis a dobra.

Visualizo então uma “cidade” permeável, flexível e por isso forte em sua potencial leveza.

Segue o trecho conforme prometido. Sorte a todos nas definições dessa semana!

Da alta balaustrada do palácio real, o Grande Khan observa o crescimento d império. Primeiro as fronteiras haviam se dilatado englobando os territórios conquistados, mas o avanço dos regimentos encontrava regiões semidesertas, combalidas aldeias de cabanas, aguaçais em que o arroz crescia mal, populações magras, rios secos, miséria. “É hora de o meu império, crescido demais em direção ao exterior”, pensava Khan, “começar a crescer para o interior” e sonhava bosques de romãs maduras com as cascas partidas, zebus assados no espeto gotejando gordura, veias metalíferas que manam desmoronamentos de pepitas cintilantes.

… O Grande Khan contempla um império recoberto de cidades que pesam sobre o solo e sobre os homens, apinhado de riquezas e de obstruções, sobrecarregado de ornamentos e incumbências, complicado por mecanismos e hierarquias, inchado, rijo, denso.

“É o seu próprio peso que está esmagando o império”, pensa Kublai, e em seus sonhos agora aparecem cidades leves como pipas, cidades esburacadas como rendas, cidades transparentes como mosquiteiros, cidades fibra-de-folha, cidades-linha-da-mão, cidades-filigrana que se vêem através de sua espessura opaca e fictícia.

- Conto o que sonhei esta noite – disse a Marco – em meio a uma terra plana e amarela, salpicada de meteoritos e massas erráticas, vi erguerem-se a distância as extremidades de uma cidade de pináculos tênues, feitos de modo que a lua em sua viagem possa pousar ora num pináculo ora noutro ou oscilar pendurada nos cabos dos guindastes.

E Polo:

- a cidade que você sonhou é Lalage. Os habitantes dispuseram esses convites a uma parada no céu noturno para que a lua permita a cada coisa da cidade crescer e recrescer indefinidamente.

- Há algo que você não sabe – acrescentou o Khan. – Agradecida, a lua concedeu à cidade de Lalage um privilégio ainda mais raro: crescer com leveza.

Piaget já sabia

•6 06UTC Novembro 06UTC 2009 • 1 Comentário

Este  é um post quase sem comentários. Piaget nos faz uma pergunta essencial que reverbera dentro de todos os educadores e pais. Estamos preparando nossas crianças para que?

Assista você mesmo!

Ressonâncias imediatas do Sonha Grande São Paulo

•30 30UTC Outubro 30UTC 2009 • Deixe um Comentário

Acabou o workshop do Sonha Grande São Paulo.

Super interessante estar com um grupo tão diverso: ONGs, fornecedores, funcionários da Natura, amigos nossos, amigos do Movimento Nossa São Paulo. Era um grupo grande e diverso que encontrava-se a cada momento com seus sonhos e também com sua visão crítica entrando no caminho do sonho, criando nuvens para visualizar outros possíveis. Não é possível viver em São Paulo sem ser um pouco enfezado (palavra feia, porém adequada numa cidade em que tantas coisas cheiram mal).

Para alguns, foi um grande desafio livrar-se de tantos dados e informações pra criar um espaço livre de criação e sonho. Os olhos azuis do Maurício olhando para o céu, os olhos orientais da Sandra sorrindo, cheios de energia, os olhos contestadores da Malu… nenhum olho fechado. Não havia tempo para piscar. Poucas vezes tive um grupo tão grande durante todo o tempo atento e desejoso.

Alguns precisavam ir e ficaram.Outros foram e lamentaram. A contribuição aconteceu não só pelo que disseram mas pela presença plena do desejo de cada um entre tantos outros desejos legítimos.

Conflitos, diferenças… sim, somos demasiadamente humanos, somos nós mesmos um projeto em revisão, mas o olhar voltava-se sempre a para a nossa cidade, pobre cidade dormitório onde tantos jogam seus detritos e de onde tantos tiram seu sustento.

Sonhamos uma cidade com bicicletas e estrelas, com sorrisos de crianças brincando na rua, um rio vivo e gentileza, muita gentileza!

“Quase nunca nos encontramos sem reclamar da cidade” – diz o Sérgio.

“Só se chegar um argentino a gente fala bem.” – brinca Ale com a porteña Felicitas.

“Menos velocidade, mais fluidez!” – sonha um grupo.

Como facilitadoras, um grande desafio: co-inspirar-nos, respirar, acolher posições distintas e, sempre que possível, ter a invisibilidade necessária para que a magia do grupo se manifeste. Olhamos nos olhos, nos abraçamos cansadas.

Foi muito intenso sonhar a cidade.

Independente de qualquer organização, da prefeitura ou da ONU, é algo que poderíamos fazer mais conosco mesmos, na nossa casa, na nossa rua (já que tantas lindas ruas desenhamos na nossa cidade sonhada).

Assim que der vou postar o slide show das potências da cidade. Adorei fazer e espero que gostem de assistir!

Obrigada a todos!

FIB, Sonha São Paulo e a possibilidade de imaginar novos mundos

•15 15UTC Outubro 15UTC 2009 • 2 Comentários
TUCA_aérea

imagem de Tuca Vieira

Hoje é Blog Action Day. No mundo todo, os blogueiros escrevem sobre a questão climática. Tenho conversado sobre sustentabililidade, economia e novas perspectivas para a cidade de São Paulo com meus amigos e ouvi ideias bem interessantes que vou reunir neste post.

Que novos modos de pensar e conviver podem nos ajudar a mudar o mundo em que vivemos? Como podemos subverter, reverter e reformar o que vivemos do pequeno ao grande acontecimento?

Vou dar alguns exemplos muito variados que, espero, possam rechear de inspiração o seu dia. Eles vão da macroeconomia à micropolítica, então este post é uma espécie de mergulho que parte de uma visão aérea e vai até a modificação de coisas simples do dia-a-dia, pensando sempre na inovação e na construção de um mundo mais sustentável.

Começando pelo mais macro, acho importante mencionar a linda subversão do conceito de PIB, através da criação do FIB, indicador de Felicidade Interna Bruta. Nada tão novo. Esse movimento foi iniciado pelo rei do Butão Jigme Singye Wangchuk nos anos 80, quando ele criou um novo índice para apurar o sucesso da economia do seu país. O FIB trabalha com 9 dimensões inter-relacionadas:

Padrão de Vida, Boa Governança, Estado de Saúde, Educação, Diversidade Cultural, Resiliência Ecológica, Vitalidade Comunitária, Uso Equilibrado do Tempo Bem-estar Psicológico e Espiritual.

Fica evidente que vai surgir daí uma cesta de indicadores muito diferente daquela que compõe o PIB! Quem sabe nos ajudará a rever conceitos antigos de crescimento e progresso baseados no acúmulo e na exploração de recursos.

O movimento de elaboração e disseminação do FIB, que tem em Susan Andrews uma de suas maiores disseminadoras, pretende fornecer ferramentas para planejar um novo modo de investir e organizar as comunidades em que vivemos tendo em vista a interdependência fundamental que está tanto por trás do processo evolutivo no nosso planeta quanto das nossas mazelas. Somos um único sistema vivo.

Indo agora para um nível um pouco mais “micro”, temos a cidade, que é o lugar onde se manifestam todas as contradições do sistema sócio-econômico. São Paulo, pulsa, cheia de vida, mas é atravessada por um rio morto… é lugar de tantos encontros, mas também de tantas pessoas perdidas. Então como ser feliz na Cidade de São Paulo? O que é bem estar numa das maiores metrópoles do mundo? Com podemos, juntos, começar agora a construir o futuro que desejamos a partir dos grandes potenciais dessa cidade?

Conversávamos sobre isso com gestores da regional São Paulo Capital, da Natura. Eles refletiam sobre a complexidade de apoiar causas sócio-ambientais na cidade. O que selecionar? Em torno do quê as pessoas têm mais desejo de se mobilizar? Como a Natura poderia contribuir na busca de bem estar nesse ambiente?BANNER NATURA SONHA SP_2 hires

Decidimos então fazer uma Investigação apreciativa (IA) sobre o tema. Esse método nos ajudará a ouvir e conversar para compreender melhor os sonhos de cidade que estão na mente de colaboradores da empresa, stakeholders e cidadãos em geral.

Fazer renascer o Tietê? Plantar árvores frutíferas nas ruas? Escolas públicas de qualidade? Teleféricos para melhorar o trânsito?

Entre sonhos lúdicos e necessidades básicas, entre possibilidades delirantes e a linha amarela do metrô, vamos descobrir possibilidades e elaborar projetos.

Você pode participar dessa proposta inserindo o seu sonho no www.sonhasaopaulo.com.br e estimulando pessoas da sua rede a fazerem o mesmo. A partir do que será registrado ali, vamos fazer um estudo dos temas mais freqüentes e vamos ajudar a Natura a refletir sobre sua atuação na nossa cidade.

Finalmente, se você quer uma ação mais imediata, micropolítica e até autoral, aqui vão algumas inspirações. No blog do Desvio há um post super bacana sobre o conceito de Gambiarra: criatividade tática. Não, não se trata de fazer “um gato” na fiação elétrica, nem usar fita crepe para fazer a barra da calça (apesar de tudo isso fazer parte do espírito libertador do conceito). Trata-se de manter abertas possibilidades modificar, subverter e re-criar a realidade em que vivemos, de manter ativa uma criatividade tática que nos aproxima a cada instante da inovação e de nos mesmos, com nosso olhar único sobre o mundo e nossa potência de atuar.

Estar alerta, ativar nossas redes e ter consciência do que queremos sustentar no mundo é fundamental para vivermos no presente o futuro que desejamos.

Se você vai participar desse movimento fazendo uma modificação no seu ambiente de trabalho, realizando um grande projeto como o Sonha São Paulo ou procurando apurar o FIB de um país, não importa tanto. Importa sim que você reforce os fluxos de mudança nos quais acredita.

O sucesso passa a ser uma resultante de todos esses esforços coletivos e não de uma iniciativa em particular.

Veja este vídeo para se inspirar. Uma idéia criativa, uma gambiarra européia, um novo design para um mundo que já existe!

Aprendizados sobre a importância do silêncio

•2 02UTC Outubro 02UTC 2009 • Deixe um Comentário
André Tubero em silêncio

Andréa Tubero em silêncio

No último fim e semana participamos de um encontro muito interessante sobre o IVE, Imagens e Vozes de Esperança, que aconteceu na Brahma Kumaris em Serra Negra.

Foram muitas reflexões e meditações poderosas, por isso decidi partilhar algumas delas aqui no blog.

O IVE propõe um novo olhar e uma ampliação da consciência sobre o nosso papel como comunicadores, sejamos ou não pessoas que trabalham diretamente com o assunto. É um movimento que foi iniciado por Judy Rogers, famosa âncora de telejornalismo americana e parte do princípio de que “vozes criam mundos”.

Se você conhece alguns princípios básicos de física quântica, conhece os trabalhos de Humberto Maturana sobre o tema da percepção ou simplesmente assistiu o filme “Quem Somos Nós”, sabe que essa idéia é hoje uma constatação. Nossa percepção se constrói com base nos modelos mentais que criamos para conceber a realidade. Agimos de acordo com esses modelos, criando no mundo as imagens que estão em nossa mente, em nossa fala e nas nossas conversações.

Que mundo estamos criando nos diálogos que estabelecemos, nos textos publicamos e nas imagens que criamos?

Essa imensa responsabilidade e criatividade de criar mundos a partir da nossa “voz” está presente também na Investigação Apreciativa. De acordo com esse método, é preciso concretizar um sonho positivo de futuro para guiar nossas ações na direção que desejamos.

Luciana Ferraz

Luciana Ferraz

Durante o encontro do IVE, algumas contribuições adicionais aconteceram. Luciana Ferraz, uma experiente facilitadora de meditação da Brahma Kumaris, fez uma reflexão interessante. A quem serve o medo que hoje vemos disseminado nos processos de comunicação?

Segundo ela, o medo gera a insegurança (isso todos sentimos na pele todos os dias) e essa insegurança gera necessidade de aceitação. Claramente, seres inseguros são mais passíveis de manipulação, tendem a ser mais obedientes e a procurar realização através do consumo. Os objetos constroem para essas pessoas uma imagem que pode substituir, ao menos de forma ilusória, a segurança, o sucesso e o poder.

Christina Carvalho Pinto, do Mercado Ético/ Full Jazz, trouxe casos interessantes que ilustravam essa situação. Desconstruir a idéia de sucesso é uma das tarefas mais árduas que temos na busca de um mundo de relações transparentes e verdadeiras.

Segundo Luciana, há alguns passos muito simples que podemos tomar para evitar que esse ciclo de medo, insegurança e busca da aceitação via consumo tomem conta de nós. O silêncio é parte fundamental desse processo. “”O silêncio incomoda. Estar sozinho às vezes é como subir até o 20o andar com um desconhecido no elevador “.

Adorei essa metáfora. Quem nunca se sentiu assim? A auto-transformação é a base de todo processo de mudança e suportar o próprio silêncio é um dos primeiros passos para que ela aconteça.

O mesmo acontece nos grupos, talvez de forma mais evidente: o silêncio incomoda, ele nos leva a explorar o mundo interior e a aguçar nossa percepção do presente, onde não estamos acostumados a permanecer. Quando somos obrigados a nos observar nesse silêncio, o mal estar normalmente toma conta. Por que será? Talvez esse seja um exercício difícil mas necessário.

Luciana propôs então uma meditação no grupo a partir de uma seqüência muito simples: IN, UP, OUT.

No momento IN, resgatamos o que já somos de maneira simples, com palavras diretas, sem rodeios. Partilhamos quem somos.

No momento UP, sonhamos juntos a partir do melhor que cada um pode trazer para o grupo.

Finalmente, OUT, quando compartilhamos, dialogamos e refletimos sobre o que queremos entregar ao mundo.

Qualquer semelhança com a seqüência da investigação apreciativa, que propõe as etapas Discovery, Dream, Design e Destiny, não é mera coincidência.

Ao dialogarmos, no momento conclusivo da meditação proposta por Luciana, podemos nos conectar com as questões mais vitais presentes num grupo, iniciando de forma muito mais qualificada nossos processos de criação, de inovação e transformação organizacional. Por isso, um dos insights fundamentais para mim foi exatamente esse: a necessidade de contemplar o silêncio  quanto trabalhamos com times de inovação.

Mil agradecimentos a todos os encontros que tivemos no final de semana.

À Chistina, por suas preciosas histórias e seu infalível humor, à Brígida, pelo olhar mais brilhante que já vi, à Maria Fernanda (mafeteco), pela facilitação generosa. À Escobar, quase 90 anos e aprontando, à dança da Rita e à musica do Cícero. Espero que as idéias que construímos possam se tornar realidade.

Seguem finalmente, os princípios do IVE para quem quiser aprofundar esse conhecimento:

  • Criar raízes locais
  • Despertar a sabedoria inerente ao sistema
  • Compromisso com a Diversidade
  • Métodos de diálogo para a mudança positiva ( IVE utiliza sobretudo os métodos do World Café e da Investigação Apreciativa)
  • Importância de ouvir profundamente
  • Silêncio
  • Valorização do espaço artístico (e, portanto, da criatividade).
Ana Rita Ferraciolli abraça os resultados

Ana Rita Ferraciolli abraça os resultados

Biomimetismo: Não pise na grama sem perceber o que ela esconde

•2 02UTC Setembro 02UTC 2009 • Deixe um Comentário
... ou deite e role para ver como ela funciona.

... ou deite e role para ver como ela funciona.

Um dos princípios mais utilizados para gerar idéias é a analogia. Dia desses, durante um projeto, recebi um telefonema de um participante. Ele me perguntou se seria interessante entender como a Igreja Universal consegue atrair tantos fiéis e fazer uma analogia com negócio deles.

A primeira resposta que me ocorreu estava relacionada à busca dos contextos nos quais nos inspiramos para gerar idéias e soluções. Isso porque, toda analogia carrega consigo uma dinâmica. A velha analogia do mundo como relógio, por exemplo, trazia consigo a inevitável dinâmica mecanicista. A analogia de trilhas de aprendizagem, tão utilizada em grandes universidades corporativas, também exige cuidado para não gerar uma visão de caminho pré-definido, onde cabe ao “caminhante” apenas “seguir a trilha”. Enfim, a analogia pode ser um ótimo trampolim para a geração de idéias, mas é preciso entender de onde ela vem e ter uma visão crítica.

Comentando esse tema com um amigo, recebi de presente o link do site Ask Nature. Trata-se de um banco de dados de soluções da natureza que pode ser consultado através da simples questão “how would nature…?” O site, gerido pelo Instituto de Biomimetismo, é fácil de navegar e memoriza as buscas que você vai fazendo ao longo de uma dada pesquisa.

Na busca de formas diferentes de realizar processos de seleção de projetos de inovação, por exemplo, descobri que existe um estudo interessante sobre como as abelhas “votam”. Suas táticas incluem, por exemplo, a apreciação da diversidade dentro do conjunto de possibilidades disponíveis antes de qualquer escolha. Interessante, não?

Nem toda a informação está lá, nem todos os documentos que o site menciona estão disponíveis para consulta porque muitos são papers científicos. Apesar disso, só a pesquisa já inspira.

Você já pensou, por exemplo, em pesquisar em que condições a grama vence as ervas daninhas? A estratégia da grama verde de Kentucky é construir conexões tão fortes que não deixam espaço para a estratégia solitária de determinados tipos de mato. Talvez uma inspiração para as redes sociais.

A natureza apresenta soluções que contemplam em sua dinâmica de funcionamento características muito desejáveis: a interdependência das partes, o funcionamento sistêmico e a co-evolução, entre outras. São inspirações para processos de gestão, design, arquitetura, tecnologia. Está na nossa cara!

Por isso, não pise na grama sem pensar em como ela funciona! Na própria natureza e, portanto, em nós mesmos há incríveis soluções para nossos dilemas.

Eu só soube correr (ou como o esporte mudou a vida de uma pessoa péssima nos esportes)

•17 17UTC Agosto 17UTC 2009 • 1 Comentário

Só soube correr.

difícil pacas jogar esse troço. Repara no tamanho da bolinha!

Não tinha pendor para os esportes de equipe e enfim um dia alguém me percebeu. (Acho que não era tão difícil, tendo em vista o meu ridículo desempenho no hóquei de grama…)

“Você só pode correr. É irremediavelmente ruim nos esportes com bola” – me disse a professora americana.

Foi uma profecia mas, ao mesmo tempo, uma boa orientação. Finalmente alguém me dizia alguma coisa absolutamente honesta e simples. Eu tinha então uns 16 anos e posso dizer que foi uma revelação sentir-me parte do pelotão da frente depois de anos de desastrosa aventura escolar sendo sempre a última a ser escolhida nas aulas de educação física.

Comecei então a correr seriamente. A professora era uma mulher fria, ruiva e masculina que não sei se botou fé ou sentiu compaixão por mim, mas me ajudou. No final ela sorria e me fazia sinais de positivo. Tínhamos vencido uma marca em mim, tínhamos aberto outro caminho, talvez uma coisa simples e sutil, mas na verdade poderosa na medida em que transformava em ilusão uma incapacidade que eu já considerava como um dado. Entretanto, sobrava meio veredito.

esta obviamente não sou eu!

Depois de anos, jogávamos frescobol numa praia em Ubatuba. O dia era lindo e nos protegíamos do sol intenso debaixo de um “chapéu de sol”. Meu amigo era carioca, chamava a árvore de amendoeira e dizia que não era possível eu jogar tão mal.

Contei então o veredito que me tinha sido dado anos antes pela professora americana. Eu não fora feita para os esportes com bola.

Ele riu muito! Era um cara engraçado e moreno, com cabelos encaracolados e que gostava de se atirar no mar de costas, em grandes splashs. Seu nome era (e é) Maurício, um amigo pra quem (garanto) nada é impossível.

Ele voltou da água pingando e me desafiou. Disse que jogaria comigo até que eu aprendesse, ou pelo menos “passasse a primeira rebentação” pra sair daquela marca de impossibilidade. E jogamos.

Fazia um calor terrível e nossa amiga Bia nos chamava de loucos enquanto se abrigava em sua canga. Os banhos de mar aliviavam um pouco o esforço e o dia já ia ganhando uns vermelhos quando decidimos parar. Ele tinha conseguido.

Claro, nunca participarei de um campeonato, apesar de tudo, o esporte não me obstina e creio, no fim de tudo, que realmente não fui feita para ele. Tudo bem.

Serviu para mostrar de novo que vereditos não servem para nada.

Hoje a treinadora americana já deve ser uma velhinha, eu tenho dois filhos e meu amigo Maurício renasce em Londres, depois de um terrível acidente. Nada é impossível.

Vivemos o que percebemos do mundo e com nosso viver transformamos esse mesmo mundo. Que imensa responsabilidade em ter uma história que é, em grande parte, construída pelo modo como enxergamos a realidade. Eu que não corria, me percebo corredora ao correr. Eu que não jogava, ao jogar me transformo.

Humberto Maturana, anos atrás

Essa semana estive com o Humberto Maturana e a Ximena D´Ávila na formação em Biologia Cultural . Ao que tudo indica, grande parte do que é ‘viver bem’ diz respeito a conseguir olhar-se de fora, assim como na Yoga e em outros tantos lugares de sabedoria. Para mim faz sentido. Ao olhar-me de fora e perceber como estou fazendo o que estou fazendo tenho a possibilidade de rir de mim e de me instalar na multiplicidade da vida que esse olhar estabelece. Eu não sou só o que observo em mim num dado instante. Transformo-me a partir dos fazeres que crio para mim.

Faz sentido.

Em todo caso, para quem é muito pegajoso como eu e não tem essa plasticidade para descolar de si mesmo a qualquer instante, talvez seja melhor cercar-se de boas conversas. Assim, alguém poderá lhe fazer um convite para você se olhar de outro modo, como o meu amigo Maurício fez comigo ou, pelo menos, como profissionalmente fez minha professora americana.

Sobre esse mesmo tema dos limites e das possibilidades, não pude deixar de pensar no tema da educação. No Brasil, meu desempenho nos esportes era pífio, mas demorou anos para que alguém olhasse para mim. Talvez, mais do que ganhar a corrida, eu precisasse ser legitimada.

Ainda bem que aconteceu aos 16.

Fico pensando nas escolas em que nossos filhos estudam. Como será que eles escolhem os times hoje em dia? Será que percebem que nossos maiores aprendizados se dão nas relações? Será que são lugares de bons encontros?

Difícil.

Educar, mesmo em casa, não é tarefa simples exatamente por isso, porque se faz no fazer, não só no dizer. Vivemos tão divididos que muitas vezes nos esquecemos de descolar do cotidiano e perguntar: essa é a mãe que eu quero ser?