Mãe de avião

Meus queridos,

Hoje escrevo para contar umas coisas de mãe.

As mães mudaram muito, talvez vocês não saibam, porque eu sou a única mãe que vocês têm, mas queria contar como era antigamente, quando as woman_on_planemães não andavam de avião, porque podiam preferir ficar em casa, e usavam lenços para não perderem a cabeça. (A minha tinha um lenço amarelo muito lindo que combinava com sua pele morena e seus olhos esverdeados).

As mães não gostavam de aeroporto porque têm cheiro de distância e levavam seus filhos pela mão por onde andavam. Hoje, mesmo que as mães queiram, os filhos não querem dar a mão, porque também aprenderam a mudar quando as mães deixaram de usar seus lenços.

Antigamente as mães cozinhavam bolo durante a tarde pra gente chegar da escola e sentir cheiro de amor. Hoje as mães correm para chegar em casa e sentir o cheiro dos filhos, mesmo que eles estejam dormindo.

Mas queria que vocês soubessem que nem tudo é ruim nem ruína. As mães de hoje não ficam a ver navios quando seus maridos viajam, não temem ficar sem assunto nas festas nem têm medo de dirigir na estrada. Elas sabem fazer cafuné num pai tristonho e procuram preparar-se para a solidão, antes que a solidão lhes prepare algo.

Sou uma mãe de aeroporto. Não era isso que eu queria, mas foi o que aconteceu. Acho que uma coisa das mães de hoje é amarem o que lhes acontece, porque muitas coisas acontecem, a todo instante, mesmo que não se perceba ou não queira. As mães de hoje não podem se esconder.

Eu tento ter calma e acho que criei uma espécie de mágica: quando estou com vocês, parece que uma cortina se fecha e ficamos só nós quatro no palco, eu, vocês dois e o papai, com nossas brincadeiras, nossas brigas, nossos passeios. Mesmo quando estou no avião, sei fazer essa cortina se fechar de novo para ver suas carinhas tão vivas quanto nunca. É uma cortina vermelha e pesada, como aquelas dos grandes teatros, só que atrás dela não há platéia, mas o mundo todo em que vivemos. A escola, a praia, a cidade, tudo está do outro lado da cortina e do lado de cá estamos nós, com a nossa pequena história de amor.

Eu espero que vocês possam também usar essa tal de cortina que eu criei. É só a gente fechar os olhos, ninguém nos impede, ninguém pode ver o que vemos.

Assim, quando tiverem saudades, espero que possam fazer como eu e imaginar que estamos dançando num palco lindo, com piso de madeira lisa e brilhante, ouvindo nossa música preferida e sentido o cheiro de pipoca que o papai está preparando.

Beijo,

Mamãe.

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