Eduardo Gianetti e o conceito de corrida armamentista do consumo

Óntem a noite Marília Gabriela entrevistou o economista e sociólogo Eduardo Gianetti. Quem não viu, perdeu. Já procuramos na NET, mas ainda não parece haver o conteúdo online.

Eduardo Gianetti

Eduardo Gianetti

Foi uma entrevista fascinante sob dois pontos de vista:  o do conteúdo e o da forma como ele o apresenta.

A entrevista deveria versar sobre  “Crise Mundial”, mas passou por muitos outros temas. Eduardo identificou como um dos fatores fundamentais da crise a “criatividade financeira” de tantos envolvidos nas operações de Bolsas de Valores, com seus pacotes de títulos inimagináveis e suas operações em mercados futuros de quase tudo.

Mas, foi além e entrou no tema dos valores que estão por tras dessas ações que tanto nos espantam. Será que eles são tão diferentes dos nossos? O que faz um  executivo ignorar riscos sobre os quais, como colocou o próprio Madoff em seu julgamento, todos estavam cientes?

Na visão do economista, por trás disso há uma “corrida armamentista do consumo”, na qual queremos consumir bens que nos diferenciem dos demais mortais. Trata-se de um processo sem fim, já que quanto mais pessoas adquirem os tais bens “posicionais”, menos ele se torna diferenciador e, portanto, haverá a necessidade de consumo e novos bens. Voilá, eis como um jovem executivo prefere ignorar riscos e comprar uma Ferrari que lhe trará muitas e muitas novas conquistas. “Enough is not enough!”

Por isso quando falamos de inovação é essencial falar cada vez mais de ética! O que está por trás de cada inovação? Quais suas consequências sistêmicas? Elas suprem necessidades reais ou só alimentam a “corrida armamentista do consumo”?

Fiquei torcendo para que Marília questionasse Eduardo sobre a questão da sustentabilidade nesse contexto. Finalmente o assunto veio a baila e de novo esbarra no nosso padrão de consumo. Você pode não querer uma Ferrari, mas provavelmente come carne, então tome esta: você sabia que os rebanhos do mundo (bovinos, ovinos e suinos) são responsáveis por uma emissão de carbono maior do que todos os carros do mundo juntos.

Trocar gasolina por flex pode aliviar um pouco a sua consciência, mas “it´s not enough” quando se fala dos problemas globais. Para Eduardo, a crise atual é “ficha” perto do que está por vir e, pior, a crise ambiental envolve mudanças de valores que (quem trabalha com aprendizagem bem sabe) demoram muito. Espero que tenhamos tempo e coragem.

Bom, vai ficar muito comprido falar também da forma da entrevista. Mas a serenidade, a clareza de propósito e a qualidade do pensamento de Gianetti sempre me impressionaram. Quem nunca leu suas obras, vale muito a pena. Para quem trabalha em organizações, indico “Beliefs into Action”, que ele mencionou na entrevista. Foi escrito em 1991 e está sendo relançado em Paperback e fala do porquê nossas crenças muitas vezes não se traduzem em nossas ações. Muito pertinente no momento atual.

Para ver uma entrevista dele os temas  que mencionamos, segue o link:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2006/maisdinheiro2/rf2711200608.shtml

Para fechar, duas citações de Eduardo.

“Só me interessam os bens que despertam no populacho a inveja de mim por possuí-los”. Petrônio, autor de Satyricon

“A curiosidade está para o conhecimento assim como a libido está para o sexo.” (do próprio Gianetti)

2 comments

  1. Ola.Peguei o programa já pela metade e me deliciei com a serenidade e a simplicidade de Eduardo Giannetti.Com respostas fincadas na história e não no imediato.Observações tão difíceis de se encontrar hoje.Fui procurar mais sobre tal pessoa e encontrei o seu espaço.Sorte a minha.Duas boas descobertas em um único dia. Obrigada.

  2. Olá, sou economista e também assisti e a entrevista, que realmente foi espetacular! Pedi recentemente ao GNT que me disponibilizassem ela, até para utilizá-la com fins didáticos. Veremos o que eles me respondem. As preocupações de Gianetti trazem a economia às suas raízes, de modo a enriquecê-la, da mesma forma que acredita o nobel em economia Amartya Sen. Parabéns pelo post e, por favor, se conseguirem a entrevista, entrem em contato, eu ficaria muito agradecido. Abraços, Bernardo. bmodenesi@gmail.com

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