Ponte?

E o que falta ao asfalto senão um suspiro que suspenda os carros para além das ruas e provoque o sorriso das crianças dormidas com caras de enfado, presas, acopladas aos bancos dos carros com mil mecanismos de segurança? O que falta ao asfalto que flutua sobre o rio além de um espelho para ver seu reflexo na sujeira invisível da noite que encobre pneus e latas e faz da cidade um encanto de fadas futuristas a roçarem os brilhos dos prédios e os colares dourados de postes?

O que diria o asfalto que cobre e voa, dos carros tocando músicas para as vaginas gotejantes das emendas? Será que recitaria poesias e louvaria os ruídos que o fazem vibrar, agora que o rio não vibra? Será que ele gostaria de imaginar sua própria queda, a glória de um dia em que todo o trânsito atônito pararia para contemplar sua impensável fragilidade?

E o que diria o asfalto do pavor dos pedestres no momento ao ouvirem seu grito de pedra? Sentiria ele as cócegas insuportáveis dos pezinhos amedrontados, correndo de um lado a outro, saltando rachaduras?

Mas para que, se tudo são sonhos e ele continua ali mesmo, parado, diligente, asfalto filho de homens que não sabem que dentro de sua massa ainda moram pensamentos?

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