Conversas presentes

No maravilhoso livro De Verdade, Sándor Márai fala das testemunhas. Ele dá esse nome àqueles velhos amigos com quem temos uma relação de cumplicidade tão verdadeira, que seu testemunho é essencial para nossa história. Para o autor, muitas vezes vivemos para as testemunhas, imaginando, ao tomarmos uma decisão, o que elas pensariam. Devo aceitar este trabalho? Esta paixão vai durar? Devo fazer esta viagem?

Outro dia encontrei uma testemunha. Fomos ao Centro do Rio tomar um café na maravilhosa Confeitaria Colombo.

Eu não tinha um presente ao dar ao meu amigo. Envelhecemos, mas estamos ambos renascendo. Ele falava animadamente (renascer rejuvenesce). Eu ouvia e viajava no tempo. Não sei quantas vezes já fizemos isso. Sei apenas que quanto mais ele me contava, mais eu sentia vontade de presentear-lhe com algo. Um pensamento, uma história, uma lanterna, algo que pudesse ajudá-lo a enxergar com mais clareza tudo o que está vivendo.

Acho que é disso que se tratam as boas conversas e os bons encontros. A gente sente uma vontade irresistível de dar um presente.

Foi então que me veio à mente um pensamento antigo que eu tivera sobre ele. Não era muito fácil de dizer, porque as testemunhas não estão na nossa vida pra agradar, mas eu disse.

Pude assistir o efeito que isso fez no seu rosto e nas rugas que carrega. Poucas vezes tive tanta certeza de ter dado um bom presente.

…Hoje em dia, nas festas de aniversário, as crianças mal olham os presentes que recebem. Eles ficam em cestos perto da porta e são abertos na ausência de quem os escolheu. Isso é triste. Ninguém vai receber de volta o olhar que eu recebi naquela mesa da Confeitaria Colombo.

Quantas conversas são presentes de fato? Quantas vezes recebemos de volta um olhar como esse?

Não acredito que isso possa vir apenas de uma testemunha, acho que pode vir de todas as pessoas com quem conversamos de fato.

Eu me senti premiada naquele instante e gostaria que mais pessoas se sentissem assim: sentadas num lindo lugar cheio de memórias, diante de um doce mil folhas e um café, enxergando dentro do outro, sentindo palavras.web2_DSC_0417

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