Umair Haque e a Inovação Comportamental

umair-haqueConheci o trabalho de Umair Haque através do post de uma amiga no Twitter, o que deve ser um sinal dos tempos. Graduei-me em economia há muito tempo e desde então não encontrava um trabalho nessa área que me interessasse tanto.

Haque é o autor do Manifesto do Crescimento Inteligente e do conceito de inovação comportamental. Para mim, suas idéias são tão lógicas e essenciais quanto disruptivas. Por que? Porque finalmente alguém conseguiu atrelar inovação e ética de forma fundamental.

Eis algo em que realmente acredito. Se você está pensando em produtos, serviços, mercados ou negócios do futuro, você é profundamente responsável pelo mundo que ajuda a construir com suas idéias. Nada mais lógico do que perguntar-se: “como essa idéia afetará o mundo?” “quem se beneficiará dela?” “ela desperdiça recursos naturais?”.

O pensamento de Haque é profundamente ético, mas vai além.

Ele propõe que a crise atual coloca em cheque o pensamento estratégico fundamental do sistema capitalista que ele chama de Capitalismo 1.0 (leia-se, aquele que se baseia em princípios construídos durante o século XX). Ele cita, numa palestra que se pode assistir no site Vimeo, a frase de um dos fundadores do pensamento econômico, Adam Smith, que teria dito a pérola “tudo para nós e nada para o povo.”

Normalmente a inovação procura ampliar os benefícios oferecidos a clientes e consumidores, sempre buscando minimizar os custos para possibilitar que a margem entre estes e o valor final de cada produto ou serviço seja também ampliada. É claro que estou simplificando! Há situações de negócios inovadores que são desenhados para suportar um certo prejuízo durante algum tempo e existem inovações de modelo de negócios que abrem novas janelas de oportunidade e benefícios nunca imaginados. Entretanto, o raciocínio do custo-benefício está presente sempre.

Haque começa a nos chamar a atenção para algo fundamental: o processo! Quando perceberemos que o processo é no mínimo tão importante quanto o produto? Quando perceberemos que ao comprarmos produtos e serviços estamos também comprando um modo de produzir que pode nos levar ao crescimento ou ao colapso?

Diz Haque: “Agora precisamos reconceber os custos e benefícios que dão forma ao nosso comportamento. Precisamos de novos princípios para guiar o valor.”

Estamos vivendo, literalmente, uma crise de valores e como a base da economia é a equação de valor por trás das tomadas de decisão, é provável que tenhamos a oportunidade de afetar todo o sistema.

Um dos princípios do Google, por exemplo, é “você é inteligente e seu tempo é importante”, simples, não? Mas não é preciso ir tão longe, se você parar para pensar, verá que seu comportamento também é guiado por afirmações como essa, que refletem o que tem real valor para você. (Eu, por exemplo, parei na hora de jogar óleo na pia quando soube os gastos que a Sabesp tem por ano para sanar os problemas causados pelo óleo que é misturado à água!)

O autor então menciona 5 princípios da inovação comportamental (mantive-os em inglês, pois não encontrei tradução para todos):

  • Stewardship, que está relacionado à responsabilidade em relação ao uso dos recursos naturais, a usá-los sem exaurí-los.
  • Trusteeship (confiabilidade), que trata de manter o jogo num terreno limpo em termos de negócios e não ser “espertinho” para obter lucros rápidos. ( Como exemplo, ele sita a empresa de telefonia que comprou o nome do Milleninum Dome, em Londres… que oportunidade!).
  • Guardianship, que diz respeito ao zelo pelo bem comum e a mudar o pensamento estratégico individualista.
  • Leadership (liderança), que diz respeito à coragem e ao desafio de apontar o que está errado em um mercado, por exemplo. (Aqui, é claro, ele menciona a estranha falta de liderança que impediu a situação em Wall Street de ser denunciada antes que fosse tarde).
  • Partnership (parceria), que significa a responsabilidade das marcas em buscar não somente a diferenciação e a maior percepção de valor, mas sua responsabildiade em buscar para significado, “thick value”, como ele diz. ( A indústria alimentícia, por exemplo, será que vê os consumidores como parceiros?).

Eu ousei copiar uma tabela que ele apresenta.

Princípio Capitalismo 1.0 Capitalism0 2.0
Stewardship Vantagem de custo Vantagem de perda (para a sociedade como um todo)
Trusteeship Dominância Responsividade (parecido com responsabilidade, mas inclui a capacidade de responder ao ambiente)
Guardianship Controle Resiliência
Leadership Diferenciação Diferença (todos na cadeia de valor ganham um pedaço justo da recompensa)
Partnership Marca Significado

Também extraí algumas passagens dos 4 pilares do crescimento inteligente – para economias, comunidades e corporações:

“1. Resultados, não rendimentos. Crescimento burro diz respeito a rendimentos – estamos mais ricos hoje do que ontem? Crescimento inteligente diz respeito a pessoas e quanto melhor ou pior elas estão, não meramente quanto lixo a enconomia consegue destilar.”

2. Conexões, não transações. Crescimento burro olha para o que está fluindo pelos canos da economia global: volume de negócios. Crescimento inteligente olha para o que forma esses canos e por que alguns desses canos são mais importantes do que outros: qualidade de conexões.”

“3. Pessoas, não produtos.Crescimento inteligente não se move para empurrar produtos, mas pelas habilidades, dedicação e criatividade das pessoas.”

“…O que dá poder ao crescimento inteligente não é capital buscando burramente o menor custo de mão-de-obra, mas a possibilidade de que o trabalho possa ter o poder de buscar o capital onde quer que possa criar, inventar e inovar mais.”

“4. Criatividade, não produtividade. Crescimento inteligente foca a economia criativa porque a criatividade é o que nos permite ver que a competição está criando valor novo ao invés de ficar apenas mudando o valor de lugar.”

Muito para um post só! Vale a pena aprofundar cada idéia que ele propõe. Fica, entretanto, uma pergunta: a sua organização está levando em conta esses novos princípios quando se propõe a inovar?

4 comments

  1. Excelente artigo.
    Interessante é que apenas agora acorda-se para esse assunto. Existe um gap muito grande entre os modelos (no pensamento e na execução) 1.0 e o 2.0 – algumas organizações buscam o novo modelo, e estão, de fato, tendo resultado. Porém, o 1.0 ainda gera muito resultado, para os míopes, mas ainda gera.
    Parabéns por esse Blog, esse espaço é inspirador!!!

  2. Oi Luciana!!
    Só hoje tive tempo de dar uma olhada no seu blog que a Ligia me repassou. Grande descoberta! Gostei muito do jeito que você transita entre campos!

    Dei também uma olhada no material que você enviou do Peter, e no trecho da sua tese,acho que vai ajudar bastante aqui no trabalho!!

    Enfim, ótimo te conhecer! E a partir de agora vou te acompanhar por aqui!
    Grande Abraço
    Ricardo

  3. Oi Luciana,

    Ótima síntese do pensamento de Umair.

    Entretanto, como você colocou em outro post,”inovar dói”. Como muitos de nós, instintivamente, prefere não sentir dor alguma, ou melhor, suporta a dor em doses homeopáticas, permanecemos remendando o capitalismo em versões que parecem uma dízima periódica ao estilo 1.0101012331.

    Então, infelizmente, parece que ainda não existe a motivação transformadora que imporá a versão 2.0, mostrando com clareza e objetividade que não inovar doerá mais ainda.

    []s

    Paulo Ganns

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