O que queremos sustentar?

Humberto Maturana, em uma de suas vidas, há muito tempo atrás.Meu avô tem 84 anos e me fez uma pergunta para tentar justificar a “sensação de fim da vida” em que diz se encontrar. “Você conhece alguém com 84 anos que está começando alguma coisa na vida?”

Conheço sim: Humberto Maturana. Estive na palestra desse incrível senhor e sua companheira de reflexões Ximena D´Ávila promovida pelo Banco Real, Natura e FIEP em São Paulo no dia 18 de junho e a sensação é de estar diante de um novo projeto.

A fala deles a princípio parece complicada de acessar, mas estando diante deles (e não somente de suas idéias num livro) fica claro o porquê.

Como não usar uma nova linguagem para falar de um mundo onde as pessoas vivem a partir da consciência profunda de sua integração com todos os seres vivos e toda a biosfera? Como não buscar um caminho de estranhamento quando se propõe que viver a ética em cada uma de nossas relações é o único caminho sustentável?

Entramos então na “viagem de um novo linguagear” que reflete “novas coordenações dos nossos fazeres no viver”. Trata-se de um convite a um “cambio de mirada”, um outro olhar que leve a um outro viver (mais leve?). Trata-se de um lugar onde o compromisso ético básico é extremamente simples: tu tens presença para mim e eu te escuto. Eu te escuto não porque sei que você pode me entregar algo, mas porque vivemos juntos o hoje.

O mundo que desejamos se constrói a partir desse viver presente durante o qual podemos nos questionar: O que queremos conservar? O que queremos criar com nosso viver? O que queremos sustentar?

Quando ouvi esta última questão fiquei surpresa com sua obviedade e  com o estranhamento que me provocou. “Como não pensei nisso antes? Por que não me fiz essa pergunta?”

Tantas vezes nos perguntamos se algo é sustentável e poucas vezes nos perguntamos o que queremos sustentar em nossas relações, nosso entorno, nas redes das quais participamos. A sustentabilidade não trata de “conservar o humano de qualquer maneira”, não trata de sustentar no tempo uma organização sem considerar que tipo de fazer ela reproduz ou sustenta entre as pessoas que dela fazem parte e na sua rede de relações. Trata-se de entender o que queremos sustentar dentro de cada uma das instâncias sociais das quais participamos, começando pelas mais simples, o encontro um a um. Dizem eles: “O tema não é sustentar algo, mas um certo tipo de fazer e de convivência” que começa com aquele princípio simples: tu tens presença para mim e eu te escuto.

E se há algo que você não deseja sustentar, há sempre a lei dos dois pés, inventada pelos criadores do Open Space: pegue seus dois pés e siga para outro local.

Se você achou essa conversa toda muito existencial, pense também no seguinte: quão inovador pode ser um pensamento que se guia pela questão que está no título?  Quantas vezes não inovamos porque simplesmente já não enxergamos como se dão as relações que nos cercamr? Será que você, como os peixes, não enxerga mais a água onde vive?

3 comments

  1. Excelentes pontos de discussão, ricos né? A linguagem é ponto de contato, pontes se criam e se desfazem através dela, conflitos surgem nascidos normalmente da falta de um olhar que “vê” o outro realmente. Vi Avatar antes de ontem e me peguei pensando nisso… nessa capacidade de ver tão remota para muitos. E na Comuniação Não Violenta do Marshal Rosemberg, na pedagogia do oprimido do Freire e de gente como a gente que precisa estar juntos e ajudar a transformar relações, criar pontes, e não desistir… lembrar para não esquecer do que vale à pena sustentar.

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