10 + n coisas que aprendi na CIRS

Semana passada estive na CIRS.

Fiquei pensando no que postar. Difícil. Foram muitos os encontros, dentro e fora das palestras. Boas conversas!

Fiz aqui o compilado de alguns aprendizados.  Nem tudo está indexado por autor. Na mente, tudo se mistura e recombina, como nas redes.

nodos desesperados disputam tomadas.

Lá vai!

1. A rede não está nos nodos, mas nos fluxos. A rede é puro movimento, por isso não é possível saber o que a modificará ou influenciará. Mesmo mapear a rede é só uma tentativa de fotografar um território que já foi modificado. Mapear redes é arqueologia, como coloca Clara Pelaez.

2. Estar nas redes sociais é não saber. Pela abundância e irregularidade das conexões, não é possível saber como uma informação ou idéia vai fluir, onde vai parar e como será transformada, reinterpretada, ou enterrada. Entendendo isso, twitter vem mudando sua configuração e possibilitando que os próprios usuários acoplem a ele seus aplicativos. A rede resiste ao aprisionamento e os negócios precisam ganhar plasticidade para acompanhá-la.

3. Viver em rede e cooperar são atributos humanos que foram fundamentalmente modificados pelas ferramentas disponíveis. A facilidade de conexão derrubou os custos de transação de cooperar em rede e viabilizou inúmeras iniciativas que não existiriam se fossem necessárias empresas que as gerissem. A empresa simplesmente não é um modelo para viabilizar grande parte dos projetos humanos devido aos seus custos de transação crescentes. Coordenar ações em rede é muito mais barato.

Além disso, as organizações deformam a rede e dificultam que a auto-organização aconteça, assim como os prédios dificultam ver a paisagem. Essa idéia estava já na abertura do evento, feita por Augusto de Franco.

4. O que dá vida à rede são as emoções por trás do discurso de cada integrante. Fala-se muito em informação rodando na rede, mas pouco em emoção. A rede é um lugar de contar histórias, coloca Pierre Levy. A rede é um lugar habitado por pessoas reais, por desejos reais e projetos reais. Talvez por isso as marcas tenham uma certa dificuldade em aparecerem de forma legítima nas redes sociais. Marcas não são pessoas.

5. A entrada numa rede tem que ser voluntária. Quem não entra voluntariamente, não se conecta de verdade, não compartilha conhecimentos e muito menos motivações. O involuntário nunca será um nodo vivo da rede. A rede é expressão.

Cacau Guarnieri conta uma experiência real de empresa em rede no Open Space

6. “Small is powerfull” quando se está conectado, coloca Clay Shirky. Esqueça as grandes redes. Mesmo dentro de uma rede maior, é a pequena rede que anima, energiza e faz acontecer. A ansiedade de uma grande organização, por exemplo, em ter uma grande rede não faz sentido nesse contexto. A rede não nasce a partir de um desejo central, mas de desejos capilares e da conexão entre eles.

7. A liderança na rede é volátil, evapora conforme se exaure a tarefa que ela ajuda a coordenar. Ou ela se engaja em outros desejos presentes na rede, ou será substituída. A grande diferença é que isso não é ruim. Viver em rede é desapegar-se do status, o movimento é constante e se você não for o líder da vez, vai poder ler, ir à praia ou simplesmente continuar vivendo em rede.

8. A grande fronteira das redes não é dada pelas ferramentas, mas pela cultura que as envolve. A rede cria um sistema comum de significados que se modifica e renova em seu fluir. Há crenças, valores e costumes próprios em cada rede. Clay Shirky nos diz que há uma barganha singular, ou seja, regras implícitas de funcionamento e, mais importante de tudo, um propósito, ou o “para quê” a rede foi criada. É a cultura que cria acordos e impedimentos que evidenciam o que está “fora” e “dentro da rede”. Esses limites, entretanto, são líquidos. A rede é um território móvel.

9. Tagear os conhecimentos dá um tipo de acesso à subjetividade do outro que conhece, que posta, que tageia. Há uma energia ligando os fenômenos e o processo discursivo que é a energia emocional. Essas e outras frases carregadas de interpretações estão na tag #2010CICI . Essa tag chegou a ficar entre as 10 mais do Twitter durante a CIRS e mostra que a discussão sobre  a semântica como indexador fundamental da web continua. Pierre Levy deixou um gostinho de quero mais. É por esse caminho que ele segue, ainda que não esteja falando do mesmo que Tim Berners-Lee. “A imagem de um sistema semântico coordenado, matematicamente processado onde podemos situar todos os conceitos e transformações que eventualmente venham a sofrer, além da circulação das emoções envolvidas.”.

Bom, quem viver e tiver paciência para explorar o site dele verá.

Pierre Lévy se inspira no I-Ching

10. Sem gestão pessoal do conhecimento não há gestão coletiva do conhecimento. Um enorme desafio hoje, conforme foi também apontado por Pierre Levy é o foco na busca de aprendizados e na produção pessoal que ocorre na web. A gestão do conhecimento pessoal é a base da inteligência coletiva porque dá início ao ciclo e explicitação do conhecimento e alimenta nossas conversações. “Quando conversamos, usamos palavras e conceitos, fazemos acordos, progressivamente criamos metadata comum, que torna-se a gestão conhecimento coletiva.”

…N. Aprende-se rede com redes. Ouvi isso do amigo Luiz Bouabci, um amigo profundamente envolvido com o estudo das redes sociais. Estava saindo do evento quando começamos a conversar. Sentamos nos degraus e ficamos olhando os operários desmontarem o painel título da conferência até abrir-se para nós a vista total em frente ao pavilhão.

Mais interessante do que a teoria é a prática das redes, onde tudo está sendo construído a cada instante. Há tantas variações possíveis que a teoria não daria e não dá conta de explicar. Além disso, explicar não substitui o viver, só estando em rede para saber como é.

2 comments

  1. Muito obrigado por compartilhar!
    Achei muito interessante o item 2 – o quanto somos ‘torturados’ para aumentarmos nossa habilidade de saber e que quase não temos convite para treinar o não-saber. Legal.

  2. fantástica a sua análise dos debates das “sinapses” novas feitas nas conversas do encontro. qdo vi que foi vc quem escreveu, pensei: eu sabia! já estava te seguindo por já ter lido seus posts no telão. obrigada por compartilhar essa super síntese tão rica. abração fabiana_gaspar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s