Ele olhava o copo e lembrava da sede.

Ela olhava o copo e pensava nas propriedades líquidas da água.

Ele queria pegar o copo, mas estavam em silêncio há tanto tempo que tinha receio de qualquer movimento.

Ela se sentia escorrer, mesmo estando ali parada, diante dele.

“A conta por favor” – pediu ele ao garçom.

“Sim, vamos.” – ela disse.

Qual era então o futuro do copo d´água? Há alguns instantes ele não sabia se seria célula ou esgoto. Agora , sentado sobre a mesa, o copo d´água contemplava com transparente clareza, o futuro móvel de sua própria evaporação.

O que é o futuro? Como vivemos nossa própria passagem? Somos autores do que vai acontecer? O que é transformar-se? O que é inovar?

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Minha amiga Maria é uma pessoa apreciativa. Estar no presente com ela é viver um mundo que tem algo de contente, onde o medo tenta ficar escondido. Mas sonhar é duro para muitos. Ninguém se recupera de ser adulto e encarar os paradoxos do mundo que nos invade (e nos nutre).

Ajudar a sonhar é uma arte esquecida, talvez seja como querer plugar-se num fluxo que vem do futuro.

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Nossa memória atualiza, no presente, cada passado vivido e se move junto conosco sem rumo. O tempo é nossa própria essência em movimento.

(Ou somos a essência do tempo em movimento?).

Ximena contou-nos uma história. Estava em frente à praia, sozinha em casa, quando houve o terremoto no Chile. Imaginou que uma onda imensa poderia atingí-la. Seu futuro foi onda (e também o presente). A transformação acontece a despeito de nós, mas também dentro de nós.

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Teoria: o momento em que se inaugura um projeto é um holograma de seu futuro. Um projeto que nasce a partir de bons encontros, carrega bons encontros. Um projeto que nasce do medo, carrega o medo, a não ser que haja um outro começo.

Os começos são oportunidades de desvio, doem apenas quando nos apegamos ao fim que houve antes deles.

Que bom que o dia amanhece sempre.

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A ruptura, mesmo que pequena, gera uma dobra no fundo do mar, na vida, nas reflexões que fazemos juntos. Inovar talvez seja curvar-se.

Detal do rio Kolgrima, na Groelândia, em maravilhosa foto de Hans Strand.

One comment

  1. Querida Lu,
    Te ouço inspirada. Poeta.
    Te percebo ousada nas reflexões.
    Te vejo corajosa na exploração das profundezas cavernosas da experiência.
    Fluxos líquidos, ondas de ruptura, tranformações… com medo e tudo.
    Que bom que nesse elegante blog negro você encontrou um espaço para o sonho e a esperança.
    Que bom que o dia amanhece sempre!
    Que bom ter você prá conversar!
    Beijos apreciativos (!)

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