Complexidade e Metadesign

Estive na Escola de Inverno do Hub fazendo um curso com o Caio Vassão sobre Complexidade e Metadesign. Queria postar aqui algumas idéias rápidas que me chamaram a atenção.

ambiente de produção VW

Primeiro, o metadesign se ocupa e desenhar o espaço de decisão em que os designers atuam para produzir objetos, informações, interfaces, enfim, o mundo em que vivemos. Essa idéia de espaço de decisão já existe, por exemplo, na economia, mas pensar que ele é um objeto de design me trouxe uma nova perspectiva.

Maturana e Ximena têm proposto a questão “como fazemos o que fazemos” de forma insistente, quase como um mantra e o metadesign do espaço de desisão carrega essa pergunta. É um olhar de fora, um apropriar-se do lugar onde vivemos. Fico imaginando um gigante olhando um pequeno grupo de liliputianos numa caixa e pensando sobre como eles vivem. A novidade, contudo, é resgatar o caráter estético (e portanto ético) dessa pergunta. Imagine olhar para o seu processo, o seu próprio fazer, como arte? Imagine pensar sua casa ou seu espaço de trabalho como o artista que define como vai funcionar seu estúdio?

Aí é que entra a complexidade. Será que o ambiente que crio para a tomada de decisões me ajuda a lidar com a complexidade do mundo? Ele me ajuda a ser um parte criativa dessa complexidade?

Para o metadesigner, é preciso, sim, ter procedimentos estabelecidos, afinal, o mundo precisa funcionar, os programas de computador precisam rodar, as portas precisam se abrir. Mas ao lado disso é preciso lidar com o emergente. Ele não é mais ruído ou desvio, é uma linha de fuga que abre possibilidades que o próprio metadesigner, com seu distanciamento, não seria capaz de prever.

Segundo Vassão, os arquitetos contemporâneos não tentam mais controlar tudo o que fazem os pedreiros. Vão apenas dando contenção e modificando o projeto conforme as decisões dos “fazedores”, acontecem. São quase tutores do acontecimento da construção.

Bom, isso tem diversas decorrências para a vida. Seria ótimo ser capaz de ser o metadesigner de si mesmo e criar um ambiente que permita os ordenamentos funcionais que a vida cotidiana necessita, mas também tenha um espaço para a emergência, o inesperado e uma certa confusão que vai temperando imprevisívelmente os dias.

Agora, talvez pensar isso nas organizações (o enigma pra onde sempre acabo voltando nesse blog) seja um grande desafio. Como desenhar ambientes de decisão e ambientes de aprendizagem com essa visão do design, pensando no viver e no desenvolvimento das pessoas que habitam o sistema?

Acho que muitas vezes esquecemos dessa visão estética. Pouco paramos para nos questionar sobre como fazemos o que fazemos e para redesenhar com o olhar de um designer onde fazemos o que fazemos. Onde talvez seja a palavra: estamos falando de ambiente, de processos e procedimentos, de regras mas também de movimento e dos graus de liberdade que estão abertos para nossa atuação. Estamos falando em arquitetura física, mas também em arquitetura das relações.

É isso. Muitas questões e algumas descobertas.

3 comments

  1. Lu,

    creio que uma pista na concepção de ambientes de decisão e aprendizagem tenha a ver com o aspecto de apropriação informacional, da produção a circulação. nesse aspecto, a forma como o movimento software livre resolve algumas de suas questões, como cria espaços de tomada de decisão coletiva e ambientes que ajudem a instanciar essas decisões transformadas em pedaços de código, hierárquico e estruturado é um caminho e tanto.
    A ética hacker vai nessa linha e ela ajuda a entender como esse movimento está sendo transposto para outras áreas, como é o caso das organizações em geral. Independente de não produzirmos software nesses ambientes, o aspecto informacional continua sendo o mesmo, sendo que o código que vai sendo produzido são os documentos, estruturas de hierarquização da informação, conversas online. nesse sentido, estamos falando da mesma coisa.
    será?
    bj

    1. É Dalton, talvez a gente possa considerar a ética hacker como um metadesign que gera uma ambiente de decisão com características próprias em relação ao uso do espaço físico e virtual, a condições de compartilhamento e a espaços de convivência, entre outros. O interessante é que nesse caso ética é estética mesmo, arquitetura e talvez um metadesigner estude esses aspectos de conformação espacial do lugar de convivência das pessoas que trabalham desse modo. Provavelmente ele desenharia e observaria, procurando melhorar esse espaço. Bom, podemos sempre perguntar ao Caio Vassão, certo?

  2. Oi, Dalton e Luciana,
    Uma maneira de ver o metadesign é como algo que promove a acessibilidade destas questões: a criação dos espaços de colaboração, debate, construção de consensos (e dissensos)… Nem sempre, esses espaços (virtuais ou não) são compreendidos por quem poderia tirar proveito deles ou contribuir.

    Uma proposta é usar níveis de abstração para perceber quando é necessário/útil organizar de forma hierárquica, quando pode ser de forma não-hierárquica, distribuída ou rizomática.

    Outro conceito legal é o de “máquina abstrata”, que seria o objeto de trabalho do metadesign: criar, ajustar, manipular e também desmontar máquinas abstratas. É um conceito de Deleuze e Guattari (tb. do “Mil platôs): são agenciamentos sociais, tecnológicos e estéticos.

    Abraços.
    Caio

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