5 Reflexões sobre Inovação Aberta

Qual é o grande buzz a respeito da inovação aberta? Qual a grande mudança? O assunto foi abordado no Conecta 2010 (promovido pelo pessoal da Inventta) no workshop de Stefan Lindegaard (na Escola de Inverno do The Hub em São Paulo), está presente em livros e comunidades na web e torna-se negócio para grandes consultorias. Registro então algumas reflexões sobre o termo, a partir de tenho visto e lido.

1. Toda a inovação é aberta. Essa concepção ficou clara tanto na apresentação de Matthew Heim, CEO da NineSigma, no Conecta, quanto na palestra de Stefan Lindegaard na Escola de Inverno do HUB São Paulo. Hoje a inovação aberta tornou-se uma “buzz word” porque novas ferramentas online abriram perspectivas antes inimaginadas, mas daqui a algum tempo toda inovação será aberta. Além disso, toda a inovação sempre foi de certa forma“aberta”, pois requer uma gama enorme de expertises para ser implementada. A diferença no momento atual é a ampliação da possibilidade de busca e conexão. Qualquer empresa que tenha uma boa pergunta de inovação, um bom “Elevator Speech” (que evidencie o que ela busca em termos de inovação) e as ferramentas certas, pode ter acesso a virtualmente qualquer profissional no mundo.

Se cada pessoa é um portal, como colocou Augusto de Franco no Conecta, as possibilidades são infinitas. A questão passa a ser, então, como selecionar esses contatos, filtrar, e inovar com eles em rede. Tudo isso aumenta a complexidade das organizações, mas potencialmente aumenta sua capacidade criativa. Talvez a grande questão seja gerar novos paradigmas de gestão que dêem conta desse novo potencial. Talvez o próprio verbo gerenciar tenha que ser repensado para compatibilizar elementos como controle e instabilidade, criatividade e organização. Inovação é saber viver à beira do caos (no bom sentido), é saber conviver com paradoxos. Quem está preparado?

2. É preciso começar dentro de casa. Um ponto que é colocado como fator de sucesso por diversos especialistas e casos práticos é começar articulando a rede interna da organização. Pode parecer trivial, mas criar uma cultura de rede em que as próprias questões de inovação da organização possam ser compartilhadas com seus funcionários e parceiros diretos já é um grande passo. Isso porque a vida e as conversações nas empresas ainda estão organizadas majoritariamente em “nichos” de trabalho e é difícil visualizar o grande mapa de inovação quando o tempo é escasso e a cobrança por resultados, implacável. É preciso entregar o planejado. Como então lidar com questões emergentes que mudam o tempo todo?

Nesse sentido há grandes desafios para a cultura e o ambiente organizacional, tais como possibilitar o engajamento em projetos de inovação (e não somente naqueles que já são de responsabilidade de cada um), abrir espaço e reconhecer esse engajamento.

3. Rede é vínculo. Há uma boa discussão sobre como promover o engajamento dos diversos atores na inovação aberta. Existem dois caminhos claros que, segundo me respondeu Matthew Heim, são complementares. O primeiro caso seria o do engajamento pontual, em que os atores entram na rede para ajudar a responder uma pergunta específica de inovação. O segundo caso seria a formação de uma rede de inovação perene, em que os diversos atores têm um vínculo mais duradouro.

Há uma grande diferença entre esses dois caminhos. No primeiro caso, pensar em gestão de rede pode ter sentido: é preciso gerenciar as questões de inovação e os atores que podem ajudar a solucioná-las. Mas no segundo caso, quem gerencia? Não seria cada organização mais um ator nessa rede? Como ficam as relações de poder e a necessidade de buscar o “fair share”, conforme coloca Umair Haque, ou as relações de ganha-ganha que afinal sustentam a inovação no longo prazo? Quando há um ator muito mais forte do que os demais, como isso afeta os vínculos que se estabelecem na rede?

O modelo da rede perene implica uma ética nova. Hoje é muito comum que as grandes corporações se relacionem com seus fornecedores sem se sentir na obrigação, por exemplo, de responder a uma proposta enviada. Transporte isso para o pedido de ajuda numa rede, pense no Linked in, por exemplo, e veja quanto esse tipo de atitude seria considerada estranha num contexto em que todos querem cuidar de sua reputação. Relacione isso ao tema de “ser o parceiro preferido”, colocada por Lindegaard em seu livro, e imagine como as relações em rede representam uma mudança para as organizações.

4. A rede se constrói na diversidade. Venessa Miemmis, que se define como uma etnógrafa digital, oferece algumas inspirações para pensar nas relações ganha-ganha não como igualdade, mas como algo a ser construído a partir dos diferentes papéis que os atores desempenham nas redes das quais participam.

Venessa colocou na web na semana passada um gráfico muito interessante (e profundamente discutido, se você tiver a paciência de ler os comentários) sobre os diversos papéis que temos como atores nas redes.

Quando olhei o gráfico fiquei pensando no nível de complexidade de qualquer tipo de “gestão” ou mesmo configuração de uma rede. Cada ator assume, a cada momento, papéis diferentes nas redes em que atua. Manter uma rede com uma ecologia que permita tanto a diversidade de atores quanto a diversidade dos papéis desempenhados por eles é um lindo desafio. Vale refletir sobre como isso afeta as redes de inovação aberta.

5. Criar condições criativas para ser afetado pela rede talvez seja um dos maiores desafios da inovação aberta. Estou lendo It´s Alive de Chistopher Meyer e Stan Davis e ali encontrei uma sábia afirmação que interpreto livremente: se as redes por um lado nos deixam mais sensíveis aos acontecimentos, também nos deixam mais vulneráveis ao acaso. Não se trata apenas de demandar soluções de uma rede, mas de estar presente nelas de forma a construir um novo tipo de sensibilidade e ampliar a percepção que a organização tem das transformações do ambiente. Trata-se de perguntar e ser questionado, de pedir contribuições e de contribuir também. É organização montando uma rede que gere valor para si, mas também dos pequenos atores que dela podem fazer parte buscando gerar valor.

Finalmente, uma pergunta que talvez só o tempo responda: Será que a inovação aberta vai subverter os modelos organizacionais que hoje conhecemos? Como?

3 comments

  1. Luciana,
    A partir de suas reflexões, cabe discutir de que forma inserimos a inovação como des-organização em uma comunidade de trabalho compartilhado definida em nosso meio como organização. Da mesma forma que empregados foram sendo chamados de funcionários, subordinados e hoje colaboradores, não será preciso rever a forma como definimos as empresas?

  2. Lu,

    bem legal o post. gostei do infográfico das redes.
    mas, uma pergunta pra ti… sobre esse lance da nova ética, das novas formas de gestão… como vc. vê o papel da ética hacker nisso? e, indo um pouco mais além, como você vê o jeito hacker de conversar, trabalhar, colaborar em rede nessa perspectiva da inovação aberta? digo isso, pois creio que há pistas muito interessantes por ali que podem ser mais utilizadas nas ações em rede.

    1. Não sei, não tinha pensado nisso, mas acho que tem a ver sim, apenas é uma transposição para um contexto muito diferente, então precisa conversar e refletir. No mínimo é ma boa inspiração!

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