A Parábola da Pane no Metrô

Minha amiga Rose não conseguia chegar ao trabalho ontem. Assistiu estupefata o motorista do ônibus desligar o veículo e dizer aos passageiros que podiam descer. Havia uma pane no metrô e na Avenida Matarazzo, a cidade começava a parar.

Encontrei-a descabelada e corada num ponto de ônibus, lugar do resgate. Mais tarde, assistimos na TV o que havia acontecido, uma espécie de prenúncio do dia em que São Paulo vai parar. Trata-se de uma espécie de fábula que todos discutimos na surdina e na qual evitamos acreditar. Haverá um dia em que só será possível andar a pé ou de bicicleta nesta imensa cidade.

De certa forma, todos os dias são prenúncios desse acontecimento, avisos lentos e engatados do nosso vir a ser como metrópole estática. Mas ontem foi especialmente cruel e, de certa forma, poético. Os passageiros, inconformados com a parada do metrô, resolveram sair do trem e seguir seu caminho a pé. Por ironia, uma simples blusa que ficara presa numa das composições foi a causa de tudo. Era simplesmente um acontecimento ao acaso, não havia solenidade, ou morte por suicídio, como alguns anunciavam no meio da manhã. Uma blusa pode fazer São Paulo parar.

Num misto de ansiedade, impaciência e falta de confiança de que alguém se preocuparia com eles, os passageiros simplesmente acionaram o sistema de emergência e continuaram seus trajetos caminhando pelos trilhos. Antes a certeza da própria ação, mesmo com o risco de vida, do que a incerteza do resgate. Todo o sistema do metrô teve que ser desligado.

Na televisão, assistíamos estupefatas as pessoas caminhando numa imensa fila indiana, filmando com seus celulares o acontecimento há tanto tempo previsto. São Paulo não pode parar, seus habitantes impacientes caminham mesmo a revelia de um sistema de transporte que está a ponto de transbordar.

De certa forma, parecia uma cena saída de um filme de guerra, ou do antigo “Um dia de Fúria”, com o velho e bom Michael Douglas, a diferença é que estávamos no Brasil. As pessoas caminhavam e filmavam, uma imensa fila indiana de desconfiados, abandonados, expostos à lei da sobrevivência.

É interessante pensar que o metrô é uma das instituições mais respeitadas da nossa cidade e, mesmo assim, 17 vagões foram depredados. Não confiamos nem naquilo que funciona. Não é possível esperar por socorro, ninguém considera ter o direito ser cuidado. Não há cidadania.

Fico imaginando o que gerou o desespero dentro dos vagões e quanto tempo demorou para que as pessoas fossem resgatadas. Outro filme me vem à cabeça: nos vagões que rumam para os campos de concentração, judeus sufocam. Se pudessem, caminhariam pelos trilhos.

Nós em São Paulo também sufocamos, com a poluição, o transporte público lotado, a velocidade dos acontecimentos. Há de chegar o dia em que nada  mais será possível a não ser caminhar lentamente pelos trilhos, filmando e conversando com as pessoas que nos acompanham na mesma jornada. Todas as formigas, ao mesmo tempo, deixarão os formigueiros e a velocidade máxima permitida será aquela dos próprios pés.

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