A parábola do gatinho do mercado livre e a inclusão digital

Um velho amigo economista que morava na Europa mudou-se de volta para o Brasil, mas infelizmente, seu gatinho siamês não resistiu à viagem. As filhas, inconsoladas, queriam um novo gatinho.

Depois de ficar (obviamente) horrorizado com os preços da pet shop do Shopping Villa Lobos, ele decidiu procurar um gatinho no mercado livre. Encontrou.Tratava-se de um vendedor localizado no Itaim Paulista e meu amigo, confiante, imaginou que só poderia ser perto do Itaim Bibi. Fechou negócio, ligou o GPS do carro recém adquirido e foi em busca do gato.

do Alto de Pinheiros ao Itaim Paulista

Segundo ele, a viagem foi interminável, mas a diferença de preço de 1000% valeria a viagem. Finalmente, chegou a uma garagem onde vivia uma família com três crianças e muitos gatinhos. Apesar do desconforto e de não conseguir tirar os olhos da senhora desdentada que o atendeu, ele concretizou a compra, proporcionando uma ascensão social instantânea ao gatinho.

Mas, quando já ia, apressado, entrando no carro, a senhora o chamou de volta. Ele se virou, receoso e louco para sair dali e ouviu o seguinte pedido: “Olha, não esquece de me qualificar no e-bay!”

A inclusão da multiplicidade

Gosto muito dessa história, até porque ela gera diversas reflexões. Em primeiro lugar, há o tema da inclusão digital e social da vendedora. Hoje 47% da população do Sudeste do Brasil e 35% dos brasileiros em média já acessaram a Internet, segundo pesquisa de 2009 feita pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (CETIC.br). Em dados mais atualizados, de 2010, podemos verificar que o tempo médio de uso mensal da internet nas casas com acesso no Brasil é de 31:46, o que dá quase 8 horas semanais, representando um crescimento de 39% em relação a 2007. São hoje 43,5 milhões de internautas no país.

Mas este é apenas o tema mais óbvio por trás dessa história. Ao colocar-se na web não só como consumidora de informação, mas como vendedora, a senhora do Itaim Paulista está criando novos papéis para si.

Fala-se muito na contraposição entre consumidores e produtores de informação na web, mas podemos identificar inúmeros outros papéis.

@Venessamiemis, mestranda da NYU e blogueira ferrenha,  identifica 12 papéis que as pessoas assumem ao atuar em redes sociais na web e os divide em dois grandes grupos: os formadores de memes (ou meme shapers) e os observadores  ou escribas. Os meme shapers podem ser facilitadores, ativadores, desbravadores, conectores, entre outros, enquanto os escribas podem ser espectadores, arquivistas e críticos, entre outros. Na web podemos assumir uma diversidade de papéis dependendo do interesse, da comunidade e do nível de conhecimento que temos. Ser vendedora é apenas um dos muitos papéis que a web possibilita para a velha senhora do Itaim Paulista e para cada um de nós.

Podemos olhar essas possibilidades como algo que fragmenta nossa identidade, mas podemos também relacioná-las à emergência de uma subjetividade nômade, como propõem Deleuze e Guatari, uma subjetividade em fluxo, em permanente reinvenção, que escapa a qualquer definição.

Esses vários papéis criam possibilidades de desvios e conexões inesperadas que criam linhas de fuga e vão abrindo novos espaços de convivência, de participação e de produção. É uma possibilidade eminentemente criativa, um tipo de inclusão do múltiplo.

Quando o meu amigo economista internacional e a velha senhora se encontrariam? Provavelmente nunca. Trata-se de uma conexão totalmente dissonante, diferente do que estariam expostos se não houvesse a web, trata-se de um trajeto que meu amigo não faria se não fosse por um gatinho. A web tem o potencial de criar pontes entre mundos diversos.

Web e Isolamento Digital

Existe outra discussão interessante na internet sobre isolamento digital. Ela gira em torno da hipótese de que a web geraria um certo tipo de imobilidade e uma incapacidade para o encontro. (No caso da velha senhora, será que ela nunca mais saiu do Itaim Paulista depois que começou seu comércio de gatinhos no e-bay?)

Fui atrás da origem dessa idéia e acredito que encontrei. Trata-se de uma hipótese formulada em uma pesquisa de 2006, feita pelos sociólogos Miller McPherson, Lynn Smith-Lovin e Matthew Brashears, que sugere que a web contribuiu para reduzir as redes de discussão das quais os americanos fazem parte, a diversidade dessas redes e o número de vínculos com vizinhos e instituições de voluntariado.

O Pew Research 2010 (que infelizmente ainda cobre só o público americano, apesar da web ser global), buscou investigar essa hipótese e chegou a algumas conclusões interessantes. Segundo o Pew, a internet “está associada com o engajamento em lugares como parques, cafés e restaurantes”. Além disso, ¼ das pessoas que participam em grupos, encontraram-nos via internet e 68% dos americanos diz que a internet teve um grande impacto em sua habilidade de conversar dentro dos grupos dos quais fazem parte.

Outro resultado interessante da pesquisa, é a constatação de que a web gera maior diversidade de conexões nas redes dos participantes (como comprova o meu amigo economista).

“Os usuários da internet são participantes mais ativos em seus grupos do que outros adultos e têm maior propensão a sentir orgulho e senso de realização” Dizem os pesquisadores do Pew.

Real x Virtual?

Mas há ainda outra discussão vinculada à questão do isolamento digital. Trata-se de um pressuposto de que o mundo real e o virtual são dois ambientes distintos, com características essencialmente diferentes que em algum nível “competem”, um com o outro.

Ainda nas discussões dos resultados do Pew, há um vídeo interessante que documenta o debate ocorrido entre Clay Shirky, Andrew Keene, Jerry Brenan e Alex Howard, onde a grande polarização aconteceu entre Shirky e Keen. O primeiro é um declarado entusiasta do potencial democrático e colaborativo da web . Para ele, a distinção entre virtual e real é ultrapassada. O dado que ele cita é o fato de 75% dos entrevistados que declararam participar de grupos na web encontraram esses grupos fora do ciberespaço. Para ele, as pessoas estão estendendo seu espaço de convívio para o meio virtual. Portanto, na discussão do isolamento digital, Shirky seria um anti-isolacionista.

Mas é claro que Andrew Keen, que se autodenomina “o anticristo do Vale do Silício” queria fazer a discussão pegar fogo e aprofundou num ponto muito relevante. Segundo ele, vivemos numa sociedade paradoxal, em que convivem o individualismo exuberante  e o fetiche pelas comunidades. A web seria um retrato desse paradoxo. Milhares de pessoas até certo ponto “isoladas” na promoção de suas “marcas pessoais” e ao mesmo tempo uma pujante participação em comunidades. Some-se a isso a grande taxa de entrada e saída das comunidades e o resultado seria um indivíduo mais fluido e fragmentado. A web traria uma certa ilusão de pertencimento.

Hardt e Negri diferenciam participação de pertencimento. Essa é uma distinção importante para a discussão do isolamento. O fato de participarmos de diversos grupos não quer dizer que tenhamos, necessariamente, sentido de pertencimento, pois o pertencimento diz respeito à criação de vínculos, de reciprocidade, de conversações.

Ter uma forte presença online não necessariamente significa sentir-se acolhido, pertencendo a um grupo ou a uma comunidade de fato.

Parece que a distinção de Real e Virtual, não está ultrapassada para Douglas Ruskoff.  Em seu novo livro Program or be Programmed, ele propõe que a web gera uma certa ilusão de influência sobre o mundo real. Ao participarmos de grupos, de sites de mobilização política ou assinarmos pela proteção das baleias, acreditamos que estamos afetando o mundo real, o que não necessariamente é verdade. Podemos estar perigosamente isolados em grupos de discussão que, ainda sendo profundos, podem não gerar ações reais. É um risco que vale a pena avaliar, pois podemos criar nichos virtuais de participação sem efetiva ressonância política. Discutir ecologia não é o mesmo que agir por ela no cotidiano.

@Venessamiemis arremata “A web deveria ser uma interface e não a destinação final”.

Aqui e agora: a disposição para o encontro

Teorias e posições a parte, o que nos move a ter uma presença online?

Acredito que é a possibilidade do encontro.  Segundo Espinosa, o bom encontro gera uma disposição positiva, um aumento de potência. Já Moreno fala em Tele, uma comunicação profunda, recíproca e empática. É nessa reciprocidade que reside o encontro, o vínculo, a possibilidade de pertencer.

Enquanto eu escrevia, recebi via twitter um gráfico engraçado, uma nuvem de tags que permite visualizar as palavras que os seguidores da rede Starbucks utilizam para construir suas biografias no twitter. A palavra de maior destaque é amor, seguida de vida e música.

Gráfico feito por Brian Solis

No final das contas, a web talvez seja um repositório das nossas esperanças de encontro: encontro com o outro, encontro com a nossa potência, encontro com possibilidades reais de afetar o mundo em que vivemos. Ela representa a possibilidade de evitar o isolamento, prova que estamos presentes em algum lugar, que alguém nos segue, que podemos participar de algo significativo.

Mas a web não muda nossa disposição para o encontro nem o fato de que hoje, sentar, conversar, trocar, aprofundar, compreender e refletir são verbos pouco usados diante da velocidade dos fatos.

A web é ao mesmo tempo efeito e causa do estado paradoxal de solidão e desejo de encontro, algo tão antigo quanto a própria humanidade.

3 comments

  1. Acho eu sem a ajuda de autores, que a “disponibilidade do encontro” está em nos observarmos e observar ao próximo sem qualificar a dinâmica (se está certa ou errada) e ter a inter sensibilidade pessoal para pressentir o que outro quer/oferece e podermos querer/oferecer sem crenças julgadoras
    Ao contrario, a economia pressupõe reter ( muitas vezes o que não precisamos) e não oferecer o que o outro necessita.
    Não é a toa que uma nuvem de tags desire do Starbucks cita amor como uma das maiores citações. É o que falta a todos e o que mais retemos em nós.

  2. Reflexao que me anima, nao encerra tema tao antigo, mas ainda acredito e sinto que a propria humanidade pode prescindir de canais como a web. Seria um ótimo exercico depois de experimentarmos tanta hiper conexao voltarmos a praticar conexoes mais lentas. A web é forma e algum conteúdo. A essencia sempre será humana tecnologia, assim sinto.

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