O que eu entendi do que o Dalton disse

Toda vez que entro na escola onde faço Dança, me deparo com um cartaz que diz “O que eu entendi do que o Tom Zé disse”. É o título de uma peça de teatro que aconteceu em 2005.cartaz de Thiago Ventura

Sempre fui fascinada pela figura de Tom Zé, acho que ele representa algo incrível na nossa música, é ao mesmo tempo um gênio e um incompreendido. Quase desistiu da carreira para trabalhar no posto de gasolina de um primo e foi resgatado por David Byrne, já a caminho da “bomba”. Tom Zé descobriu novas ferramentas de fazer música, misturou tantas outras, criou e cria sem pudor de fazer misturas.

Mas estou falando dele por quê? Bom, hoje tive uma conversa com o Dalton Martins, estudioso das redes sociais, figura de pausas lentas e grandes reflexões. Quando cheguei em casa imaginei esse mesmo cartaz dizendo “O que eu entendí do que o Dalton disse”. Não, o meu amigo não vai trabalhar num posto de gasolina, ele vai muito bem obrigado, mas estávamos conversando sobre novas ferramentas de pensar. Conversávamos sobre a gestão da co-criação de redes ou a co-criação da gestão de redes.

Extrativismo x poética

Acontecem algumas coisas curiosas hoje em dia com o tema das redes. Existe uma visão “extrativista”, que procura verificar como tirar o máximo das redes (e portanto dá relevância para a contagem do número de hits, acessos, tempo de acesso, etc) e existe uma visão mais poética, que observa a emergência de um novo jeito (mais livre e descentralizado) de ser humano. Claro, existem “n” outras visões e combinações de visões, mas essas duas estão em pólos opostos do espectro do entendimento de redes.

Quando se fala de inovação aberta, por exemplo, muitos se perguntam “como a rede pode fazer a minha empresa ser mais inovadora?” e poucos se perguntam “o que está emergindo na rede da qual a minha empresa faz parte e qual o papel que queremos ter nisso?”

A questão é: vender a primeira visão é muito mas fácil do que vender a segunda e a venda injeta dinheiro e energia na rede, viabiliza reflexões, viabiliza a criação do novo. Se o Tom Zé tivesse virado frentista, caros amigos, todos teríamos perdido. Então como vender essa poética tantas vezes incompreensível e fazer projetos que partam desse princípio?

Governança de redes

Não existe um modelo de governança de redes que funcione a priori. As redes são multiformes, complexas, contextuais e, para piorar, podem ser analisadas de várias maneiras.

Podemos olhar a configuração estrutural de uma rede, podemos observar sua dinâmica ou podemos analisar sua semântica (ou seja a estrutura das conversas que acontecem nela). Podemos também combinar essas diversas visões e análises, entrando então num campo exploratório onde talvez só Hans Staden tenha se aventurado. O analista de redes pode ser um Deus ou ser comido pelos canibais, como é o caso de alguns amigos que têm sido os mensageiros de más notícias que as análises de redes trazem para seus clientes.

Mas a questão não é só visualizar, a questão está em compreender se é ou não possível (ou como é possível) articular, modelar e gerir redes. A questão está na governança.

Há algum tempo, eu disse para uma cliente que o termo “gestão de redes” talvez não fizesse sentido. Depois de refletirmos juntas, ficamos realmente intrigadas com essa questão sem resposta.

Em relação a isso, “O que eu entendi do que o Dalton disse” (e o que eu disse a partir do que ele disse), é que sim, é possível construir uma governança de redes, embora usar o termo gestão talvez seja inadequado.

Por que não gestão de redes?

Basicamente porque o termo gestão vem atrelado a uma série de ferramentas e modelos que não se aplicam às redes. Se vamos, por exemplo, fazer a gestão da aprendizagem em rede de um grupo, o que vamos utilizar? Modelos de gestão de projetos? ROI?

Parece-me que as ferramentas estão por  inventar e talvez não possam ser reduzidas a um modelo ou uma fórmula.

Se por um lado não há modelo, por outro há um grande espaço para a modelagem. E qual é a diferença? O modelo é estático, a modelagem acompanha o desenrolar dos acontecimentos, ela torna possível orientar o processo, estabelecer um modo de governança e, sobretudo, estruturar grupos de diálogo que possam articular e ajudar a fazer a governança da própria rede.

Existem muitos modos de estabelecer o funcionamento desses grupos. Eu assistia os desenhos do Dalton se formarem sobre a toalha de mesa do restaurante: círculos, flechas, grandes aros. Hoje há toda uma tecnologia de conversações que, combinada às tecnologias de análise de redes, pode ser extremamente poderosa. Para quem? Para ampliar o poder da própria rede  para realizar seus objetivos.

A rede não está a serviço de nenhum gestor, por isso também o termo “gestão de redes”, que carrega uma certa centralização, parece um contrasenso.

Mas o poder disseminado parece indomável, é temeroso, não pode ser capturado. Nesse caso, entretanto, a realidade é mais simples do que a ficção. Quando há o auto-engajamento, o poder disseminado é extremamente criativo e pode, sim, ser observado e moderado! A rede recebe propostas, deseja ajudas e pode gerar energia para colaborar em propostas desde que seu poder seja respeitado. A rede aprende.

Como medir a aprendizagem social?

Essa é uma pergunta que não quer calar. Como sempre, os americanos do norte saem na frente para discutir o assunto.

Faço parte de uma rede de intercâmbio de conhecimentos sobre aprendizagem social a convite de um amigo canadense. Nessa rede, muitos profissionais da área de treinamento trocam informações sobre como “vendem” e fazem a gestão das iniciativas de aprendizagem social que estão liderando em diversos tipos de organizações, de escolas a grandes empresas.

Como vender e medir muitas vezes são assuntos atrelados no mundo das organizações, há um caminho muito simples e lúcido que propõe o seguinte: acompanhar o desempenho de quem aprende socialmente para realizar suas tarefas, pois a aprendizagem social, em última instância, é dirigida pelo indivíduo que busca maior facilidade para realizar suas tarefas em busca de melhor performance. Este é o caminho defendido (sempre em beta) pela Internet Time Alliance, por exemplo.

Bom, é uma visão bem pragmática (é o que diria Dalton, acho). Mas hoje falávamos de um outro ponto, falávamos da beleza de observar uma rede conforme ela se desenvolve, tirar fotos e mais fotos, observar imagens, coletar números e perceber a dinâmica da sua configuração. É como acompanhar o desenvolvimento de um jardim, muito mais do que medir a altura das árvores.

Existe uma ecologia nas redes. Quando se fala em formar redes, o processo também é o resultado e o recorte estático no tempo pouco diz do caminho percorrido. Ao ser fotografada, a rede já se modificou, as árvores já cresceram. Ela é contextual, dinâmica e inquieta, passa por momentos de diversificação e momentos de condensação, só pode ser entendida a partir da compreensão das conversações que nela acontecem e de como as pessoas se juntam e se separam em torno dessas conversações. Certamente o Google Analytics não vai oferecer essa informação a ninguém.

Então “o que eu entendi do que o Tom Zé disse” é que vale a pena buscar novas ferramentas de pensar, de fazer música, de fazer teatro. Talvez a gente tenha que misturar muitos instrumentos e tonalidades diferentes pra não virar frentista.

4 comments

  1. O que eu entendi do que a Luziata entendeu do que o Dalton disse é que redes poderiam e deveriam também ser música, poesia. Música e poesia saem de caixas de som ou de folhas de papel. Mas nascem e moram nas pessoas e na terra, no céu, em todas as paisagens e momentos eternos. Assim como as redes, entendo que elas são observadas pelo onipresente senhor de todas as coisas, Mr. Google. Mas em essências, redes não nascem e moram na rede, para observá-las, veja-as no seus habitats naturais…

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