Arquitetura organizacional e protagonismo: Quem faz a organização?

Há uma discussão interessante acontecendo entre as pessoas que discutem aprendizagem social na web: até que ponto nós fazemos a organização em que vivemos e até que ponto ela nos condiciona?

Sempre sábio Escher

No blog de @hjarche, uma frase chama a atenção: “A moralidade que dá forma às ações das pessoas não tem raízes nelas mesmas, mas nas estruturas que as cercam”. É uma das frases de conclusão de um artigo publicado na Der Spiegel , que Jarche transcreve.

Há um certo espanto nessa frase. Estamos, pelo menos no Brasil, imersos numa discussão sobre protagonismo nas organizações, que está relacionada a temas fundamentais, como o intra-empreendedorismo, o papel do educando no processo educativo e a inovação. De acordo com o conceito, cada um é responsável por suas ações e escolhas, especialmente por aquelas que podem mudar o rumo da organização. Faz sentido. O protagonismo coloca em cheque o discurso acomodado de que a organização deve oferecer o contexto, a formação, o desenho da carreira, como se fosse uma “grande mãe”. A expressão do potencial individual coloca em movimento o indivíduo, o time e a organização.

Ao mesmo tempo, achar que a organização é um campo aberto para a auto-expressão é uma posição muito inocente. Em seu post, @jarche nos coloca esse dado de realidade e o ilustra com outra frase, atribuída a Winston Churchill: “Primeiro nós damos forma às nossas estruturas, depois as estruturas nos dão forma”. Há pesquisas interessantíssimas sobre isso. Em uma delas, estudantes são confinados a uma prisão e os pesquisadores aguardam a evolução dos comportamentos. Em poucos dias, a violência está instalada, mesmo entre jovens antes considerados saudáveis.

banqueta do designer Martin Azúamoliné

Há, portanto, uma relação recursiva entre a estrutura de um dado ambiente a atuação de seus “habitantes”. “Nada é em si”, diria Humberto Maturana. A estrutura e o lugar só existem no conviver humano e se realizam no padrão de relações que alí se instalam. Isso nos torna eternamente protagonistas, mas também cegos, já que, quando estamos imersos numa dada estrutura e numa dada cultura, temos a percepção condicionada por elas.

Onde isso nos coloca? Há uma série de micro-estruturas e pequenas redes de conversação que podem servir como base para que uma organização seja um lugar de protagonismo. Reuniões, workshops e encontros de forma geral são contextos que podem ser observados e desenhados como lugares de expressão e protagonismo. Esta semana, por exemplo, encontramos um grupo que desenhava uma reunião fundamental de planejamento. Enfrentavam uma grande dificuldade de conversar sobre desenho desse encontro com o gestor responsável. Pessoas jovens, desejosas de realizar algo interessante, mas ao mesmo tempo com um profundo entendimento do risco que significa contrapor-se a um desenho que veio do chefe. O protagonismo é engavetado.

Talvez essa não seja uma discussão de arquitetura organizacional, mas talvez possamos enxergá-la como tal. Quando pensamos em arquitetura, normalmente pensamos nos grandes projetos. Mas e os pequenos projetos que formam o dia-a-dia das pessoas? Os gestores estão preparados para serem arquitetos de encontros significativos onde cada pessoa do time possa colocar na mesa sua melhor contribuição? Se há clareza de onde um time quer chegar, o caminho não poderia ser discutido? E se todos os integrantes da empresa forem, em alguma medida, seus arquitetos, já que são, de todas as formas, seus habitantes?

One comment

  1. Protagonistas, arquitetos, habitantes e suas casas, organizações e cidades. Daí mora a encruzilhada da transformação. Na nossa organização, um dos valores é CONSCIENCIA DO SER e neste ano estamos investindo num Plano para fomentar a prática deste valor. Acreditamos que tudo começa e termina no desenvolvimento desta CONSCIENCIA DO SER: ele com ele, ele com o outro, com a organização, ele com o mundo.

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