Primeiro Sarau de Idéias 2011: Vínculos presenciais e Virtuais

“Sugiro que denomine os próximos encontros de “conexões humanas”. É bem apropriado, penso eu. Tivemos um bom papo “antigo de vizinhos de muro” onde todos se vêem enquanto falam. Isso não é incrível?! Coisa moderna “o velho”.”

Assim comentou o Eduardo, um dos convidados do primeiro Sarau. Vibração comum entre pessoas que mal se conheciam. Conversa sem muita teoria, a partir das questões e emoções que estavam na sala.

Nossos moderadores eram o Alexandre Alves, do Instituto Inovação, e o Luiz Bouabci, da MOB Consult e o tema era a questão do vínculo nas redes presenciais e virtuais. Onde ele ocorre?

A enxurrada da hiperconexão

Bárbara relatou a sensação de “enxurrada virtual” que ela vive trabalhando com redes sociais. Muitos têm a mesma sensação. Então ao mesmo tempo em que essas conexões trazem um alargamento das possibilidades de encontro, elas trazem uma certa sensação de afogamento.

Para Luiz Bouabci, a hiperconexão que hoje de certa forma nos desorganiza, vai começar a se estabilizar, vai gerar padrões e aí, talvez, a gente tenha esquecido práticas ancestrais perdidas por uma certa uniformização gerada pela hiperconexão. Qual o valor da desconexão? (Eu pessoalmente adorei essa pergunta).

Esse início deu o tom do nosso encontro. O “velho” é coisa moderna: as tribos, as fogueiras, as conversas olho-no-olho. A experiência presencial é estruturante do vínculo, ela traz uma experiência e uma afetividade que dificilmente podem ser reproduzidas online. Tem algo de integridade, diz o Luiz Bouabci. No virtual não vivemos os cinco sentidos.

Redes são grupos humanos

Rita Monte então contribuiu recuperando esse fundamento do humano: hoje as pessoas buscam um sentido existencial para aquilo que fazem. As pessoas se conhecem e criam vínculos a partir de perguntas de profunda conexão que mobilizam uma energia coletiva de grande clareza.

A rede se constrói na medida em que a possibilidade de feedback vai se tornando mais concreta, na medida em que dizemos o que pensamos, comentamos a idéia do outro, gostamos ou desgostamos do que ele diz. As dinâmicas de grupo vividas nas redes sociais são, em grande medida, as mesmas dinâmicas de grupo estudadas por Moreno no início do século passado. Seus sociogramas são os precussores dos diagramas de análise de redes. A complexidade que se coloca é em parte a complexidade das relações humanas que sempre existiu, permeada por fantasias, medos e desejos.

Vínculo e propósito

Os vínculos então se formam a partir do que Moreno chama de Projeto Dramático Comum e que no grupo presente foi chamado simplesmente de propósito.

A perenidade do vínculo depende da perenidade do propósito comum. Daí a dificuldade das empresas na rede. Qual o propósito de uma marca além da sua própria perpetuação? Como ela se conecta com propostas que já estão presentes na rede?

“Ah, mas eu não sigo marcas, só pessoas.” Comenta alguém. Muitos concordam.

“O desafio é ser conscientemente social dentro do seu pensamento e do seu propósito” e esse mesmo pensamento se coloca para pessoas, para grupos e para marcas.

Na prática

Alexandre provoca: “mas como levar para o concreto, para os nossos locais de trabalho e para as nossas redes pessoais?”. Com vários casos de sucesso e insucesso presentes na sala ele propõe que precisamos aprender a transgredir dentro da norma, empurrando os limites do nosso ambiente. A rede tem um ritmo próprio e a organização também tem um ritmo próprio, quem modera está entrelaçado nessas duas dinâmicas. De certa forma, é um grande negociador entre dois mundos que têm lógicas diferentes.

A rede vai se formando em movimentos sucessivos que muitas vezes são imprevisíveis. Sérgio Storch dá o exemplo do grupo PNBE (Plano Nacional das Bases Empresariais), que deu origem à AKATU, ao Ethos e ao Nossa São Paulo. Quem saberia onde isso ia dar? É uma potência que emergiu daqueles encontros e daqueles vínculos que aconteceram no PNBE.

Essa constatação muda até mesmo a tipologia da gestão do conhecimento. Na rede social de uma empresa, por exemplo, existem os consagrados conhecimentos tácitos e explícitos, mas também os conhecimentos emergentes, que só podem ser percebidos nesses ciclos sucessivos de leitura do que acontece de fato naquele lugar (presencial e virtual) com aquelas pessoas presentes.

“O problema é que queremos controlar isso”. Não sabemos outro modo de fazer porque somos a geração dos migrantes colaborativos, coloca Alexandre.

Queremos novas teorias para tudo quando, na verdade, já havia redes de mobilização econômica muito antes das redes sociais. A Quermesse da igreja de interior talvez seja um exemplo tradicional de crowdfunding: ela é um evento em torno do qual as pessoas se articulam para gerar valor. Na Quermesse acontece uma experiência multi-sensorial, acontece movimento econômico e acontece o vínculo.

Papéis na rede

Carlos trouxe então sua contribuição a partir da moderação de redes formadas na Rhodia nos anos 90, sem internet, na forma de comunidades de prática. 1% das pessoas que participavam como doadores de conhecimento, 9% eram cooperadores, ou seja, buscavam e recebiam conhecimento e 90% eram esponjas, que ficavam ali apenas para absorver conteúdo.

Existem muitas teorias de papéis na rede, mas Luiz Bouabci fez questão de salientar que esses papéis não são fixos e que os percentuais não se aplicam a qualquer tipo de rede. Numa rede onde decisões que afetam a todos precisam ser tomadas, por exemplo, essa proporção certamente mudaria. “

“Isso é ok, mas e se forem sempre as mesmas pessoas nos mesmos papéis”-  pergunta Paula. Rose comenta: se há feedback, os papéis podem circular, a rede fica mais dinâmica, assim como em qualquer grupo humano.

Voltamos para a tribo. Estamos humanamente conectados. Somos auto-experimentos de conexão.

One comment

  1. Ouvi da Luciana a frase “resgate da consciencia de integralidade”. Estamos conectados desconectados ou vice versa. Encontros como o Sarau é um exercício especial de reconexão conosco, com o outro, com o mundo.

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