O Estrategista e sua Máquina

Naquele 3 de agosto de 2011, às 20h o ar condicionado cessou. Era um sinal de que os últimos executivos teriam que consumir o ar que restava. O estrategista parou para contemplar o escritório vazio por alguns segundos. Havia naquele silêncio uma magia que só ele sabia desfrutar.

Sentou-se então diante da planilha e foi se esquecendo de tudo, da mulher que já não era uma beldade, do filho que vivia lhe pedindo isso e aquilo, do chefe que tentava seguir as dez regras do feedback, mesmo guardando um ódio dissimulado da competência dele.

Finalmente estavam sozinhos: ele e os números. Linhas e colunas mostrando um futuro ao alcance dos dedos. O futuro das mesas vazias e de todos aqueles assentos que iam aos poucos esfriando.

Multiplicar zeros, somar valores muito acima das posses de qualquer mortal. Ordenar nomes e localidades. Depois criar fórmulas e funções, calcular valores e projeções, para culminar numa sinfonia de gráficos perfeitamente didáticos.

Quando o estrategista olhou no relógio já eram 3 horas da madrugada.

Calculou o tempo do trânsito pela manhã, calculou a cara amassada da esposa, avaliou custos e benefícios e decidiu dormir no carro.

Acordou no dia seguinte pensando que talvez não tivesse calculado direito. A coluna doía e o braço direito estava dormente. A caminho do banheiro da praça de alimentação ele observou os faxineiros (4 no total) e as latas de reciclagem (4 cores, 4 latas).

No banheiro, lavou o rosto e limpou os dois olhos com cuidado, numa operação que durou cerca de 12 minutos. Observou a camisa amarrotada e calculou que seria mais conveniente gastar cento e vinte reais (com depreciação em doze meses) do que subir ao escritório como quem passou a noite num puteiro.

Feito o investimento, o estrategista desfrutou 1,50 do café mais 2,30 do pão de queijo e percebeu que este último item acumulara uma valorização de 20% ao ano, bem acima do IPCA.

Continuou sua jornada silenciosa de projeções enquanto subia no elevador com mais sete pessoas e cumprimentava mais sete até chegar à sua mesa. Coincidência… pensou ele enquanto ligava o computador.

Esperou 5 minutos para que o Windows finalizasse seu lento despertar e ele pudesse abrir a planilha. Enquanto isso observou a chegada dos colegas.

Finalmente ele podia agir.

Localizar: Julia. E imediatamente ela se levantou.

Hum…coincidência.

Congelar painéis: e as pessoas próximas às janelas ficaram estáticas.

Filtrar: e apenas os bons profissionais eram visíveis.

O estrategista parou por um instante e observoub à sua volta buscando olhares de espanto.

Ordenar por ordem alfabética: e uma confusão generalizada de pessoas correndo se instalou no recinto.

Exibir, organizar tudo: e de repente todos estavam em seus lugares novamente.

O homem sorriu estupefato. Tudo estava ao alcance de seus dedos, tudo ali, na tela dele, sem que ninguém notasse o que acontecia. Bastava ocultar, e o insuportável fulano da camisa rosa desaparecia. Bastava ampliar o alcance da fórmula para sumirem cadeiras ou laptops.

A estratégia era finalmente visível, mas ninguém além dele podia enxergar o mundo que nascia a partir das suas planilhas. A vida seguia em frente, teimosa e imprevista, sem considerar que estava presa a um arquivo que ele podia abrir ou fechar, alterar e sobregravar.

A diversão do homem era tanta que ele emitia pequenas risadas, para a surpresa dos colegas mais próximos.

Às 12 horas o sono finalmente o alcançou e ele achou por bem encerrar o expediente. Entregou o trabalho e relatou ao chefe o esforço da noite anterior (sem contar os detalhes sórdidos). “Bom trabalho. Descanse.” – disse o outro.

Na garagem, já dentro do carro, o estrategista abraçou com força o laptop e riu sozinho. Antes de dar a partida, fez uma pausa de 2 minutos e calculou com precisão o melhor caminho.

Precisava, de qualquer maneira, chegar em casa antes que o efeito passasse.

 

(Este conto foi inspirado na matéria sobre estratégia que estou fazendo na FGV com o Prof Sérgio Bulgakov e especialmente dedicado ao meu amigo David Kallas: sobrevivente e estrategista).

3 comments

  1. Muito boa crônica, Luciana! :>)

    Boa radiografia desta fratura exposta, da fé cega, ingênua mesmo, de que conseguiremos, numa planilha ou através de fórmulas, resolver todos os “problemas” de uma organização.

    Saudações itajubenses para o David Kallas. (2 graus de separação)

    []s

    Paulo Ganns

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