A Startup Farm e o conceito de pergunta-pivô

Empreendedores “pivotam”, mas em torno de quê?

Como estar preparado para mudar de rumo? Como acreditar de antemão que a qualquer instante uma rasteira te derruba, mas não pode destruir o teu sonho? É disso que trata a pergunta-pivô. Mesmo todas as mudanças do mundo, mesmo o mercado ou uma nova tecnologia: nada resiste a uma boa pergunta. Fez sentido para o Felipe Matos durante a Startup Farm, fez sentido pra mim. Adotamos. Virou uma tag de conversa nossa.

Meu livro favorito sobre perguntas não foi escrito por nenhum empreendedor, mas pelo poeta chileno Pablo Neruda. Chama-se El Libro de las Preguntas e procura nos levar ao limite da imaginação.

“Por que não se ensina os helicópteros a tirarem mel?

Se o amarelo terminar, com que faremos o pão?

Diga-me, a rosa está pelada ou só tem esse vestido?

Por que as árvores escondem o esplendor de suas raízes? A fumaça conversa com as nuvens?

Por que as folhas se suicidam quando se sentem amarelas?

Por que o chapéu da noite voa com tantos buracos?

O que irrita os vulcões para cuspirem fogo, frio e fúria?

As lágrimas não choradas esperam em pequenos lagos?

Este é o mesmo sol de óntem ou é outro fogo o seu?

Como se mede a espuma que cai da cerveja?

Para quem o arroz sorri com tantos dentes brancos?

Quem gritou de alegria quando nasceu a cor azul?”

Adoro essas perguntas de Neruda porque nos colocam num lugar de observar quantas possibilidades ocultas o mundo tem. Assim, o arroz ganha dentes, um obsessivo mede a cerveja e as folhas se suicidam. O trabalho com empreendedores não guarda esse tipo de sutileza. Será?

A pergunta-pivô que guia os negócios é voltada para a ação, é certeira, uma espécie de lança. Parafraseando David Isaccs, um dos mentores do World Café:“Qual é a situação da vida real ou qual a necessidade que torna esse projeto pertinente e importante?” Ou como dizemos na Startup Farm: “Qual é a questão do mercado que você quer responder?”

Mas…Quem é o mercado?

Quem há de saber o que ele pensa ou do que precisa?

Quem sabe o que irrita os vulcões?

Definir a pergunta pivô é também imaginar possibilidades e colocar-se num lugar de inovação que pode ser bastante radical. Como posso ter a sensação de riscar o papel na tela do computador? Como sentir o cheiro de uma pessoa distante? Como dar através de uma tela a sensação tão desejada do vôo? Como usar a web para aproximar mães e filhos?

A imaginação ajuda a alargar o território do projeto quando se pensa na pergunta-pivô, o que é fundamental porque a última coisa que a gente quer é… ter que pivotar de repente. Então trata-se de plantar um pivô onde ninguém está vendo, mas sempre sabendo que é impossível garantir isso. Colocar a pergunta pivô num lugar óbvio demais, ou já mapeado, é o pior cenário para o empreendedor.

Mas tem mais: Quem enuncia essa pergunta? Qual a sua linguagem? O que o inquieta? A quem serve o projeto? Ou a “quems”, no caso de projetos multistakeholder?

O que pensa um taxista enquanto dirige?

Como funciona a mente de um jogador de videogame?

Como se sentem as pessoas quando postam imagens na web?

Como vive um caminhoneiro?

Há uma questão de linguagem que só escrevendo e reescrevendo a gente consegue solucionar. A pergunta-pivô fala ao investidor, mas tem que traduzir também o “espírito da coisa” e falar a língua do público-alvo. Além disso, a pergunta-pivô é um eixo de articulação e conversação do time de projeto. É dessas conversas que nasce a energia e a originalidade de um novo negócio. É a primeira semente da cultura de uma organização que nasce.

Volto a Juanita Brown e David Isaacs: “Uma vez que as perguntas estão intrinsecamente relacionadas à ação, elas despertam e orientam a atenção, a percepção, a energia e o esforço, e estão, por isso, no centro das formas de evoluir que nossas vidas permitem. A criatividade exige que façamos perguntas legítimas, aquelas para as quais uma resposta não é conhecida de antemão. As perguntas funcionam como convites generosos à criatividade, trazendo à tona aquilo que ainda não existe”.

Uma startup é isso: ela nasce num lugar que ainda não existe. É muito diferente trabalhar com projetos de startup e trabalhar com projetos de inovação em grandes empresas. É a vida que está em jogo e não o emprego. As pessoas correm pela sala, perguntam a todo instante, fazem caretas, mordem o celular. Há “sangue nos olhos”. E, falando diretamente com esse povo, se o objetivo for apenas ganhar dinheiro, bom… melhor você encontrar alguma paixão, pois é ela que ajuda a enterrar esse tal pivô que você está buscando.

Serviço: a Startup Farm continua percorrendo o Brasil. Fique ligado!

Se você fez o workshop e quer a apresentação, aqui vai: nossa apresentação Metodologia ativação projetos pergunta pivo from Dobra Inova

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