pra inspirar

O que é inovação?

“Inovação é um descontentamento” – não fui eu que disse não. Anotei no flip chart pensando, “cara, isso é do caralho de tão simples.” E logo eu, que gosto tanto de subtrair palavras, fui pega de surpresa. Alguém com um olhar estrangeiro jogou uma seta bem no miolo do que eu faço. IMG_2622
É um alívio. Ninguém sabe tudo, todo mundo sabe alguma coisa e todo o saber tá na humanidade. Também não fui eu que disse isso não, foi o velho Pierre Levy (e o francês nunca chegaria a uma definição tão simples: “inovação é um descontentamento”).
Mas só? É isso que define o olhar inovador? Não. Talvez a inovação seja um “descontentamento ativo”. (Bem melhor). E ativo por que?
Porque a gente tá ferrado. Temos mil razões pra ficar deprimidos: crise ambiental e social horrorosa, uma escassez recursos naturais e de valores que dói na alma e muita coisa no limbo, desde a reforma política até ideia tradicional de família. Ninguém vai vir nos salvar. Deus, coitado, tá morto há mais de um século.
Descontentar-se é olhar de frente essa lama onde a gente tá metido.
Mas a inovação é um descontentamento que se recusa a ficar deprimido, é uma coceira que incomoda, mas também dá vontade de sair gritando na rua e dizer pra todo mundo: “o jogo é aqui e agora!”
O mundo é um lugar a ser transformado.
Eu tenho a oportunidade de ser parte disso. Amém (não sei a quem, mas amém). Nasci num canto subdesenvolvido do mundo, mas tive estudo (público e gratuito, por sinal) e por vocação ou por acidente, aprendi a pensar criticamente. Vivo numa era de incertezas e tenho uma profissão que eu mesma inventei, mas não estou só. Ando bem acompanhada de gente que inventa e do meu descontentamento: esse peso no fundo da bolsa, às vezes difícil de carregar, mas que no fundo é o sistema operacional da minha consciência onde roda um aplicativo ativo que me faz perguntar a todo instante: o que vou fazer pra mudar tudo isso?

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Cultura Organizacional e Inovação

O Sarau de ontem foi ótimo. Um grande grupo, com executivos, empreendedores, consultores e curiosos em geral. Sala cheia de boas histórias.

O tema foi Cultura Organizacional e Inovação e as moderadoras fomos eu, Luciana Annunziata da Dobra e Silvana Aguiar, da Antar Consultoria.

Começamos a partir de um lindo texto do romance De Repente, nas Profundezas do Bosque, de Amos Oz em que os lenhadores passam a seus filhos um antigo saber: “nunca, mas nunca mesmo, de maneira alguma, mas de maneira alguma mesmo” era permitido entrar na floresta durante a noite, pois Nehi, o demônio, vivia ali.

Então começamos explorando a inovação como esse lugar escuro, em que lidamos com a incerteza, algo que tentamos ancestralmente evitar. O medo de arriscar é passado de pai para filho, permeia nossa vida em diversos campos e o ambiente de trabalho é somente mais um lugar onde esse medo se manifesta.

Silvana colocou então a questão que guiou sua tese de doutorado: Que ecologia é essa que dá condições para que a inovação aconteça?

Uma das maneiras de entender essa ecologia é compreendendo o discurso que a permeia. O discurso revela o modo de viver da organização, revela os valores e crenças arraigados na cultura. Além do discurso, a leitura dos símbolos é fundamental, pois eles possibilitam e representam os pactos existentes na organização. A inovação se baseia nesses pactos.

Muitas histórias serviram como exemplo. Silvana contou do susto dos gestores ao serem convidados para uma reunião com comes e bebes na sala da presidência da Embraer, onde eles nunca haviam entrado. Era um símbolo. Contei a história do time sênior de P&D da Kibon e da observação que fiz do modelo de trabalho deles quando a empresa foi comprada pela Unilever. Era um time silencioso, mas que conversava e ria para definir a estação de rádio que seria selecionada. Era o rádio mais importante da empresa!

Luiz Butti veio com um contraponto, tinha ficado com a história da escuridão do bosque na cabeça. “Mas inovação é medo do escuro ou frio na barriga?” e foi complementado pelo Diego Dutra “é paixão!”.

“É uma cultura coerente em movimento”, disse a Silvana. Há empresas com uma cultura muito coesa, mas sem essa energia apaixonada que move a inovação. Ela deu o exemplo da Promon, com sua cultura de “alinhados briguentos”. Na análise de discurso dessa empresa, a palavra reinvenção era uma das que mais surgia. “E de onde vem a inovação?”, perguntava ela, “Sei lá, Silvana, vem das paredes”, respondiam eles.

Então a inovação tem ao mesmo tempo esse componente de medo, de frio na barriga e de paixão. Pra entrar nessa floresta, precisa estar bem acompanhado, e ter coragem, daí a necessidade de um mínimo de coesão cultural. “Você não vai entrar na floresta com alguém que acabou de conhecer”.

Caspar complementou: “a cultura de inovação é diferente em cada empresa, não dá pra copiar. A necessidade de inovação vai ser diferente dependendo do tamanho e do nível de maturidade da empresa, além do setor em que ela atua.” Quanto mais madura a empresa, mais difícil de manter viva a cultura de inovação. “What got you here, won´t get you there.”

Além disso, se a empresa está num setor ultra-dinâmico, como o de Telecom, ou o varejo, a inovação estará sempre no encalço. Não há tempo para cristalizar práticas e produtos, ou pelo menos o risco dessa perda de maleabilidade é enorme.

“Por que inovar nesta empresa neste momento?” Essa é uma pergunta fundamental, pois a inovação é totalmente contextual. Para entrar nessa floresta, é preciso que tenha sentido.

“E é necessário entender o processo de inovação. São habilidades diferentes a cada etapa e o que foi útil na criação, pode não ser necessário na implementação”, coloquei. Então a cultura de inovação lida com os paradoxos, vive num estado de jogo entre a estabilidade e a instabilidade, entre saber criar e saber analisar e implementar, entre ser estrutura  e ser rede. A cultura de inovação sabe habitar esses dois lugares ao mesmo tempo.

E como isso acontece na prática sem que tudo vire uma grande confusão?

É preciso conversar sobre inovação para esclarecer o seu significado específico na organização. A conversa é o que faz o sistema vibrar. Segundo Humberto Maturana, nós vivemos as nossas conversações e elas ditam o que podemos perceber. São a própria energia que alimenta aquela ecologia que a Silvana colocou no começo da conversa.

“O ambiente de trabalho inovador é o que permite vida”, diz Silvana. Eu diria, é o ambiente que pulsa nas conversações.

E onde acontece esse pulsar? Não somente quando verbalizamos. Falamos um pouco da teoria U que se apóia muito no poder da meditação e agora lembro do filósofo  Gilles Deleuze com sua famosa frase “eu não me mexo muito para não espantar os devires.” A inovação é esse futuro que vai chegando, mas que precisa ser percebido, seja nas conversas, seja nas pausas.

Então a cultura de inovação tem ritmo. É apaixonada, mas sabe pausar. Conversa, mas sabe focar. Gera negócios, mas também se questiona sobre seu modelo de negócios.

“E até onde vai essa cultura, quais os limites da organização nesse caso?”, pergunta alguém.

Ah, todos concordaram, essa é uma organização que transborda.

3o Sarau de Idéias: Por que contar histórias?

Histórias dão sentido às vivências humanas, criam experiências estéticas em torno de novas idéias e têm efeito curativo desde que o homem é homem.

Então por que  somente agora essa retomada das histórias no ambiente organizacional? Essa foi a questão com a qual começamos o nosso Sarau de Idéias do dia 8 de junho, com a presença do Marcílio Godoi, da Regina Machado e da Cris Ceschi.

O que torna as histórias tão importantes no momento atual?

Histórias criam sentido em torno de novas idéias. Regina Machado resgatou a experiência vivida nos aos 90 em workshops sobre gestão da mudança na Unilever Brasil.

Abria-se a porta e na sala mal iluminada estavam cadeiras reviradas, toalhas mal ajambradas e um homem roncando sobre um sofá. Entrava uma mulher de branco abrindo espaço com sua vela entre os executivos perdidos. Ela contava então, a história de Artaxerxes, o herói bem conduzido de Osman Lins, um homem controlado e direcionado por toda a vida. Quem queria ser como ele?

Nessa vivência, reproduzia-se não um conceito de mudança, mas a inquietação, a insegurança e a ansiedade que a mudança traz. A partir dessa experiência, discutia-se o tema não em torno de conceitos, mas a partir das sensações vividas.

Histórias acessam outros canais de percepção, elas criam (potencialmente), uma experiência estética no “mundo desencantado” das organizações. Somos capturados pelas narrativas não porque precisamos deste ou daquele conceito para trabalhar, mas simplesmente por nos vermos emaranhados em um enredo que sentimos necessidade de seguir.

Histórias ativam a curiosidade, recuperando um olhar inocente que percebe sutilezas, ritmos e linhas de fuga. Isso porque nas histórias, colocam Cris e Regina, quem ouve é também autor. As imagens se formam dentro de nós a partir da escuta e nesse lugar nasce também um potencial contador de histórias, alguém que vai reproduzir aquele enredo que acabou de ouvir. Contar histórias é quase irresistível.

“Fazer a transposição poética exige uma escuta apuradíssima”, coloca Cris. As histórias colocam a autoria ao alcance de todo ouvinte.

Marcílio cita Manoel de Barros: “repetir, repetir, repetir, até ficar diferente”. Histórias geram memes, inaugurando unidades de transmissão de cultura que podem se multiplicar sem autor ou causa.

Histórias sedimentam, enraízam. Uma organização sem histórias  é como uma casa construída numa fina camada de terra de encosta: não se sustenta tanto interna quanto externamente.

Então há essa estranha propriedade nas histórias, de enraizar e ao mesmo tempo soltar, deixar ir, disseminar sem controle, jogar uma idéia para ser absorvida, transformada e re-criada.

Regina traz uma linda parábola: na floresta, há as árvores da frente e as do fundo. A história conversa com as árvores do fundo, um lugar intocado. As histórias nos apóiam para acessar o desconhecido, inaugurando na imaginação uma viagem que tememos na prática, mas que pode nos ser necessária para projetar o futuro ou para atravessar uma mudança.

Exatamente por terem todo esse poder, contar histórias é assunto de “gente grande”. “Quando uma marca se apropria de uma história sem ter história, não cola”, coloca Marcílio. Não basta um bom transmedia storytelling. É preciso que a história contada “para fora” seja vivida dentro da organização, transformando-se em valor para seus funcionários e stakeholders. Essa necessidade de coerência é amplificada pelas mídias sociais, que vão questionar e apontar tudo o que for fora do “enredo”.

Esse é um dos grandes desafios do trabalho com histórias nas organizações. O tema está colocado num lugar transdisciplinar, entre o marketing e o desenvolvimento organizacional, uma ponte das mais interessantes (e não usuais). É um lugar urgente. A partir da portabilidade dos celulares, com seus dispositivos de registro, além dos sites de compartilhamento, como o you tube ou o vimeo, a capacidade de contar histórias será cada vez mais disseminada e acessível.

Nesse contexto, vale a pena compartilhar algumas inquietações que surgiram no nosso encontro:

Haverá tempo para o tempo encantado das histórias nas organizações? Como?

Conseguiremos recuperar uma dimensão ritual tão importante para organizar nossas vidas? Qual o espaço para esses rituais nas organizações?

Termino com mais uma parábola trazida pela Regina: histórias são muitas vezes vistas como lanternas na popa de um barco, mas elas iluminam o futuro, possibilitando que enxerguemos o devir à nossa frente.

Matt Ridley: Quando as idéias fazem sexo

Acabei de assistir o vídeo “Quando idéias fazem sexo”, um TED com Matt Ridley, professor de Oxford que nos conta como a capacidade de intercambiar é uma das chaves para o desenvolvimento e a prosperidade da nossa civilização. (Obrigada Bruno, pelo presente).

Ao mesmo tempo, tive hoje uma reunião com uma cliente de RH, uma mulher experiente e de pensamento aberto. Ela me falava sobre sua sensação de falta de coordenação e de tempo para reflexão e para conversas na organização em que vive.

Eu arriscaria o seguinte: a falta de tempo de qualidade para construir trocas significativas pode ser um dos grandes fatores de fracasso nas organizações contemporâneas. Esse é um dos fatores de redução da  produtividade e da originalidade das idéias. Está na raiz do comportamento dos gestores que não conseguem tempo de qualidade para solucionar dilemas que se perpetuam e reduzem ainda mais o tempo disponível. É também uma das raízes de problemas graves de retenção de talentos, pois o desejo de trocar, como coloca Ridley, é um impulso humano tão forte quanto o sexo. Ter esse desejo frustrado é algo que muitos não suportam (ou suportam apenas enquanto precisam).

“É geral!” dizia minha cliente, justificando que esse não era um problema apenas da sua empresa e muito menos do gestor mencionado em nossa conversa, que ainda não tivera tempo de se aprofundar no material gerado durante um workshop pelo seu próprio time.

O fato é que temos hoje duas tendências paradoxais. Por um lado temos a “nuvem”: uma web que permite buscas, encontros imediatos, construção coletiva, indexação de conteúdos, reuniões à distância. Por outro, temos ambientes organizacionais saturados com seus próprios controles, nadando em densos mares de teorias, best practices e comunidades que muitas vezes não deslancham.

O sonho de muitos é o “internet inside”: reproduzir internamente as condições da web, mas ainda há  poucos casos de sucesso nessa área. Para quem quiser conhecer alguns, recomendo o livro The Future of Social Learning, de Marcia Conner, mas recomendo também ficar de olho no blog sobre fracassos nessa área que ela deve lançar me breve.

O fato é que essa cultura de nuvem gera uma pressão sobre a estrutura organizacional. Mais do que uma tendência tecnológica, é uma mudança cultural importante que se baseia num princípio cultural sólido surgido, como Ridley menciona, há 100 mil anos: o ser humano tem necessidade de trocar. Essa promiscuidade intelectual, física e econômica é fundante para o ser humano, mas é também dionisíaca e disruptiva. Só o tempo dirá como as organizações e seus procedimentos de gestão serão modificados pela emergência da cultura de nuvem.

A boa notícia é que os mecanismos de auto-organização surgem mesmo a partir desse tipo de dinâmica que parece caótica. Além disso, gestão e colaboração não são princípios antagônicos e sim complementares. Adam Kahane em seu belíssimo livro Poder e Amor, mostra a dificuldade e a extrema necessidade de coordenarmos impulsos de realização individual, iniciativa e demonstrações de poder com a colaboração e o desejo de fazer parte de um todo maior. É talvez um dos maiores aprendizados que buscamos hoje como humanidade e as organizações são um microcosmo disso.

Onde isso nos leva?

Vejo-me novamente diante da minha cliente, olhando para um telefone e esperando a reunião começar. O que posso dizer a ela?

Penso que um dos princípios da nuvem é a visibilidade. A web é altamente econômica porque tudo é visível. Não é necessário dizer o que já foi dito ou fazer o que já foi feito. Este próprio post é uma reciclagem. Tornar visível o que existe, tagear e poder acessar o conhecimento de outros é algo tão simples quanto difícil para as organizações, mas pode ser um começo.

Dar visibilidade é mostrar o que se sabe e o que não se sabe, é expor  planos e metas, é fazer a gestão do conhecimento e do desconhecimento (adoraria fundar essa ciência). Esse nível de transparência é difícil em ambientes em que as pessoas ainda lutam por terreno e passam o tempo demarcando áreas. As trocas são fundamentais, mas não há um ser humano sequer que troque em condições de tamanha incerteza e luta por poder.

Então qual é esse território comum? Como vivemos e habitamos esse território? O que existe à nossa disposição para realizarmos nossas tarefas, para colocarmos em ação nossa potência e para inovarmos?

Saio da sala e deixo minha cliente que já vai correndo para outra reunião. Deixo sobre a mesa (ou na nuvem) a palavra visibilidade e, iluminada pela simplexidade possílvel, vou continuar buscando trocas interessantes com aqueles que me cercam.

Eis

Complexidade e Metadesign

Estive na Escola de Inverno do Hub fazendo um curso com o Caio Vassão sobre Complexidade e Metadesign. Queria postar aqui algumas idéias rápidas que me chamaram a atenção.

ambiente de produção VW

Primeiro, o metadesign se ocupa e desenhar o espaço de decisão em que os designers atuam para produzir objetos, informações, interfaces, enfim, o mundo em que vivemos. Essa idéia de espaço de decisão já existe, por exemplo, na economia, mas pensar que ele é um objeto de design me trouxe uma nova perspectiva.

Maturana e Ximena têm proposto a questão “como fazemos o que fazemos” de forma insistente, quase como um mantra e o metadesign do espaço de desisão carrega essa pergunta. É um olhar de fora, um apropriar-se do lugar onde vivemos. Fico imaginando um gigante olhando um pequeno grupo de liliputianos numa caixa e pensando sobre como eles vivem. A novidade, contudo, é resgatar o caráter estético (e portanto ético) dessa pergunta. Imagine olhar para o seu processo, o seu próprio fazer, como arte? Imagine pensar sua casa ou seu espaço de trabalho como o artista que define como vai funcionar seu estúdio?

Aí é que entra a complexidade. Será que o ambiente que crio para a tomada de decisões me ajuda a lidar com a complexidade do mundo? Ele me ajuda a ser um parte criativa dessa complexidade?

Para o metadesigner, é preciso, sim, ter procedimentos estabelecidos, afinal, o mundo precisa funcionar, os programas de computador precisam rodar, as portas precisam se abrir. Mas ao lado disso é preciso lidar com o emergente. Ele não é mais ruído ou desvio, é uma linha de fuga que abre possibilidades que o próprio metadesigner, com seu distanciamento, não seria capaz de prever.

Segundo Vassão, os arquitetos contemporâneos não tentam mais controlar tudo o que fazem os pedreiros. Vão apenas dando contenção e modificando o projeto conforme as decisões dos “fazedores”, acontecem. São quase tutores do acontecimento da construção.

Bom, isso tem diversas decorrências para a vida. Seria ótimo ser capaz de ser o metadesigner de si mesmo e criar um ambiente que permita os ordenamentos funcionais que a vida cotidiana necessita, mas também tenha um espaço para a emergência, o inesperado e uma certa confusão que vai temperando imprevisívelmente os dias.

Agora, talvez pensar isso nas organizações (o enigma pra onde sempre acabo voltando nesse blog) seja um grande desafio. Como desenhar ambientes de decisão e ambientes de aprendizagem com essa visão do design, pensando no viver e no desenvolvimento das pessoas que habitam o sistema?

Acho que muitas vezes esquecemos dessa visão estética. Pouco paramos para nos questionar sobre como fazemos o que fazemos e para redesenhar com o olhar de um designer onde fazemos o que fazemos. Onde talvez seja a palavra: estamos falando de ambiente, de processos e procedimentos, de regras mas também de movimento e dos graus de liberdade que estão abertos para nossa atuação. Estamos falando em arquitetura física, mas também em arquitetura das relações.

É isso. Muitas questões e algumas descobertas.

Ele olhava o copo e lembrava da sede.

Ela olhava o copo e pensava nas propriedades líquidas da água.

Ele queria pegar o copo, mas estavam em silêncio há tanto tempo que tinha receio de qualquer movimento.

Ela se sentia escorrer, mesmo estando ali parada, diante dele.

“A conta por favor” – pediu ele ao garçom.

“Sim, vamos.” – ela disse.

Qual era então o futuro do copo d´água? Há alguns instantes ele não sabia se seria célula ou esgoto. Agora , sentado sobre a mesa, o copo d´água contemplava com transparente clareza, o futuro móvel de sua própria evaporação.

O que é o futuro? Como vivemos nossa própria passagem? Somos autores do que vai acontecer? O que é transformar-se? O que é inovar?

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Minha amiga Maria é uma pessoa apreciativa. Estar no presente com ela é viver um mundo que tem algo de contente, onde o medo tenta ficar escondido. Mas sonhar é duro para muitos. Ninguém se recupera de ser adulto e encarar os paradoxos do mundo que nos invade (e nos nutre).

Ajudar a sonhar é uma arte esquecida, talvez seja como querer plugar-se num fluxo que vem do futuro.

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Nossa memória atualiza, no presente, cada passado vivido e se move junto conosco sem rumo. O tempo é nossa própria essência em movimento.

(Ou somos a essência do tempo em movimento?).

Ximena contou-nos uma história. Estava em frente à praia, sozinha em casa, quando houve o terremoto no Chile. Imaginou que uma onda imensa poderia atingí-la. Seu futuro foi onda (e também o presente). A transformação acontece a despeito de nós, mas também dentro de nós.

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Teoria: o momento em que se inaugura um projeto é um holograma de seu futuro. Um projeto que nasce a partir de bons encontros, carrega bons encontros. Um projeto que nasce do medo, carrega o medo, a não ser que haja um outro começo.

Os começos são oportunidades de desvio, doem apenas quando nos apegamos ao fim que houve antes deles.

Que bom que o dia amanhece sempre.

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A ruptura, mesmo que pequena, gera uma dobra no fundo do mar, na vida, nas reflexões que fazemos juntos. Inovar talvez seja curvar-se.

Detal do rio Kolgrima, na Groelândia, em maravilhosa foto de Hans Strand.

10 + n coisas que aprendi na CIRS

Semana passada estive na CIRS.

Fiquei pensando no que postar. Difícil. Foram muitos os encontros, dentro e fora das palestras. Boas conversas!

Fiz aqui o compilado de alguns aprendizados.  Nem tudo está indexado por autor. Na mente, tudo se mistura e recombina, como nas redes.

nodos desesperados disputam tomadas.

Lá vai!

1. A rede não está nos nodos, mas nos fluxos. A rede é puro movimento, por isso não é possível saber o que a modificará ou influenciará. Mesmo mapear a rede é só uma tentativa de fotografar um território que já foi modificado. Mapear redes é arqueologia, como coloca Clara Pelaez.

2. Estar nas redes sociais é não saber. Pela abundância e irregularidade das conexões, não é possível saber como uma informação ou idéia vai fluir, onde vai parar e como será transformada, reinterpretada, ou enterrada. Entendendo isso, twitter vem mudando sua configuração e possibilitando que os próprios usuários acoplem a ele seus aplicativos. A rede resiste ao aprisionamento e os negócios precisam ganhar plasticidade para acompanhá-la.

3. Viver em rede e cooperar são atributos humanos que foram fundamentalmente modificados pelas ferramentas disponíveis. A facilidade de conexão derrubou os custos de transação de cooperar em rede e viabilizou inúmeras iniciativas que não existiriam se fossem necessárias empresas que as gerissem. A empresa simplesmente não é um modelo para viabilizar grande parte dos projetos humanos devido aos seus custos de transação crescentes. Coordenar ações em rede é muito mais barato.

Além disso, as organizações deformam a rede e dificultam que a auto-organização aconteça, assim como os prédios dificultam ver a paisagem. Essa idéia estava já na abertura do evento, feita por Augusto de Franco.

4. O que dá vida à rede são as emoções por trás do discurso de cada integrante. Fala-se muito em informação rodando na rede, mas pouco em emoção. A rede é um lugar de contar histórias, coloca Pierre Levy. A rede é um lugar habitado por pessoas reais, por desejos reais e projetos reais. Talvez por isso as marcas tenham uma certa dificuldade em aparecerem de forma legítima nas redes sociais. Marcas não são pessoas.

5. A entrada numa rede tem que ser voluntária. Quem não entra voluntariamente, não se conecta de verdade, não compartilha conhecimentos e muito menos motivações. O involuntário nunca será um nodo vivo da rede. A rede é expressão.

Cacau Guarnieri conta uma experiência real de empresa em rede no Open Space

6. “Small is powerfull” quando se está conectado, coloca Clay Shirky. Esqueça as grandes redes. Mesmo dentro de uma rede maior, é a pequena rede que anima, energiza e faz acontecer. A ansiedade de uma grande organização, por exemplo, em ter uma grande rede não faz sentido nesse contexto. A rede não nasce a partir de um desejo central, mas de desejos capilares e da conexão entre eles.

7. A liderança na rede é volátil, evapora conforme se exaure a tarefa que ela ajuda a coordenar. Ou ela se engaja em outros desejos presentes na rede, ou será substituída. A grande diferença é que isso não é ruim. Viver em rede é desapegar-se do status, o movimento é constante e se você não for o líder da vez, vai poder ler, ir à praia ou simplesmente continuar vivendo em rede.

8. A grande fronteira das redes não é dada pelas ferramentas, mas pela cultura que as envolve. A rede cria um sistema comum de significados que se modifica e renova em seu fluir. Há crenças, valores e costumes próprios em cada rede. Clay Shirky nos diz que há uma barganha singular, ou seja, regras implícitas de funcionamento e, mais importante de tudo, um propósito, ou o “para quê” a rede foi criada. É a cultura que cria acordos e impedimentos que evidenciam o que está “fora” e “dentro da rede”. Esses limites, entretanto, são líquidos. A rede é um território móvel.

9. Tagear os conhecimentos dá um tipo de acesso à subjetividade do outro que conhece, que posta, que tageia. Há uma energia ligando os fenômenos e o processo discursivo que é a energia emocional. Essas e outras frases carregadas de interpretações estão na tag #2010CICI . Essa tag chegou a ficar entre as 10 mais do Twitter durante a CIRS e mostra que a discussão sobre  a semântica como indexador fundamental da web continua. Pierre Levy deixou um gostinho de quero mais. É por esse caminho que ele segue, ainda que não esteja falando do mesmo que Tim Berners-Lee. “A imagem de um sistema semântico coordenado, matematicamente processado onde podemos situar todos os conceitos e transformações que eventualmente venham a sofrer, além da circulação das emoções envolvidas.”.

Bom, quem viver e tiver paciência para explorar o site dele verá.

Pierre Lévy se inspira no I-Ching

10. Sem gestão pessoal do conhecimento não há gestão coletiva do conhecimento. Um enorme desafio hoje, conforme foi também apontado por Pierre Levy é o foco na busca de aprendizados e na produção pessoal que ocorre na web. A gestão do conhecimento pessoal é a base da inteligência coletiva porque dá início ao ciclo e explicitação do conhecimento e alimenta nossas conversações. “Quando conversamos, usamos palavras e conceitos, fazemos acordos, progressivamente criamos metadata comum, que torna-se a gestão conhecimento coletiva.”

…N. Aprende-se rede com redes. Ouvi isso do amigo Luiz Bouabci, um amigo profundamente envolvido com o estudo das redes sociais. Estava saindo do evento quando começamos a conversar. Sentamos nos degraus e ficamos olhando os operários desmontarem o painel título da conferência até abrir-se para nós a vista total em frente ao pavilhão.

Mais interessante do que a teoria é a prática das redes, onde tudo está sendo construído a cada instante. Há tantas variações possíveis que a teoria não daria e não dá conta de explicar. Além disso, explicar não substitui o viver, só estando em rede para saber como é.

Liderança, coragem e simplicidade

Acabei de ler um post na HBR com o título “Are you brave enough to work for social change?” ou “Você é corajoso o suficiente para traballhar para a mudança social?”. Adorei e não resisti em postar, mesmo estando num dia bem corrido.

O vídeo que está no post é imperdível. Assista você mesmo. Liderar não é apenas  ser o primeiro a empreender, mas também ter a coragem de ser um seguidor de empreendedores malucos que simplesmente enxergaram a oportunidade de mudar algo. É a partir desses seguidores que a mudança simplesmente … acontece!

Além disso, muito bonita a declaração de Raymond Chambers, empreendedor social que criou o movimento da compra de redes de proteção (os famosos mosquiteiros) como forma de prevenção da Malária e chegou até a comprometer o super mega pop programa Ídolos com sua idéia. Largou uma carreira promissora para dedicar-se a causas sociais.

A receita de felicidade dele é simples:

  1. Permaneça no momento; não há nada além do presente.
  2. De um passo atrás e torne-se o espectador dos seus próprios pensamentos; não seja aprisionado pelo drama, aprenda com ele.
  3. Preocupe-se em ser amoroso enão em estar certo.
  4. Desvie do seu camminho para ajudar qualquer pessoa que necessite.
  5. e finalmente, a cada manhã, anote as coisas na sua vida pelas quais se sente mais grato.

Idéias muito coerentes com a Biologia Cultural.

Eu pessoalmente sigo alguns malucos maravilhosos e desejosos de um mundo melhor.

fui.

TEDx Vila Madá e a coragem de abraçar

Este tem que ser um post rápido. É fim de ano e quase não consigo escapar à histeria natalina, ao trânsito, às 1500 demandas familiares e festas escolares. Óntem, contudo, consegui ir ao TEDx Vila Madá, que foi promovido “na raça” em 15 dias pelo pessoal da Educartis.

As vezes o desejo de abraçar é maior do que a pressa, do que o excesso de fim de ano, do que a agenda lotada, simplesmente é preciso abraçar uma causa ou o desejo de fazer nascer algo que quer em existir.

Acho que foi assim com eles, pelo misto de cansaço e alegria. Quem estava lá sentiu. Organizar um TED em 15 dias não é fácil, mas abre uma porta e inaugura uma série.

O TED em si, a causa de espalhar idéias que valem a pena, e a iniciativa de fazer isso a partir de um nascedouro de cultura como a Vila Madalena, em uma escola que estava quase “abandonada” pelos próprios alunos, recupera um certo espírito paulistano de se mostrar, de tornar presentes idéias vanguardistas. Tomara que os próximos eventos tragam esse espírito cada vez mais vivo.

A coragem de abraçar, seja alguém ou uma idéia, mesmo a essa altura de 2009 é encantadora.

O vídeo que estou inserindo fechou o evento. Talvez você já tenha visto, eu não tinha e me emocionei. Isso, afinal, talvez seja o Natal.