pra contar estórias

coisas que a gente escreve sem pensar ou… pensando muito.

Saraus de Idéias

Caros amigos do blog, vamos recomeçar os Saraus de Idéias na Dobra. Sejam todos bem vindos. A programação está aqui e no site da Dobra. Fiquem ligados, vamos continuar transmitindo via Twittcam (se tudo der certo).

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Eu só soube correr (ou como o esporte mudou a vida de uma pessoa péssima nos esportes)

Só soube correr.

difícil pacas jogar esse troço. Repara no tamanho da bolinha!

Não tinha pendor para os esportes de equipe e enfim um dia alguém me percebeu. (Acho que não era tão difícil, tendo em vista o meu ridículo desempenho no hóquei de grama…)

“Você só pode correr. É irremediavelmente ruim nos esportes com bola” – me disse a professora americana.

Foi uma profecia mas, ao mesmo tempo, uma boa orientação. Finalmente alguém me dizia alguma coisa absolutamente honesta e simples. Eu tinha então uns 16 anos e posso dizer que foi uma revelação sentir-me parte do pelotão da frente depois de anos de desastrosa aventura escolar sendo sempre a última a ser escolhida nas aulas de educação física.

Comecei então a correr seriamente. A professora era uma mulher fria, ruiva e masculina que não sei se botou fé ou sentiu compaixão por mim, mas me ajudou. No final ela sorria e me fazia sinais de positivo. Tínhamos vencido uma marca em mim, tínhamos aberto outro caminho, talvez uma coisa simples e sutil, mas na verdade poderosa na medida em que transformava em ilusão uma incapacidade que eu já considerava como um dado. Entretanto, sobrava meio veredito.

esta obviamente não sou eu!

Depois de anos, jogávamos frescobol numa praia em Ubatuba. O dia era lindo e nos protegíamos do sol intenso debaixo de um “chapéu de sol”. Meu amigo era carioca, chamava a árvore de amendoeira e dizia que não era possível eu jogar tão mal.

Contei então o veredito que me tinha sido dado anos antes pela professora americana. Eu não fora feita para os esportes com bola.

Ele riu muito! Era um cara engraçado e moreno, com cabelos encaracolados e que gostava de se atirar no mar de costas, em grandes splashs. Seu nome era (e é) Maurício, um amigo pra quem (garanto) nada é impossível.

Ele voltou da água pingando e me desafiou. Disse que jogaria comigo até que eu aprendesse, ou pelo menos “passasse a primeira rebentação” pra sair daquela marca de impossibilidade. E jogamos.

Fazia um calor terrível e nossa amiga Bia nos chamava de loucos enquanto se abrigava em sua canga. Os banhos de mar aliviavam um pouco o esforço e o dia já ia ganhando uns vermelhos quando decidimos parar. Ele tinha conseguido.

Nunca participarei de um campeonato, o esporte não me obstina e creio que realmente não fui feita para ele. Tudo bem. Mas jogo frescobol com enorme prazer.

Serve para mostrar de novo que vereditos não servem para nada.

Hoje a treinadora americana já deve ser uma velhinha, eu tenho dois filhos e meu amigo Maurício renasce em Londres, depois de um terrível acidente. Nada é impossível.

Vivemos o que percebemos do mundo e com nosso viver transformamos esse mesmo mundo. Que imensa responsabilidade em ter uma história que é, em grande parte, construída pelo modo como enxergamos a realidade. Eu que não corria, me percebo corredora ao correr. Eu que não jogava, ao jogar me transformo.

Humberto Maturana, anos atrás

Essa semana estive com o Humberto Maturana e a Ximena D´Ávila na formação em Biologia Cultural . Ao que tudo indica, grande parte do que é ‘viver bem’ diz respeito a conseguir olhar-se de fora, assim como na Yoga e em outros tantos lugares de sabedoria. Para mim faz sentido. Ao olhar-me de fora e perceber como estou fazendo o que estou fazendo tenho a possibilidade de rir de mim e de me instalar na multiplicidade da vida que esse olhar estabelece. Eu não sou só o que observo em mim num dado instante. Transformo-me a partir dos fazeres que crio para mim.

Faz sentido.

Em todo caso, para quem é muito pegajoso como eu e não tem essa plasticidade para descolar de si mesmo a qualquer instante, talvez seja melhor cercar-se de boas conversas. Assim, alguém poderá lhe fazer um convite para você se olhar de outro modo, como o meu amigo Maurício fez comigo ou, pelo menos, como profissionalmente fez minha professora americana.

Sobre esse mesmo tema dos limites e das possibilidades, não pude deixar de pensar no tema da educação. No Brasil, meu desempenho nos esportes era pífio, mas demorou anos para que alguém olhasse para mim. Talvez, mais do que ganhar a corrida, eu precisasse ser legitimada.

Ainda bem que aconteceu aos 16.

Fico pensando nas escolas em que nossos filhos estudam. Como será que eles escolhem os times hoje em dia? Será que percebem que nossos maiores aprendizados se dão nas relações? Será que são lugares de bons encontros?

Difícil.

Educar, mesmo em casa, não é tarefa simples exatamente por isso, porque se faz no fazer, não só no dizer. Vivemos tão divididos que muitas vezes nos esquecemos de descolar do cotidiano e perguntar: essa é a mãe que eu quero ser?

A ponte e a menina (eu vi)

Há crianças vivendo sob a Ponte Estaiada e nessa imagem a cidade revela suas próprias mentiras. A menina atravessa a velocidade da faixa expressa, mas dos jardins do Hotel Morumbi ela não pode ser vista. Está escondida sob a imagem da ponte esvoaçante enquanto comemos manjar e tomamos café illy.

Não é possível ignorar: há algo terrivelmente errado.

(Por isso, talvez, a ponte esteja suspensa, assim como estamos nós quando passamos: sobre a ponte, sobre a menina.)

imagens da ponte feitas por brunna mancuso

Qual a sua visão da ponte? Estas são de Brunna Mancuso

Conversas presentes

No maravilhoso livro De Verdade, Sándor Márai fala das testemunhas. Ele dá esse nome àqueles velhos amigos com quem temos uma relação de cumplicidade tão verdadeira, que seu testemunho é essencial para nossa história. Para o autor, muitas vezes vivemos para as testemunhas, imaginando, ao tomarmos uma decisão, o que elas pensariam. Devo aceitar este trabalho? Esta paixão vai durar? Devo fazer esta viagem?

Outro dia encontrei uma testemunha. Fomos ao Centro do Rio tomar um café na maravilhosa Confeitaria Colombo.

Eu não tinha um presente ao dar ao meu amigo. Envelhecemos, mas estamos ambos renascendo. Ele falava animadamente (renascer rejuvenesce). Eu ouvia e viajava no tempo. Não sei quantas vezes já fizemos isso. Sei apenas que quanto mais ele me contava, mais eu sentia vontade de presentear-lhe com algo. Um pensamento, uma história, uma lanterna, algo que pudesse ajudá-lo a enxergar com mais clareza tudo o que está vivendo.

Acho que é disso que se tratam as boas conversas e os bons encontros. A gente sente uma vontade irresistível de dar um presente.

Foi então que me veio à mente um pensamento antigo que eu tivera sobre ele. Não era muito fácil de dizer, porque as testemunhas não estão na nossa vida pra agradar, mas eu disse.

Pude assistir o efeito que isso fez no seu rosto e nas rugas que carrega. Poucas vezes tive tanta certeza de ter dado um bom presente.

…Hoje em dia, nas festas de aniversário, as crianças mal olham os presentes que recebem. Eles ficam em cestos perto da porta e são abertos na ausência de quem os escolheu. Isso é triste. Ninguém vai receber de volta o olhar que eu recebi naquela mesa da Confeitaria Colombo.

Quantas conversas são presentes de fato? Quantas vezes recebemos de volta um olhar como esse?

Não acredito que isso possa vir apenas de uma testemunha, acho que pode vir de todas as pessoas com quem conversamos de fato.

Eu me senti premiada naquele instante e gostaria que mais pessoas se sentissem assim: sentadas num lindo lugar cheio de memórias, diante de um doce mil folhas e um café, enxergando dentro do outro, sentindo palavras.web2_DSC_0417

A Estória do Lote

(uma inovação materna em busca da liberdade cotidiana)

Tenho um filho pequeno que adora brincar. Fala pelos cotovelos, quer me mostrar o mundo. Sim, quero conhecer o mundo, meu filho, mas tem que ser agora? E com tantas bolas espalhadas pelo chão? E vestida de power ranger?

Sim, tem que ser. Criança não tem tempo pra não, ainda mais com três ou quatro anos de idade.barbante_00255

Eu sempre quis ser mãe, mas o silêncio me faltava e aquela pequena voz me fazia sentir como se houvesse um desenho animado dentro da minha cabeça.

Foi então que me surgiu uma idéia genial.

Tomei um rolo de cordão e expliquei para o meu filho:

“Filho, as pessoas grandes passam a vida tentando ter um lote. Ele é um terreno só da gente, um espaço pra construir e brincar do jeito que quisermos.

A mamãe gosta tanto de você que hoje eu vou te dar um lote. Vou passar este fio aqui e vamos fazer o limite do lote. Este lado da casa é meu e este é seu. Você brinca no seu lote e eu brinco no meu.”

“Quando você quiser entrar no meu lote você vem bem pertinho do fio e me chama.”

Armei então um monte de brinquedos e decoramos o lote dele.

O molequinho ficou super feliz com a história do lote e  logo começamos a brincar, ele no lote dele e eu no meu.

Maravilha!

5 minutos, uma visita.

2 minutos, outra visita.

Outro minuto, outra visita.

O que eu não tinha previsto, é que criança não tem uma noção de tempo e outra de espaço, como as pessoas grandes aprendem a fazer (infelizmente). É tudo uma coisa só. No tempo-espaço do meu filho, as coisas foram se encolhendo rapidamente. O lote dele, que na verdade era a maior parte da casa, foi explorado com tanta intensidade que logo ficou pequeno.

Quem quer um lote pra estar só?

Quem quer um lote pra ouvir silêncio?

Quem quer brinquedos sem amigos e uma enorme cozinha sem saber cozinhar?

Durou dez minutos e:

“Mãe, já cansei desse negócio de lote.”

Meu filho cortou o fio e eu… aprendi a buscar outros espaços para os meus silêncios.

Mãe de avião

Meus queridos,

Hoje escrevo para contar umas coisas de mãe.

As mães mudaram muito, talvez vocês não saibam, porque eu sou a única mãe que vocês têm, mas queria contar como era antigamente, quando as woman_on_planemães não andavam de avião, porque podiam preferir ficar em casa, e usavam lenços para não perderem a cabeça. (A minha tinha um lenço amarelo muito lindo que combinava com sua pele morena e seus olhos esverdeados).

As mães não gostavam de aeroporto porque têm cheiro de distância e levavam seus filhos pela mão por onde andavam. Hoje, mesmo que as mães queiram, os filhos não querem dar a mão, porque também aprenderam a mudar quando as mães deixaram de usar seus lenços.

Antigamente as mães cozinhavam bolo durante a tarde pra gente chegar da escola e sentir cheiro de amor. Hoje as mães correm para chegar em casa e sentir o cheiro dos filhos, mesmo que eles estejam dormindo.

Mas queria que vocês soubessem que nem tudo é ruim nem ruína. As mães de hoje não ficam a ver navios quando seus maridos viajam, não temem ficar sem assunto nas festas nem têm medo de dirigir na estrada. Elas sabem fazer cafuné num pai tristonho e procuram preparar-se para a solidão, antes que a solidão lhes prepare algo.

Sou uma mãe de aeroporto. Não era isso que eu queria, mas foi o que aconteceu. Acho que uma coisa das mães de hoje é amarem o que lhes acontece, porque muitas coisas acontecem, a todo instante, mesmo que não se perceba ou não queira. As mães de hoje não podem se esconder.

Eu tento ter calma e acho que criei uma espécie de mágica: quando estou com vocês, parece que uma cortina se fecha e ficamos só nós quatro no palco, eu, vocês dois e o papai, com nossas brincadeiras, nossas brigas, nossos passeios. Mesmo quando estou no avião, sei fazer essa cortina se fechar de novo para ver suas carinhas tão vivas quanto nunca. É uma cortina vermelha e pesada, como aquelas dos grandes teatros, só que atrás dela não há platéia, mas o mundo todo em que vivemos. A escola, a praia, a cidade, tudo está do outro lado da cortina e do lado de cá estamos nós, com a nossa pequena história de amor.

Eu espero que vocês possam também usar essa tal de cortina que eu criei. É só a gente fechar os olhos, ninguém nos impede, ninguém pode ver o que vemos.

Assim, quando tiverem saudades, espero que possam fazer como eu e imaginar que estamos dançando num palco lindo, com piso de madeira lisa e brilhante, ouvindo nossa música preferida e sentido o cheiro de pipoca que o papai está preparando.

Beijo,

Mamãe.