pra ser sustentável

Inovação para a Sustentabilidade – Servicizing

Ganhamos de presente o vídeo que está no fim deste post sobre a importância da transição de uma economia focada no aumento da produção e do consumo para uma economia focada em serviços. O que isso significa? Significa que o consumo colaborativo, o aluguel de coisas das quais não precisamos todos os dias ou mesmo o compartilhamento, são um caminho claro para uma nova cultura de consumo, onde o usar substitui o ter.
Os dados são claros. Em 2030 precisaremos de dois planetas se o consumo continuar crescendo no ritmo atual. As iniciativas de redução de impacto da produção no meio ambiente muitas vezes barateiam produtos e acabam tendo o efeito colateral do aumento do consumo. No caso do Brasil o maior do poder aquisitivo da Classe C, apesar de não ter nada a ver com produção mais sustentável, mostra como ainda há esse desejo, como nossas vidas são focadas em ter mais e mais. A consequência são estradas lotadas, shoppings sendo construídos em cada esquina e tudo muito justo. Todo mundo quer um lugar ao sol, ou na praça de alimentação do shopping.
Por isso uma das questões da inovação hoje é o fator cultural. Se inovação, como acreditamos na Dobra, é produzir o futuro que queremos, é preciso que ela se dedique a mudar a nossa forma de viver o cotidiano; o que valorizamos, o que compramos, sobre o que conversamos com nossos amigos quando falamos das “melhores coisas da vida”.
Talvez esteja nascendo um novo contexto, em que essas “melhores coisas” sejam experiências menos materiais e não estamos falando da elevação espiritual do ser humano (ainda) mas simplesmente em um novo modelo no qual experimentar está à frente de possuir. É uma GRANDE mudança de filosofia de vida!
Talvez a transição de parte da nossa vida para o ambiente virtual também reforce essa tendência: vamos viver experiências que podem ter algum vínculo com o mundo da matéria e do consumo, mas também podem estar encerradas alí, num lugar em que o consumo de recursos é baixo. ape
Isolamento? Alienação? Não necessariamente. Outra descoberta recente. Estamos participando do beta-test de um sistema chamado greenApes (http://www.greenapes.com/en) que vai ajudar as pessoas a entender o seu padrão de consumo, consumir de forma mais sustentável (ou evitar o consumo) e formar comunidades em torno do tema da sustentabilidade de uma forma divertida. A experiência tem sido incrível! É uma inovação que vai na direção da mudança do padrão de consumo. Amén (sic).
Como diria o mestre Maturana, a cultura se faz a partir da nossa rede de conversações, então, que essas iniciativas possam abrir novos caminhos.
Eis o vídeo. Divirta-se e inspire-se.Servicizing

Redes para a Sustentabilidade: 3 reflexões e 4 aprendizados práticos

Queridos amigos,

Escrevo para dizer que não consegui as passagens para o Rio.

Sei que contavam com isso, assim como eu, mas o barco não chegou.

Fiquei no porto, esperando, com uns poucos companheiros cheios de esperança.

Tomei chuva, tomei sol e, mesmo sem querer, volto ao cais todos os dias na esperança de ver chegar aquele barco onde parecíamos caber todos.

Estou cansada, na verdade. Só fico se vocês vierem procurar carona comigo.

(Por via das dúvidas, tragam suas varas. A gente pode, no mínimo, pescar).

Beijos a todos.

Lu

Assim de certa forma me despeço de mais uma tentativa de “colocar no ar” uma iniciativa na área de sustentabilidade.

Sempre fui ligada ao tema, mas acabei sempre atuando no setor privado onde, se não há pagamento, não há negócio. O máximo que acontece é uma proposta, que depois a gente joga fora ou recicla.

Mas com projetos de sustentabilidade é diferente. As pessoas se apaixonam. Somos ávidos por sentido nesse mundo em que existe sempre um cartão para comprar “todas as outras coisas”. A rede de pessoas envolvidas com esse tema é cheia de energia emocional e engajamento. Nem os mais céticos escapam, nem sequer Henneke, da Holanda, com seus lindos olhos verdes que no Festival de Aprendizagem da Reos Partners, me mostrou sua cara mais triste ao descrever a situação é objeto deste post.

Eis o assunto:

O dinheiro alimenta a rede ou a rede, quando suficientemente forte, gera recursos para si?

Por uma questão lógica, vamos investigar primeiro a segunda hipótese. Se uma rede forte gera recursos, os modelos de crowdfunding, por exemplo, são de fato o futuro e as moedas sociais vão florescer e se tornar cada vez mais relevantes do ponto de vista econômico. Aprenderemos a gerar valor de outras formas e a unir pequenos pedaços para viabilizar grandes iniciativas. É um caminho no qual apostamos coletivamente.

Entretanto, no último ano e meio, vivi situações que contradizem essa hipótese e mostram que, sim, a um dado ponto a rede precisa de dinheiro. Ele ainda é o nosso equivalente universal de valor e precisamos dessa validação.

A primeira situação era um projeto na área de agricultura ao qual me dediquei por alguns meses. Sucumbiu sob trâmites políticos globais de ONGs e Universidades. A rede que foi mobilizada em torno do projeto persiste. Houve encontros poderosos e algumas relações já existiam antes do projeto ganhar nome, mas o fato é que, sem recursos, a rede entrou em latência. Foi frustrante: não fui remunerada e não consegui dar visibilidade à rede. Mas conheci pessoas incríveis, fiz novos amigos, “emoções eu vivi”.

A segunda situação está sendo infinitamente mais difícil do que a primeira. Quando entrei na sala para conhecer as pessoas que haviam sido convidadas para criar o projeto, fiquei sinceramente emocionada. Era “a sala dos superpoderes”, como disse um dos participantes do encontro. Mas era começo de férias e o projeto precisava ser criado, precisava de guardiões que agüentassem férias escolares, chuva e sol escaldante.

Fomos três voluntários a aceitar.

Coloquei toda energia que pude.

Não aconteceu.

Muitos fatores podem ter levado a isso, portanto registro aqui alguns aprendizados, casando reflexões minhas com aprendizados que coletei durante o Festival de Aprendizagem da Reos.

  1. Não há rede se a diversidade de vozes não é ouvida. Mesmo as mais duras, as que duvidam e temem, e talvez essas principalmente, precisam ser ouvidas. É preciso que o poder se expresse, como diria Kahane, e quem tem mais poder precisa se posicionar. Se você faz parte do nascimento de uma rede sobre a qual tem dúvidas, saia da sala, fale agora, mas não se cale para sempre. Esse é o pacto primeiro. Nenhum método de diálogo serve verdadeiramente a um grupo se não der espaço para as vozes mais difíceis de escutar. Diversidade também é isso.
  2. As redes precisam, SIM, de recursos. O dinheiro é uma energia fundamental que valida nossas iniciativas, ainda que dinheiro não seja igual a valor. Não acredito mais na teoria que Brafman e Beckstrom apresentam em The Starfish and the Spider, de que o dinheiro pode matar uma rede. Todo mundo precisa comer, no final do dia.
  3. A rede não morre por causa de dinheiro. Se a rede existe mesmo, ela persiste nas relações que duram, e no olho no olho. O projeto de agricultura está renascendo das cinzas e eu, como seria de se esperar, pude chorar a falta de patrocínio do segundo projeto ao lado de outro “superpoderoso” da nossa rede. Ele, veterano, me olhou com olhos de “eu sabia”, apesar de ter colocado sua própria reputação “na reta”. Obrigada, E. R., foi muito bom te reencontrar!

Algumas outras coisas não são aprendizados, mas hipóteses:

  1. Os projetos que mais mobilizam a rede vão persistir e achar um caminho de geração de valor. Vejo isso nos e-mails que estão circulando. A rede é maleável: as pessoas mudam, a idéia persiste. Obrigada Telma.
  2. Potenciais patrocinadores ainda não sabem o que é investir numa rede. Há um timing, há um ritmo necessário, porque a rede é atravessada pelas histórias de vida de pessoas que se encontraram naquele momento preciso, por sorte ou por acaso. Nesses encontros se revelam processos históricos e orgânicos  que escapam à lógica do setor privado. Rede se paga com rede, apoio com apoio.
  3. Assimetrias de poder e disponibilidade de energia precisam ser consideradas. Quem pode mais num determinado momento, apoia mais. A rede se baseia na confiança de que haverá resultados para todos os que geraram de fato o resultado, seja ele sucesso ou fracasso. No mundo da reputação, quem faz leva, no bom e no mal sentido.
  4. Precisamos construir uma linguagem comum, algo que permita conversações entre o setor privado, o setor público e o terceiro setor. Essa foi uma conversa recorrente no Festival de Aprendizagem da Reos. Construir essa linguagem talvez seja uma das grandes tarefas que temos pela frente. Quem sabe a conversação, afinal, não vai abrir espaço para fluírem idéias, relações e, até, dinheiro?

Bom, amigos, é isso. Pelo menos a gente aprende e compartilha. Essa é a energia que eu posso oferecer agora.

Não deu pra mais (ainda).

Toda economia pode ser criativa

Vivemos talvez o momento mais criativo e grave da história da humanidade. Vivemos a “era da abundância, mas ainda carregamos a mentalidade da escassez”. Podemos pela primeira vez reconhecer a complexidade do mundo e temos em nossas mãos as ferramentas, as potências e o desejo para lidar com ela.

Esse mundo complexo nasce de uma conectividade inédita, de um fluxo de informações crescente, da diversidade aliada à perspectiva da unidade e de um caos que pode nos levar ao esfacelamento ou à descoberta de padrões que antes eram invisíveis.

Temos pressa. Pressa de conservar o planeta, pressa de evitar novas guerras, pressa de encontrar condições para a expressão da potência individual no trabalho, deixando de lado o terrível paradigma da dor como algo que enaltece o ser humano. Queremos carregar um certo sorriso por trás do que fazemos, não negando qualquer dor, mas sabendo que a dor é um estado que pode passar por nós como a água de um rio que conhece o seu próprio destino.

Amor e dor, poder e colaboração, não temos mais tempo para maniqueísmos. Queremos misturas. Temos pressa de viver.

Através da tela do computador buscamos bons encontros. Temos o desejo de tocar aqueles que compartilham a mesma vibração: é possível amar a vida sem ser inocente demais. É possível usar todas as capacidades técnicas, científicas e cognitivas que conquistamos em composição com o emocionar alegre, urgente e prático da dita geração Y. Em Y temos escolhas.

O desejo dessas novas composições vai então habitando projetos: ações certeiras, que impregnam o mundo a partir de uma escuta aberta e da contemplação de mapas complexos. “O velho desaparece não por colapso, mas porque fica obsoleto“.

Onde quer você esteja e com quem puder conversar, vai ouvir a mesma história. Queremos uma vida que tenha sentido. Escondida embaixo das mesas de reuniões nas empresas, estendida sobre as mesas de bar ou nos desenhos que os coaches fazem com seus pupilos, está essa perspectiva de projetos que vão se articulando e formando um mundo que ainda não conseguimos enxergar. É nesses projetos que queremos empregar nossas energias.

Temos pressa. Nunca houve tanta inspiração e tanta gente “solta”, em busca de um agenciamento positivo que ajude a exercer sua potência. Nunca houve tanta pressão para cozinharmos juntos nossos saberes, catalisando inovações sem autoria, que nascem no “entre”, nascem nas relações, mas com autoridade e recursos coletivos.

Inovação pode então parecer uma palavra mágica, um Santo Graal contemporâneo que todos desejam, mas ninguém sabe onde está. Isso porque ela é a possibilidade que habita o presente, é o próprio Zeitgeist, está em todo o lugar para quem tiver olhos de ver, ouvidos de escutar e desejo de realizar. Inovar é realizar transformações relevantes a partir e para as redes que habitamos. É um modo de viver em que um presente ampliado e esquivo nos desafia a agir com consistência e amplificar a geração de valor. Onde as cidades, as escolas e as organizações precisam de uma acupuntura certeira para que os pequenos pontos de luz ganhem força e ofusquem o que nos consome (e o que consumimos).

Estamos à altura do que nos acontece, se estivermos colados ao acontecimento. Toda a economia pode ser criativa.

Redes de Sustentação para a Sustentabilidade

Trabalhar com sustentabilidade em grandes organizações é um desafio enorme! Sempre fico impactada quando termino um trabalho com esse tipo de time.

Apesar de todo o pensamento em torno do triple bottom line e da necessidade de criar soluções que integrem aspectos sociais, econômicos e ambientais, a equação da sustentabilidade muitas vezes não fecha. E não fecha por quê?  Uma das principais razões é o processo de tomada de decisão nas grandes corporações e como ele lida com as perspectivas de curto, médio e longo prazo.

Quando a empresa trabalha com participação nos resultados (PR) e com metas anuais atreladas, os resultados de curto prazo tendem a ser privilegiados. Isso acontece, em grande parte, porque é muito mais difícil criar indicadores que representem no curto prazo resultados de ações que vão realmente fazer a diferença somente no longo prazo. Muitos executivos passam, então, a trabalhar guiados por metas tão antigas quanto as teorias de administração: redução de custos, racionalização do uso de recursos ou o controle de processos. Ok, o modelo de PR não é o único problema, mas é um símbolo muito forte da dificuldade de mudar a forma como acontece o processo de tomada de decisão em grandes corporações.

Segundo o Relatório das Nações Unidas Global Impact, “embutir novas concepções de valor e performance no nível organizacional e individual” é um dos grandes desafios atuais da sustentabilidade no que diz respeito à incorporação definitiva da sustentabilidade às estratégias de negócios.

O tema, portanto, deve ganhar cada vez mais relevância e talvez ajude a evitar decisões como a que ouvi num relato durante a semana passada e que complicou completamente a equação de sustentabilidade de um cliente numa dada região.  Não é possível ter sustentabilidade quando existe o afastamento da comunidade. Na história relatada, esse afastamento se traduziu numa fragilidade da comunidade em questão, em altos índices de criminalidade, em ações de depredação e até mesmo atos quase “terroristas” contra funcionários. Não é a primeira vez que ouço esse relato: era o econômico falando mais alto e se sobrepondo ao triple bottom line na tomada de decisão. A decisão foi justificada pela necessidade de ter mais foco na operação e nos resultados do negócio e menos foco em lidar com a comunidade.

Casos como esse evidenciam que quando as questões econômicas de uma operação se tornam críticas, o primeiro dos três fatores a ser prejudicado é o social, já que o ambiental muitas vezes é matéria prima ou condição para a operação.  Quantas empresas industriais, por exemplo fazem um bom mapeamento das comunidades presentes num novo local de instalação antes de começarem a operar? Quem chega primeiro? O pessoal de responsabilidade social ou de engenharia? Quantas vezes eles chegam juntos e, mais importante, sabem conversar sobre sustentabilidade?

Daí o título deste post. O desafio dos times de sustentabilidade é gigante, pois a cultura organizacional de mais de um século está estruturada sobre o pilar econômico. Pensar no ambiental e no social nesse contexto é uma questão de valores e esses mudam lentamente ou mudam empurrados por situações de crise.

Quando a crise chega… lá vem o pessoal de sustentabilidade. Mas aí está o paradoxo: os profissionais de sustentabilidade são chamados quando a situação já é insustentável e acabam, portanto, operando numa lógica de curto prazo que é contrária à essência do seu trabalho. Trata-se de um quadro difícil de reverter e que acaba afastando esses times do seu verdadeiro trabalho: preparatório, preventivo, de busca de harmonização da operação com as condições locais.

Como então mudar essa situação?

É  hora de pensar em redes de sustentação para a sustentabilidade, pensar em estratégias de rede que façam esse tema permear a organização de maneira mais capilar, influenciando a cultura e os valores dos colaboradores e gerando novos padrões de conversação sobre sustentabilidade.

Talvez seja também a hora de olhar para o time de sustentabilidade não como um grupo, mas uma rede que liga a organização com seu entorno de uma forma sistêmica. Essa parece ser também a conclusão de muitos CEOs, conforme mostra o relatório da UN.  Em um dos depoimentos citados, podemos ler uma declaração emblemática: “conforme nos movemos para a era da  Web 2.0, onde muitos stakeholders enunciam suas preocupações e se unem, nós precisamos nos engajar com eles.” Para muitos, a formação dessa rede pode ser uma questão de proteção de marca, ou algo inevitável, mas o potencial é muito maior: a formação de uma rede criativa e de transformação econômica e social.

Cada um e cada localidade sabe onde lhe “aperta o calo” da sustentabilidade e muitas vezes as soluções pré-moldadas ou definidas centralmente prescindem de uma escuta fundamental: a das vozes de quem já estava ali muito antes da empresa chegar. As comunidades são não só stakeholders fundamentais, mas fonte de preciosos conhecimentos.

Num país de dimensões continentais como o nosso, o desafio é manter vivas redes de sustentabilidade  que possibilitem não só a emergência de soluções locais, mas também a troca de conhecimentos em nível nacional. Articular esse tipo de rede exige uma espécie de Do in antropológico que ainda estamos estudando, testando e construindo. É a arte da intervenção mínima necessária para influenciar uma rede sem agredí-la, já que, no caso de redes sociais, sempre partimos de algo que já tinha vida antes que qualquer observador chegasse lá.

Outro ponto importante, é começar a olhar a inovação para a sustentabilidade como uma responsabilidade não de uma empresa isolada, mas de todas aquelas que operam numa mesma região, evitando, assim, a competição entre projetos sociais semelhantes e buscando uma coordenação dessas organizações em rede (sem necessidade da intermediação central ou do governo). Aí sim, quando as soluções são compartilhadas, otimizar recursos faz todo um novo sentido.

Como seria então uma arquitetura de redes sociais locais para a sustentabilidade? Como compartilhar soluções, já que os problemas, certamente, são compartilhados?

Vou continuar pensando. Vc está convidado a pensar comigo.

PS: recebi um presente do @futurescape, um artigo que indica fontes preciosas e menciona o caso da Tata Motors na Índia, que adota o princípio de Trusteeship  nascido em Gandhi. Infelizmente, trusteeship não tem boa tradução para o português, seria um depositário de confiança, um administrador-curador capaz de gerenciar eticamente os recursos. Vale a pena checar.

Ressonâncias imediatas do Sonha Grande São Paulo

Acabou o workshop do Sonha Grande São Paulo.

Super interessante estar com um grupo tão diverso: ONGs, fornecedores, funcionários da Natura, amigos nossos, amigos do Movimento Nossa São Paulo. Era um grupo grande e diverso que encontrava-se a cada momento com seus sonhos e também com sua visão crítica entrando no caminho do sonho, criando nuvens para visualizar outros possíveis. Não é possível viver em São Paulo sem ser um pouco enfezado (palavra feia, porém adequada numa cidade em que tantas coisas cheiram mal).

Para alguns, foi um grande desafio livrar-se de tantos dados e informações pra criar um espaço livre de criação e sonho. Os olhos azuis do Maurício olhando para o céu, os olhos orientais da Sandra sorrindo, cheios de energia, os olhos contestadores da Malu… nenhum olho fechado. Não havia tempo para piscar. Poucas vezes tive um grupo tão grande durante todo o tempo atento e desejoso.

Alguns precisavam ir e ficaram.Outros foram e lamentaram. A contribuição aconteceu não só pelo que disseram mas pela presença plena do desejo de cada um entre tantos outros desejos legítimos.

Conflitos, diferenças… sim, somos demasiadamente humanos, somos nós mesmos um projeto em revisão, mas o olhar voltava-se sempre a para a nossa cidade, pobre cidade dormitório onde tantos jogam seus detritos e de onde tantos tiram seu sustento.

Sonhamos uma cidade com bicicletas e estrelas, com sorrisos de crianças brincando na rua, um rio vivo e gentileza, muita gentileza!

“Quase nunca nos encontramos sem reclamar da cidade” – diz o Sérgio.

“Só se chegar um argentino a gente fala bem.” – brinca Ale com a porteña Felicitas.

“Menos velocidade, mais fluidez!” – sonha um grupo.

Como facilitadoras, um grande desafio: co-inspirar-nos, respirar, acolher posições distintas e, sempre que possível, ter a invisibilidade necessária para que a magia do grupo se manifeste. Olhamos nos olhos, nos abraçamos cansadas.

Foi muito intenso sonhar a cidade.

Independente de qualquer organização, da prefeitura ou da ONU, é algo que poderíamos fazer mais conosco mesmos, na nossa casa, na nossa rua (já que tantas lindas ruas desenhamos na nossa cidade sonhada).

Assim que der vou postar o slide show das potências da cidade. Adorei fazer e espero que gostem de assistir!

Obrigada a todos!

FIB, Sonha São Paulo e a possibilidade de imaginar novos mundos

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imagem de Tuca Vieira

Hoje é Blog Action Day. No mundo todo, os blogueiros escrevem sobre a questão climática. Tenho conversado sobre sustentabililidade, economia e novas perspectivas para a cidade de São Paulo com meus amigos e ouvi ideias bem interessantes que vou reunir neste post.

Que novos modos de pensar e conviver podem nos ajudar a mudar o mundo em que vivemos? Como podemos subverter, reverter e reformar o que vivemos do pequeno ao grande acontecimento?

Vou dar alguns exemplos muito variados que, espero, possam rechear de inspiração o seu dia. Eles vão da macroeconomia à micropolítica, então este post é uma espécie de mergulho que parte de uma visão aérea e vai até a modificação de coisas simples do dia-a-dia, pensando sempre na inovação e na construção de um mundo mais sustentável.

Começando pelo mais macro, acho importante mencionar a linda subversão do conceito de PIB, através da criação do FIB, indicador de Felicidade Interna Bruta. Nada tão novo. Esse movimento foi iniciado pelo rei do Butão Jigme Singye Wangchuk nos anos 80, quando ele criou um novo índice para apurar o sucesso da economia do seu país. O FIB trabalha com 9 dimensões inter-relacionadas:

Padrão de Vida, Boa Governança, Estado de Saúde, Educação, Diversidade Cultural, Resiliência Ecológica, Vitalidade Comunitária, Uso Equilibrado do Tempo Bem-estar Psicológico e Espiritual.

Fica evidente que vai surgir daí uma cesta de indicadores muito diferente daquela que compõe o PIB! Quem sabe nos ajudará a rever conceitos antigos de crescimento e progresso baseados no acúmulo e na exploração de recursos.

O movimento de elaboração e disseminação do FIB, que tem em Susan Andrews uma de suas maiores disseminadoras, pretende fornecer ferramentas para planejar um novo modo de investir e organizar as comunidades em que vivemos tendo em vista a interdependência fundamental que está tanto por trás do processo evolutivo no nosso planeta quanto das nossas mazelas. Somos um único sistema vivo.

Indo agora para um nível um pouco mais “micro”, temos a cidade, que é o lugar onde se manifestam todas as contradições do sistema sócio-econômico. São Paulo, pulsa, cheia de vida, mas é atravessada por um rio morto… é lugar de tantos encontros, mas também de tantas pessoas perdidas. Então como ser feliz na Cidade de São Paulo? O que é bem estar numa das maiores metrópoles do mundo? Com podemos, juntos, começar agora a construir o futuro que desejamos a partir dos grandes potenciais dessa cidade?

Conversávamos sobre isso com gestores da regional São Paulo Capital, da Natura. Eles refletiam sobre a complexidade de apoiar causas sócio-ambientais na cidade. O que selecionar? Em torno do quê as pessoas têm mais desejo de se mobilizar? Como a Natura poderia contribuir na busca de bem estar nesse ambiente?BANNER NATURA SONHA SP_2 hires

Decidimos então fazer uma Investigação apreciativa (IA) sobre o tema. Esse método nos ajudará a ouvir e conversar para compreender melhor os sonhos de cidade que estão na mente de colaboradores da empresa, stakeholders e cidadãos em geral.

Fazer renascer o Tietê? Plantar árvores frutíferas nas ruas? Escolas públicas de qualidade? Teleféricos para melhorar o trânsito?

Entre sonhos lúdicos e necessidades básicas, entre possibilidades delirantes e a linha amarela do metrô, vamos descobrir possibilidades e elaborar projetos.

Você pode participar dessa proposta inserindo o seu sonho no www.sonhasaopaulo.com.br e estimulando pessoas da sua rede a fazerem o mesmo. A partir do que será registrado ali, vamos fazer um estudo dos temas mais freqüentes e vamos ajudar a Natura a refletir sobre sua atuação na nossa cidade.

Finalmente, se você quer uma ação mais imediata, micropolítica e até autoral, aqui vão algumas inspirações. No blog do Desvio há um post super bacana sobre o conceito de Gambiarra: criatividade tática. Não, não se trata de fazer “um gato” na fiação elétrica, nem usar fita crepe para fazer a barra da calça (apesar de tudo isso fazer parte do espírito libertador do conceito). Trata-se de manter abertas possibilidades modificar, subverter e re-criar a realidade em que vivemos, de manter ativa uma criatividade tática que nos aproxima a cada instante da inovação e de nos mesmos, com nosso olhar único sobre o mundo e nossa potência de atuar.

Estar alerta, ativar nossas redes e ter consciência do que queremos sustentar no mundo é fundamental para vivermos no presente o futuro que desejamos.

Se você vai participar desse movimento fazendo uma modificação no seu ambiente de trabalho, realizando um grande projeto como o Sonha São Paulo ou procurando apurar o FIB de um país, não importa tanto. Importa sim que você reforce os fluxos de mudança nos quais acredita.

O sucesso passa a ser uma resultante de todos esses esforços coletivos e não de uma iniciativa em particular.

Veja este vídeo para se inspirar. Uma idéia criativa, uma gambiarra européia, um novo design para um mundo que já existe!

Biomimetismo: Não pise na grama sem perceber o que ela esconde

... ou deite e role para ver como ela funciona.

... ou deite e role para ver como ela funciona.

Um dos princípios mais utilizados para gerar idéias é a analogia. Dia desses, durante um projeto, recebi um telefonema de um participante. Ele me perguntou se seria interessante entender como a Igreja Universal consegue atrair tantos fiéis e fazer uma analogia com negócio deles.

A primeira resposta que me ocorreu estava relacionada à busca dos contextos nos quais nos inspiramos para gerar idéias e soluções. Isso porque, toda analogia carrega consigo uma dinâmica. A velha analogia do mundo como relógio, por exemplo, trazia consigo a inevitável dinâmica mecanicista. A analogia de trilhas de aprendizagem, tão utilizada em grandes universidades corporativas, também exige cuidado para não gerar uma visão de caminho pré-definido, onde cabe ao “caminhante” apenas “seguir a trilha”. Enfim, a analogia pode ser um ótimo trampolim para a geração de idéias, mas é preciso entender de onde ela vem e ter uma visão crítica.

Comentando esse tema com um amigo, recebi de presente o link do site Ask Nature. Trata-se de um banco de dados de soluções da natureza que pode ser consultado através da simples questão “how would nature…?” O site, gerido pelo Instituto de Biomimetismo, é fácil de navegar e memoriza as buscas que você vai fazendo ao longo de uma dada pesquisa.

Na busca de formas diferentes de realizar processos de seleção de projetos de inovação, por exemplo, descobri que existe um estudo interessante sobre como as abelhas “votam”. Suas táticas incluem, por exemplo, a apreciação da diversidade dentro do conjunto de possibilidades disponíveis antes de qualquer escolha. Interessante, não?

Nem toda a informação está lá, nem todos os documentos que o site menciona estão disponíveis para consulta porque muitos são papers científicos. Apesar disso, só a pesquisa já inspira.

Você já pensou, por exemplo, em pesquisar em que condições a grama vence as ervas daninhas? A estratégia da grama verde de Kentucky é construir conexões tão fortes que não deixam espaço para a estratégia solitária de determinados tipos de mato. Talvez uma inspiração para as redes sociais.

A natureza apresenta soluções que contemplam em sua dinâmica de funcionamento características muito desejáveis: a interdependência das partes, o funcionamento sistêmico e a co-evolução, entre outras. São inspirações para processos de gestão, design, arquitetura, tecnologia. Está na nossa cara!

Por isso, não pise na grama sem pensar em como ela funciona! Na própria natureza e, portanto, em nós mesmos há incríveis soluções para nossos dilemas.

A ponte e a menina (eu vi)

Há crianças vivendo sob a Ponte Estaiada e nessa imagem a cidade revela suas próprias mentiras. A menina atravessa a velocidade da faixa expressa, mas dos jardins do Hotel Morumbi ela não pode ser vista. Está escondida sob a imagem da ponte esvoaçante enquanto comemos manjar e tomamos café illy.

Não é possível ignorar: há algo terrivelmente errado.

(Por isso, talvez, a ponte esteja suspensa, assim como estamos nós quando passamos: sobre a ponte, sobre a menina.)

imagens da ponte feitas por brunna mancuso

Qual a sua visão da ponte? Estas são de Brunna Mancuso

O que queremos sustentar?

Humberto Maturana, em uma de suas vidas, há muito tempo atrás.Meu avô tem 84 anos e me fez uma pergunta para tentar justificar a “sensação de fim da vida” em que diz se encontrar. “Você conhece alguém com 84 anos que está começando alguma coisa na vida?”

Conheço sim: Humberto Maturana. Estive na palestra desse incrível senhor e sua companheira de reflexões Ximena D´Ávila promovida pelo Banco Real, Natura e FIEP em São Paulo no dia 18 de junho e a sensação é de estar diante de um novo projeto.

A fala deles a princípio parece complicada de acessar, mas estando diante deles (e não somente de suas idéias num livro) fica claro o porquê.

Como não usar uma nova linguagem para falar de um mundo onde as pessoas vivem a partir da consciência profunda de sua integração com todos os seres vivos e toda a biosfera? Como não buscar um caminho de estranhamento quando se propõe que viver a ética em cada uma de nossas relações é o único caminho sustentável?

Entramos então na “viagem de um novo linguagear” que reflete “novas coordenações dos nossos fazeres no viver”. Trata-se de um convite a um “cambio de mirada”, um outro olhar que leve a um outro viver (mais leve?). Trata-se de um lugar onde o compromisso ético básico é extremamente simples: tu tens presença para mim e eu te escuto. Eu te escuto não porque sei que você pode me entregar algo, mas porque vivemos juntos o hoje.

O mundo que desejamos se constrói a partir desse viver presente durante o qual podemos nos questionar: O que queremos conservar? O que queremos criar com nosso viver? O que queremos sustentar?

Quando ouvi esta última questão fiquei surpresa com sua obviedade e  com o estranhamento que me provocou. “Como não pensei nisso antes? Por que não me fiz essa pergunta?”

Tantas vezes nos perguntamos se algo é sustentável e poucas vezes nos perguntamos o que queremos sustentar em nossas relações, nosso entorno, nas redes das quais participamos. A sustentabilidade não trata de “conservar o humano de qualquer maneira”, não trata de sustentar no tempo uma organização sem considerar que tipo de fazer ela reproduz ou sustenta entre as pessoas que dela fazem parte e na sua rede de relações. Trata-se de entender o que queremos sustentar dentro de cada uma das instâncias sociais das quais participamos, começando pelas mais simples, o encontro um a um. Dizem eles: “O tema não é sustentar algo, mas um certo tipo de fazer e de convivência” que começa com aquele princípio simples: tu tens presença para mim e eu te escuto.

E se há algo que você não deseja sustentar, há sempre a lei dos dois pés, inventada pelos criadores do Open Space: pegue seus dois pés e siga para outro local.

Se você achou essa conversa toda muito existencial, pense também no seguinte: quão inovador pode ser um pensamento que se guia pela questão que está no título?  Quantas vezes não inovamos porque simplesmente já não enxergamos como se dão as relações que nos cercamr? Será que você, como os peixes, não enxerga mais a água onde vive?

Life Incorporated

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Sugiro seguio o link do vídeo de lançamento do Life Incorporated (Life Inc: How the world became a corporation and how to take it back), livro do jornalista e documentarista (para simplificar a biografia) Douglas Rushkoff. No mesmo site a trechos para leitura.

Acredito que a colocação de Rushkoff sobre como assumimos o modo de vida corporativo é fundamental para entendermos o momento atual em que o consumismo e todo um estilo de vida que valoriza o ter acima do compartilhar está em crise. Ter gera consumo, consumo gera renda, renda gera mais consumo, certo? Não, nem sempre está certo.

Também as organizações estão buscando uma revisão dos seus modos de operar, mas isso não é assim tão simples. Como o autor consegue mostrar neste pequeno trailler do livro, todo o sistema econômico está calcado em valores que começaram a ganhar espaço especialmente depois do pós guerra, quando a sociedade americana passou a ser o “motor” do mundo.

Hoje sabemos que esse estilo de vida é inviável do ponto de vista planetário, seja por motivos ecológicos, seja porque semeia um modo de vida que nos isola e nos torna menos solidários socialmente. Dentro das organizações, essa mesma crise se manifesta na medida em que as pessoas se questionam o que estão fazendo ali e por que, ou quais valores estão por trás das ações das empresas nas quais trabalham. Não custa lembrar do excelente documentário “The Corporation”, lançado já faz uns dois anos. Ele mostra casos temerários de organizações que deixaram a ética para trás na hora de definir seus rumos e mostra como elas seriam consideradas psicologicamente insanas perante a justiça se julgadas com os mesmo critérios aplicados a uma pessoa física.

Quem sabe chegou a ora de transformar o sistema a partir de dentro? Seria possível que as pessoas mudassem seu modo de vida a partir das mudanças ocorridas nas organizações? Seria possível que ambientes corporativos mais colaborativos e éticos ajudassem a fomentar o tipo de revisão que a nossa sociedade tanto necessita? Como contestar um modo de vida que está em todos nós?

Talvez um sonho, mas se não começarmos com ele… Dizem que para quem não sabe para onde vai, todo caminho serve.