conversações

Redes para a Sustentabilidade: 3 reflexões e 4 aprendizados práticos

Queridos amigos,

Escrevo para dizer que não consegui as passagens para o Rio.

Sei que contavam com isso, assim como eu, mas o barco não chegou.

Fiquei no porto, esperando, com uns poucos companheiros cheios de esperança.

Tomei chuva, tomei sol e, mesmo sem querer, volto ao cais todos os dias na esperança de ver chegar aquele barco onde parecíamos caber todos.

Estou cansada, na verdade. Só fico se vocês vierem procurar carona comigo.

(Por via das dúvidas, tragam suas varas. A gente pode, no mínimo, pescar).

Beijos a todos.

Lu

Assim de certa forma me despeço de mais uma tentativa de “colocar no ar” uma iniciativa na área de sustentabilidade.

Sempre fui ligada ao tema, mas acabei sempre atuando no setor privado onde, se não há pagamento, não há negócio. O máximo que acontece é uma proposta, que depois a gente joga fora ou recicla.

Mas com projetos de sustentabilidade é diferente. As pessoas se apaixonam. Somos ávidos por sentido nesse mundo em que existe sempre um cartão para comprar “todas as outras coisas”. A rede de pessoas envolvidas com esse tema é cheia de energia emocional e engajamento. Nem os mais céticos escapam, nem sequer Henneke, da Holanda, com seus lindos olhos verdes que no Festival de Aprendizagem da Reos Partners, me mostrou sua cara mais triste ao descrever a situação é objeto deste post.

Eis o assunto:

O dinheiro alimenta a rede ou a rede, quando suficientemente forte, gera recursos para si?

Por uma questão lógica, vamos investigar primeiro a segunda hipótese. Se uma rede forte gera recursos, os modelos de crowdfunding, por exemplo, são de fato o futuro e as moedas sociais vão florescer e se tornar cada vez mais relevantes do ponto de vista econômico. Aprenderemos a gerar valor de outras formas e a unir pequenos pedaços para viabilizar grandes iniciativas. É um caminho no qual apostamos coletivamente.

Entretanto, no último ano e meio, vivi situações que contradizem essa hipótese e mostram que, sim, a um dado ponto a rede precisa de dinheiro. Ele ainda é o nosso equivalente universal de valor e precisamos dessa validação.

A primeira situação era um projeto na área de agricultura ao qual me dediquei por alguns meses. Sucumbiu sob trâmites políticos globais de ONGs e Universidades. A rede que foi mobilizada em torno do projeto persiste. Houve encontros poderosos e algumas relações já existiam antes do projeto ganhar nome, mas o fato é que, sem recursos, a rede entrou em latência. Foi frustrante: não fui remunerada e não consegui dar visibilidade à rede. Mas conheci pessoas incríveis, fiz novos amigos, “emoções eu vivi”.

A segunda situação está sendo infinitamente mais difícil do que a primeira. Quando entrei na sala para conhecer as pessoas que haviam sido convidadas para criar o projeto, fiquei sinceramente emocionada. Era “a sala dos superpoderes”, como disse um dos participantes do encontro. Mas era começo de férias e o projeto precisava ser criado, precisava de guardiões que agüentassem férias escolares, chuva e sol escaldante.

Fomos três voluntários a aceitar.

Coloquei toda energia que pude.

Não aconteceu.

Muitos fatores podem ter levado a isso, portanto registro aqui alguns aprendizados, casando reflexões minhas com aprendizados que coletei durante o Festival de Aprendizagem da Reos.

  1. Não há rede se a diversidade de vozes não é ouvida. Mesmo as mais duras, as que duvidam e temem, e talvez essas principalmente, precisam ser ouvidas. É preciso que o poder se expresse, como diria Kahane, e quem tem mais poder precisa se posicionar. Se você faz parte do nascimento de uma rede sobre a qual tem dúvidas, saia da sala, fale agora, mas não se cale para sempre. Esse é o pacto primeiro. Nenhum método de diálogo serve verdadeiramente a um grupo se não der espaço para as vozes mais difíceis de escutar. Diversidade também é isso.
  2. As redes precisam, SIM, de recursos. O dinheiro é uma energia fundamental que valida nossas iniciativas, ainda que dinheiro não seja igual a valor. Não acredito mais na teoria que Brafman e Beckstrom apresentam em The Starfish and the Spider, de que o dinheiro pode matar uma rede. Todo mundo precisa comer, no final do dia.
  3. A rede não morre por causa de dinheiro. Se a rede existe mesmo, ela persiste nas relações que duram, e no olho no olho. O projeto de agricultura está renascendo das cinzas e eu, como seria de se esperar, pude chorar a falta de patrocínio do segundo projeto ao lado de outro “superpoderoso” da nossa rede. Ele, veterano, me olhou com olhos de “eu sabia”, apesar de ter colocado sua própria reputação “na reta”. Obrigada, E. R., foi muito bom te reencontrar!

Algumas outras coisas não são aprendizados, mas hipóteses:

  1. Os projetos que mais mobilizam a rede vão persistir e achar um caminho de geração de valor. Vejo isso nos e-mails que estão circulando. A rede é maleável: as pessoas mudam, a idéia persiste. Obrigada Telma.
  2. Potenciais patrocinadores ainda não sabem o que é investir numa rede. Há um timing, há um ritmo necessário, porque a rede é atravessada pelas histórias de vida de pessoas que se encontraram naquele momento preciso, por sorte ou por acaso. Nesses encontros se revelam processos históricos e orgânicos  que escapam à lógica do setor privado. Rede se paga com rede, apoio com apoio.
  3. Assimetrias de poder e disponibilidade de energia precisam ser consideradas. Quem pode mais num determinado momento, apoia mais. A rede se baseia na confiança de que haverá resultados para todos os que geraram de fato o resultado, seja ele sucesso ou fracasso. No mundo da reputação, quem faz leva, no bom e no mal sentido.
  4. Precisamos construir uma linguagem comum, algo que permita conversações entre o setor privado, o setor público e o terceiro setor. Essa foi uma conversa recorrente no Festival de Aprendizagem da Reos. Construir essa linguagem talvez seja uma das grandes tarefas que temos pela frente. Quem sabe a conversação, afinal, não vai abrir espaço para fluírem idéias, relações e, até, dinheiro?

Bom, amigos, é isso. Pelo menos a gente aprende e compartilha. Essa é a energia que eu posso oferecer agora.

Não deu pra mais (ainda).

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2º Sarau de idéias: PKM, emoção e intuição

Terça-feira passada tivemos o segundo Sarau de idéias, com a presença do @lucianopalma e do @fmorais (Fabiano Morais), que entrou via Skype e de pessoas queridas entrando via Twitcam. O tema era PKM, que significa Personal Knowledge Management, ou Gestão Pessoal do Conhecimento. Segundo Harold Jarche, ela “consiste em métodos práticos para buscar sentido nos fluxos crescentes de informação que nos cercam.”

Começamos lembrando Pierre Levy e trazendo uma frase dele: “ somos processadores individuais de um potente processador social”. Imediatamente, Barbara Dieu (@bdieu) saltou da cadeira com uma pergunta bem relevante: “E onde fica a afetividade? Será que podemos usar uma metáfora como essa, onde todos somos parte de uma grande máquina?”

É interessante retomar a visão de Levy, até para lhe fazer justiça. Ele coloca que a humanidade ganhou alguns “presentes” cognitivos. O primeiro é a capacidade de fazer perguntas, que nos dá a possibilidade de assumir um papel de observadores de nós mesmos, questionando o que nos acontece. O segundo é o diálogo, através do qual podemos criar representações do processo cognitivo do outro e nos colocarmos no lugar dele, criando reciprocidade. O terceiro é a capacidade de contar histórias, passando adiante experiências impregnadas da vivência singular de cada um. A afetividade é parte fundamental desses três “presentes”. No Sarau, todos concordaram: PKM é um processo impregnado de afetividade.

Podemos ver no modelo proposto por Levy que as conversações, têm um papel central na construção desse “processador social”. Nelas, também colocamos nossa carga afetiva. Mesmo nas decisões ou ações ditas “racionais”, sabemos hoje que as emoções são fundamentais. O livro O Erro de Descartes é um dos mais populares a defender essa idéia. Nele Antonio Damasio propõe o conceito de emoções primárias e secundárias. As emoções primárias são controladas pelo sistema límbico, mais primitivo, que abriga disposições inatas a estímulos. Seriam emoções mais instintivas. Já as emoções secundárias envolvem categorizações de representações de estímulos associadas a respostas passadas que foram avaliadas como boas ou ruins. Então PKM é um tema que diz respeito não só a como nos organizamos e geramos conhecimento, mas ao nosso emocionar diante do mundo, das conversações e das vivências que vamos acumulando.

Fabiano Morais propôs conversarmos a partir do processo de PKM proposto por Levy, e com essa base nossa conversa fluiu.

O processo começa já com um grande desafio: a gestão da atenção. Ela está relacionada à habilidade de definir interesses e prioridades, manter o foco e ter sempre em mente o grande quadro daquilo que se quer produzir. Nesse início de processo é preciso ter em mente conhecimentos adquiridos e desejados. Veio à tona então a questão da busca de sentido no trabalho. A gestão da atenção costuma ser fácil quando estamos engajados afetivamente numa tarefa com um sentido maior.

Bárbara Dieu contribuiu com uma pesquisa recentemente publicada que joga mais luz sobre esta questão. O Idea Execution Audit procura investigar quanto as pessoas conseguem executar seus projetos e o que as afasta de conseguir essa “façanha”. Um dos dados interessantes é o fato dos e-mails serem um dos maiores fatores de distração. Esse fato foi apontado durante o nosso encontro. Alguns de nós, inclusive, evitam sistemas de alerta de e-mails e twitter por essa razão.

A segunda etapa proposta por Levy é a conexão com fluxos valiosos. Considerando que a conectividade crescente faz com que os fluxos sejam cada vez indomáveis, podemos dizer que o processo de PKM começa com a busca de um delicado equilíbrio. Ao mesmo tempo em que gerimos nossa atenção, precisamos estar conectados aos fluxos que, sim, podem nos “invadir”.

No Sarau, isso nos levou a uma discussão muito interessante sobre a sincronicidade. Vários de nós já tinham enfrentado a situação de entrar no twitter, no facebook ou em outra rede social exatamente no momento em que era postada a informação de que precisávamos. Assim como nos encontros presenciais, em que por vezes um amigo tem exatamente o contato de alguém que devemos encontrar, a conexão virtual com um certo fluxo positivo de encontros nos leva onde queremos chegar. Então talvez haja um grande componente intuitivo no processo de PKM.

Mas, voltemos aos passos de Levy e ali estamos coletando, categorizando fluxos de dados e gravando ma memória de longo prazo.

Bom, nesse instante voltamos nossa atenção para o tema das ferramentas.

“Ah, eu adoro ferramentas”, diz Fabiano. Unanimidade na sala. Ferramentas são um enorme apoio, mas o desafio é criar um ambiente pessoal de aprendizagem compondo todas elas. Na pesquisa indicada pela Bárbara, por exemplo, fica claro que muita gente ainda usa o velho e bom caderno. A gestão pessoal do conhecimento é, assim, uma colagem criativa de ferramentas, anotações e encontros on line e off line. É um mashup muito pessoal.

Usar o Zotero, para organizar, tagear e acessar arquivos, ou o Mindomo para mapear o que estamos pesquisando, usar o pomodoro para fazer a gestão da atenção… ferramentas são uma paixão fácil, ao compartilhá-las, experimentamos um clima divertido de colecionador de carros ou de troca de figurinhas. São brinquedos cognitivos contemporâneos.

Passamos então para as fases finais do ciclo: síntese, compartilhamento e comunicação. Alguém questiona: a síntese é algo pessoal ou está no “entre”? A wikipedia, por exemplo, contém sínteses, mas não é um ambiente que podemos chamar de pessoal.

Então surge uma idéia interessante: o mais importante é a síntese pessoal colocada em fluxo para gerar novas sínteses coletivas e ser modificada no grande processador pessoal que Levy menciona.

“Estamos numa época de intérpretes e não de compositores”, diz Fabiano. A síntese é um momento de expressão de uma dada singularidade, mas é o compartilhamento que amplifica esse olhar e possibilita a interpretação, jogando o conhecimento num processo complexo e criativo de transformação. Isso acontece na web, mas acontece especialmente nas conversações e nos bons encontros.

Fechamos refletindo sobre por que a gestão da atenção é um tema tão importante hoje. Fabiano trouxe, então, seu conceito de nowmadismo. Num mundo em crise, em que acontecem mudanças tão fortes na agenda coletiva e onde emerge um senso de urgência gigantesco, o agora (now) “engorda” e o futuro “emagrece”. “A gente não vai chegar a lugar algum se não viver o agora com qualidade” e, para isso, o PKM é essencial, ele nos ajuda a concretizar a contribuição singular de cada um, ele nos ajuda a construir, aqui, agora e com a nossa rede, essa nau para o futuro.

Semana que vem trem mais! A programação está no site da Dobra. Sejam bem vindos!

Post de avião: primeiras ressonâncias da #CICI2011

Vivemos em rede e isso nos persegue para além de todos os relógios e ruas impermeáveis. Estamos conectados, acessíveis, ativos. Tudo é possível.

A comunicação vai criando frestas em antigas estruturas. Um prefeito que ouve os cidadãos via twitter, uma carta mágica que une cidades educadoras, a tradução perfeita para o insight quando Tião Rocha fala que é clarão!

Encontros. Esse é o maior efeito de estar na #cici2011. Jovens ativistas com a assertividade da geração Y temperada por uma esperança vertiginosa no encontro de @webcidadania. Tecnólogos cuja mente acelera a 1000 por hora diante de possibilidades infinitas. “Nunca me desconecto, diz @fe_cabralis ”.

Florestas digitais sendo plantadas no Acre por pessoas como @andreazilio, um maranhense balançando o cartão de Christakis com o logo de Harvard. “O Brasil precisa conhecer o Brasil.”

Gil Giardelli soltando seu mantra-trem-bala-digital sobre a platéia boquiaberta. Rose Vianna dando um beijo em Fritjof Capra.

Ligação direta do virtual com o real. É o que acontece ali, onde @migos se tornam amigos (ou não).

Transformar o bairro em um país e o país em um game, no jogo de @cacaug (Guarnieri) e @Augustodefranco. (Já que vamos ficar vidrados no celular, que ele nos lembre sempre do jogo da vida).

A sabedoria de Jaime Lerner falando para a platéia como se fosse num bar. A gentileza de Fritjof Capra ofuscando a dureza de Rifkin. Nicholas Christakis dobrando-se em riso diante da platéia lotada. Estamos num Brasil mítico, onde o mundo imagina que tudo é possível.

O Open Space com @Jerry Michalski, o homem de cérebro aberto. O encontro com @fmorais e @renatalemos, casal que se formou ali mesmo, do virtual para o real, no ano passado.

A E_R experimentando com pessoas de verdade no Mini-Curso sobre Redes, muito além de uma sequência de comentários no Ning. Os mais novos da escola, como o Rafael Reinehr,  mostrando cara e coragem no like a TED. Conteúdo maior do que a forma. Dos mais velhos, fazendo falta figuras como @lalgarra e @luizdecampos.

A CICI é uma pequena saga pelas iniciativas de reinvenção do mundo. O tempo se acelera: esse ano foi mais de 365 dias melhor do que o ano passado. Era difícil escolher.

Twitter streams intermináveis.

@ETC s por todo o Brasil.

Efeitos reverberando ainda agora.

Ano que vem: de novo.

O que eu entendi do que o Dalton disse

Toda vez que entro na escola onde faço Dança, me deparo com um cartaz que diz “O que eu entendi do que o Tom Zé disse”. É o título de uma peça de teatro que aconteceu em 2005.cartaz de Thiago Ventura

Sempre fui fascinada pela figura de Tom Zé, acho que ele representa algo incrível na nossa música, é ao mesmo tempo um gênio e um incompreendido. Quase desistiu da carreira para trabalhar no posto de gasolina de um primo e foi resgatado por David Byrne, já a caminho da “bomba”. Tom Zé descobriu novas ferramentas de fazer música, misturou tantas outras, criou e cria sem pudor de fazer misturas.

Mas estou falando dele por quê? Bom, hoje tive uma conversa com o Dalton Martins, estudioso das redes sociais, figura de pausas lentas e grandes reflexões. Quando cheguei em casa imaginei esse mesmo cartaz dizendo “O que eu entendí do que o Dalton disse”. Não, o meu amigo não vai trabalhar num posto de gasolina, ele vai muito bem obrigado, mas estávamos conversando sobre novas ferramentas de pensar. Conversávamos sobre a gestão da co-criação de redes ou a co-criação da gestão de redes.

Extrativismo x poética

Acontecem algumas coisas curiosas hoje em dia com o tema das redes. Existe uma visão “extrativista”, que procura verificar como tirar o máximo das redes (e portanto dá relevância para a contagem do número de hits, acessos, tempo de acesso, etc) e existe uma visão mais poética, que observa a emergência de um novo jeito (mais livre e descentralizado) de ser humano. Claro, existem “n” outras visões e combinações de visões, mas essas duas estão em pólos opostos do espectro do entendimento de redes.

Quando se fala de inovação aberta, por exemplo, muitos se perguntam “como a rede pode fazer a minha empresa ser mais inovadora?” e poucos se perguntam “o que está emergindo na rede da qual a minha empresa faz parte e qual o papel que queremos ter nisso?”

A questão é: vender a primeira visão é muito mas fácil do que vender a segunda e a venda injeta dinheiro e energia na rede, viabiliza reflexões, viabiliza a criação do novo. Se o Tom Zé tivesse virado frentista, caros amigos, todos teríamos perdido. Então como vender essa poética tantas vezes incompreensível e fazer projetos que partam desse princípio?

Governança de redes

Não existe um modelo de governança de redes que funcione a priori. As redes são multiformes, complexas, contextuais e, para piorar, podem ser analisadas de várias maneiras.

Podemos olhar a configuração estrutural de uma rede, podemos observar sua dinâmica ou podemos analisar sua semântica (ou seja a estrutura das conversas que acontecem nela). Podemos também combinar essas diversas visões e análises, entrando então num campo exploratório onde talvez só Hans Staden tenha se aventurado. O analista de redes pode ser um Deus ou ser comido pelos canibais, como é o caso de alguns amigos que têm sido os mensageiros de más notícias que as análises de redes trazem para seus clientes.

Mas a questão não é só visualizar, a questão está em compreender se é ou não possível (ou como é possível) articular, modelar e gerir redes. A questão está na governança.

Há algum tempo, eu disse para uma cliente que o termo “gestão de redes” talvez não fizesse sentido. Depois de refletirmos juntas, ficamos realmente intrigadas com essa questão sem resposta.

Em relação a isso, “O que eu entendi do que o Dalton disse” (e o que eu disse a partir do que ele disse), é que sim, é possível construir uma governança de redes, embora usar o termo gestão talvez seja inadequado.

Por que não gestão de redes?

Basicamente porque o termo gestão vem atrelado a uma série de ferramentas e modelos que não se aplicam às redes. Se vamos, por exemplo, fazer a gestão da aprendizagem em rede de um grupo, o que vamos utilizar? Modelos de gestão de projetos? ROI?

Parece-me que as ferramentas estão por  inventar e talvez não possam ser reduzidas a um modelo ou uma fórmula.

Se por um lado não há modelo, por outro há um grande espaço para a modelagem. E qual é a diferença? O modelo é estático, a modelagem acompanha o desenrolar dos acontecimentos, ela torna possível orientar o processo, estabelecer um modo de governança e, sobretudo, estruturar grupos de diálogo que possam articular e ajudar a fazer a governança da própria rede.

Existem muitos modos de estabelecer o funcionamento desses grupos. Eu assistia os desenhos do Dalton se formarem sobre a toalha de mesa do restaurante: círculos, flechas, grandes aros. Hoje há toda uma tecnologia de conversações que, combinada às tecnologias de análise de redes, pode ser extremamente poderosa. Para quem? Para ampliar o poder da própria rede  para realizar seus objetivos.

A rede não está a serviço de nenhum gestor, por isso também o termo “gestão de redes”, que carrega uma certa centralização, parece um contrasenso.

Mas o poder disseminado parece indomável, é temeroso, não pode ser capturado. Nesse caso, entretanto, a realidade é mais simples do que a ficção. Quando há o auto-engajamento, o poder disseminado é extremamente criativo e pode, sim, ser observado e moderado! A rede recebe propostas, deseja ajudas e pode gerar energia para colaborar em propostas desde que seu poder seja respeitado. A rede aprende.

Como medir a aprendizagem social?

Essa é uma pergunta que não quer calar. Como sempre, os americanos do norte saem na frente para discutir o assunto.

Faço parte de uma rede de intercâmbio de conhecimentos sobre aprendizagem social a convite de um amigo canadense. Nessa rede, muitos profissionais da área de treinamento trocam informações sobre como “vendem” e fazem a gestão das iniciativas de aprendizagem social que estão liderando em diversos tipos de organizações, de escolas a grandes empresas.

Como vender e medir muitas vezes são assuntos atrelados no mundo das organizações, há um caminho muito simples e lúcido que propõe o seguinte: acompanhar o desempenho de quem aprende socialmente para realizar suas tarefas, pois a aprendizagem social, em última instância, é dirigida pelo indivíduo que busca maior facilidade para realizar suas tarefas em busca de melhor performance. Este é o caminho defendido (sempre em beta) pela Internet Time Alliance, por exemplo.

Bom, é uma visão bem pragmática (é o que diria Dalton, acho). Mas hoje falávamos de um outro ponto, falávamos da beleza de observar uma rede conforme ela se desenvolve, tirar fotos e mais fotos, observar imagens, coletar números e perceber a dinâmica da sua configuração. É como acompanhar o desenvolvimento de um jardim, muito mais do que medir a altura das árvores.

Existe uma ecologia nas redes. Quando se fala em formar redes, o processo também é o resultado e o recorte estático no tempo pouco diz do caminho percorrido. Ao ser fotografada, a rede já se modificou, as árvores já cresceram. Ela é contextual, dinâmica e inquieta, passa por momentos de diversificação e momentos de condensação, só pode ser entendida a partir da compreensão das conversações que nela acontecem e de como as pessoas se juntam e se separam em torno dessas conversações. Certamente o Google Analytics não vai oferecer essa informação a ninguém.

Então “o que eu entendi do que o Tom Zé disse” é que vale a pena buscar novas ferramentas de pensar, de fazer música, de fazer teatro. Talvez a gente tenha que misturar muitos instrumentos e tonalidades diferentes pra não virar frentista.

Metadesign e Inovação

Quarta passada tivemos mais uma conversa interessante aqui no JuntoSP. Era para ser uma conversa sobre Metadesign, mas o tema da Inovação parece mesmo ser o que deixa os corações e as mentes intranquilos. Todo mundo quer entender.

Nossos convidados foram o Caio Vassão e o Luiz Algarra, além de executivos, profissionais de comunicação e design, parceiros da Dobra, enfim, uma mistura bem interessante.

De onde vem o termo meta?

Segundo Vassão, o primeiro termo com esse prefixo foi a Metafísica. Diz a lenda que foi uma forma de classificar os livros da filosófia primeira de Aristóteles, que não tinham nome. Como ficavam após (meta) os livros de Física, foi criado o termo metafísica. Mas a palavra metafísica tem decorrências importantes. Ela remete à questão da ontologia, ou seja, das próprias categorias de pensamento que utilizamos para refletir sobre algo. Trata também da possibilidade de adotarmos a posição do observadores de nossas próprias vidas: uma meta-posição.

Para mim, a pergunta de Maturana, “como fazemos o que fazemos?” é a grande e poderosa meta-pergunta. Podemos nos perguntar sobre como fazemos a física, como trabalhamos ou como fazemos o design dos espaços que habitamos. “O Metadesign é o projeto do próprio desenho de projeto”, diz Caio.

Ele deu então o exemplo do programa metafont (ou tex), um sistema de editoração para programar fontes. Quem programou o sistema que programa fontes, é o metadesigner.

Tentando fazer uma imagem, é como se a vida tivesse layers e fôssemos subindo e subindo para níveis cada vez mais altos para observar o que fazemos. Esses layers, coloca Caio, são os níveis de abstração. Ser um metadesigner é se colocar num nível mais alto de abstração.

Metadesign e sistemas complexos

Quando nos deparamos com sistemas complexos, como uma organização ou uma comunidade, por exemplo, não é possível criar um projeto fechado. O sistema está o tempo todo mudando e se adaptando. O metadesign cria então um ambiente de decisões composto de algumas diretrizes básicas, critérios e regras que facilitam a vida de quem atua dentro do sistema. Não são parâmetros de controle, mas operadores para atuar no sistema que são validados ou não mediante o uso.

O princípio por trás disso é: elementos simples podem gerar o complexo ou, revertendo o raciocínio, é possível encontrar elementos simples que ajudem a operar num sistema complexo. O metadesign procura identificar esses elementos simples, criando o que Pierce denomina sistema categórico oportuno.

Critérios compatilhados para operar num sistema complexo: é mais fácil dizer do que conseguir, mas eles podem ajudar a responder positivamente a pergunta: é possível projetar a complexidade?

Algarra então apontou uma distinção fundamental: o que nos torna humanos é o fato de conversarmos sobre esses critérios, ou ontologias. Esse é um dos fundamentos do conceito de Inteligência coletiva, que nasce em Bateson (Steps to na Ecology of Mind).

Parece duro, “cabeçudo”, ultra-reflexivo, mas então foi trazido um conceito interessante para alimentar a discussão: o de homo ludens. De acordo com esse conceito, a base da cultura é a brincadeira. O que nos torna humanos, então, é a nossa capacidade de brincar com ontologias e conceitos, ou seja, brincar com o desenho de como queremos viver o que vivemos. Essa me parece uma idéia preciosa: brincar é uma capacidade talvez esquecida, mas fundamental, pois nos leva e rever, combinar e gerar conceitos de forma criativa. Vivemos o que somos capazes de enxergar, ou o que somos capazes de conversar. Brincar com conceitos que fundamentam o nosso viver enquanto conversamos seria metadesign.

Foi a partir daí que começamos a falar de inovação.

O que é inovação afinal?

Algarra constrói a partir de Maturana: a inovação surge para conservar algo que queremos conservar. Queremos conservar um modo de vida, a possibilidade de ter energia acessível, a possibilidade de lidar com recursos escassos e mesmo assim ter conforto, queremos conservar os negócios de uma organização. É a partir daí que tudo se articula.

Vassão sugere: inovar é manipular ontologias. Podemos fazer isso top down, a partir de categorias pré definidas, ou bottom up, ao observarmos os acontecimentos e criarmos ontologias a partir dessa observação. Para Caio, esse segundo caminho é muito mais inovador.

Inovação seria então “afrontar as fronteiras cognitivas da realidade que construímos”. Twittei a fala do Caio. Paulo Ganns( @pganns sugere:) “Romper no lugar de “afrontar”?”. Bom, talvez inovar seja “dissolver as fronteiras cognitivas da realidade que construímos.”

Mas por que inovar?  De onde vem esse desejo?

Novamente voltamos ao ponto do encontro anterior: o porquê da inovação.

Foram abordadas então duas visões sobre a origem da nossa motivação para a ação: a reação (motivação negativa gerada por uma percepção de erro) ou afeição (segundo Deleuze, é o afeto que nos move). Quem trabalha com inovação sabe muito bem que existe uma grande diferença entre essas duas motivações!

Inovar em reação não é a mesma coisa que inovar em busca de um caminho indicado pelo afeto e pelo desejo. É muito mais difícil gerar inovação radical a partir do primeiro caminho, quando a decadência de algo já é eminente mas, sim, há muitos que se movem somente diante desse tipo de situação. Estamos dentro da caixa.

Alguém diz então: vivemos uma situação de alienação, de falta de consciência de onde estamos, fica difícil estar conectado aos próprios afetos quando se está nesse lugar.

Pensar fora da caixa? Qual caixa?

A caixa seria essa ontologia, essas categorias de pensamento que nos habitam sem que tenhamos consciência e condicionam o que somos capazes de enxergar. Uma conversa de metadesign abre essas caixas e essas categorias para refletir e brincar com elas. Como diria Maturana: eu quero conservar esse modo de pensar?

A inovação é sempre uma coisa boa?

Entramos então numa conversa sobre o binômio inovação e ética e voltamos ao começo para pensar a inovação num sistema complexo (as comunidades em que vivemos).

Num contexto complexo, uma inovação desencadeia uma série de reações sistêmicas. Vassão contou o caso do pocket car, projeto do qual participa. Pensar um novo tipo de carro significa repensar toda a cadeia produtiva do carro. Se o motor for ultra-simplificado, o que acontecerá com os empregos dos metalúrgicos que fazem motores? Se os carros forem compartilhados, o que acontecerá com as companhias de seguro?

Parece-me que essa idéia é muito  interessante: a inovação começa, na verdade, depois que um novo produto ou ação é lançado. Ela se multiplicará nas ações que teremos que realizar para lidar com as conseqüências sistêmicas do que lançamos.

Como surgem inovações na cultura?

A inovação se propaga através de novos conceitos que vão penetrando e se disseminando numa dada cultura. Pode ser um novo produto, mas pode ser simplesmente um conceito novo com que começamos a operar.

Alguém pergunta: vem de uma nova necessidade? Ou nós geramos novas necessidades?

Quem precisava do celular antes dele existir? A necessidade parece ser mais uma conseqüência. A inovação surge, acostumamo-nos ao que ela nos oferece e então a necessidade de consolida.

Mas não é necessário que a inovação seja um novo produto. Ela pode ser simplesmente um conceito, um novo modo de viver. (O termo “ficar”, por exemplo, foi criado há menos de 20 anos para denominar, enfim… relações mais instantâneas)

Esses conceitos facilmente replicáveis que vão alterando nosso viver são as memes.

A inovação é, então, um agenciamento de possibilidades. Se você não entendeu, não se preocupe, se ficou curioso, leia um pouco de Deleuze, mas é mais ou menos assim: as possibilidades são vetores que estão disponíveis, alguém ou algo encontra uma intersecção ou uma combinação nova entre essas possibilidades e, voilá, eis a inovação. (Oferta, já existia, comparação já existia pelo menosdesde as fiscais do Sarney, web veio a existir. Oferta+comparação+web=Buscapé).

Estou simplificando, mas vale, pois nos remete à importância de estarmos atentos aos acontecimentos que emergem à nossa volta sem categorizá-los a priori, permitindo-nos pensar em novas ontologias.

A inovação é experimental, diz Vassão.

Sim, vivemos em Beta.

Mariana Gogswell, outra colega por aqui coloca: Como desenvolver os recursos emocionais para viver assim?

Boa pergunta!

Inovação aberta, Aprendizagem e Redes Sociais

Muitos acontecimentos nas últimas semanas. A Sociedade em Rede e a Educação, seminário promovido pela Vivo, a conversa no auditório da FGV dia 20, com Jay Cross, Paul Pangaro e Ignácio Munhoz, o encontro de Open Innovation com a Procter&Gamble, promovido por Stefann Lindegaard e pela Terraforum.

Como sempre, aqui vão alguns dos aspectos que me chamaram a atenção.

Há uma pergunta de fundo que atravessa todos esses eventos, encontros e conversas: como o viver em rede muda nossa forma de aprender e fazer negócios?

Um novo cenário de aprendizagem

Jay, com seu mapa de aprendizagem informal, mostra um mundo lúdico, colorido, cheio de opções. A terra ainda é plana, podemos criar outras imagens, mas o aprendiz protagoniza um ambiente de escolhas.

Mapa de Aprendizagem informal, recorte.

Se por um lado isso traz liberdade, traz também muitas dúvidas, incertezas e a necessidade de ter maior clareza do que se deseja. Daí a importância do tema da Gestão Pessoal do conhecimento (PKM, em inglês) e de novas formas de educação onde a escola passa a ser apenas um dos lugares de aprendizagem.

@LucianoPalma, no no Twitter, deu um depoimento interessante. Foi conhecer a nova escola da filha e a diretora fez questão de garantir que todas as redes sociais eram bloqueadas na sala de informática. Ou seja, a escola ainda não entendeu nada, apesar do incrível nível de conexão que tem hoje uma criança de 10 anos.

A discussão do homeschooling também se conecta a essa. Qual o nosso papel como pais? Como preparar nossas crianças para enxergarem e conseguirem navegar no rico ambiente de aprendizagem que hoje está disponível para elas? Quanto dessa educação deve acontecer em casa?

Um novo cenário de negócios

As organizações também se deparam com esse viver em rede. A Procter&Gamble promoveu um encontro para falar do seu ambiente de Inovação Aberta, o Connect&Develop. Apresentou um discurso muito afinado e um modelo maduro em cada conexão é única, ou seja, cada parceiro (e cada contrato) é visto de forma individualizada. Temas difíceis, tais como a aproximação de concorrentes em projetos de inovação aberta, a propriedade intelectual e a escolha dos parceiros em que a empresa vai investir e desenvolver foram abordados pelos executivos da P&G. Ser 2.0 toma tempo.

Um dos pontos mais curiosos do evento foi conversar com outras empresas presentes na platéia e perceber que ainda não sabiam como entender e se aproximar de um gigante. Mudar a própria imagem, tornando-se acessível para poder aproveitar as contribuições de uma rede talvez ainda seja um desafio para as grandes corporações que querem trabalhar com inovação aberta em países em desenvolvimento.

A cultura é hierárquica, “us pequeno

bedesce us grande”, como diz o concretismo dessa pequena ode ao subdesenvolvimento. Este é o ponto de partida.

Uma outra inovação

Nesse contexto, como modelar a inovação? Como fazer um design de processo que respeite as condições de aprendizagem social em rede?

Para Paul Pangaro, uma das grandes questões é a variedade. Ganhei dele um grande mapa de inovação que representa seu modelo, cheio de mecanismos de conexão e feedbacks. Sua leitura me levou a pensar sobre a necessidade de colocar o Design Thinking em perspectiva.

A variedade é uma das sutilezas importantes que o modelo de Pangaro traz para primeiro plano. Trata-se de encontrar, a cada passo do processo de inovação, a variedade necessária de pessoas, pontos de vista e experiências para atingir um dado objetivo. Mudam os objetivos, mudam as pessoas. Estou imaginando como fazer um desenho de processo a partir dessa perspectiva, já que não é simples mudar as pessoas envolvidas com um projeto ao mesmo tempo. Mas faz um certo sentido, a obra deveria ser mais importante do que os artistas.

Papéis no processo de inovação

Surge também a discussão da diferença dos papéis de gestor e empreendedor na inovação. Esta questão está presente tanto no livro de Stefan Lindegaard quanto no modelo de Paul Pangaro e na fala da P&G, que enxerga gestores diferentes assumindo em etapas distintas do processo, exatamente porque nem todos conseguem assumir esses dois papéis fundamentais.

Esse ponto é importante para se desenhar a gestão de pessoas em torno do processo de inovação. Se entendemos que esses dois papéis não podem ser assumidos pela mesma pessoa, deve existir uma mobilidade de um projeto de uma mão para outra, conforme ele evolui. Se não for assim, podemos ter o mesmo gestor ao longo de todo um projeto de inovação. Food for thought

Perguntas e mais perguntas

Para Paul Pangaro, as perguntas abrem novas possibilidades de linguagem nas organizações e, assim, abrem o caminho para a inovação. Semana passada, Algarra e Munhoz fizeram um “pergunticídio”, ou uma meta-reflexão, para serem menos trágicos, no Results On. Estar nesse lugar “meta” abre a rede de conversações da organização para o inesperado e introduz um outro tipo de consciência no processo a partir do momento em que podemos ser observadores de nós mesmos.

A inovação aberta precisa incluir espaços para essas perguntas e é possível fazer isso. Tudo depende do desenho das conversações que lhe dão forma.

e… as descobertas continuam.

10 + n coisas que aprendi na CIRS

Semana passada estive na CIRS.

Fiquei pensando no que postar. Difícil. Foram muitos os encontros, dentro e fora das palestras. Boas conversas!

Fiz aqui o compilado de alguns aprendizados.  Nem tudo está indexado por autor. Na mente, tudo se mistura e recombina, como nas redes.

nodos desesperados disputam tomadas.

Lá vai!

1. A rede não está nos nodos, mas nos fluxos. A rede é puro movimento, por isso não é possível saber o que a modificará ou influenciará. Mesmo mapear a rede é só uma tentativa de fotografar um território que já foi modificado. Mapear redes é arqueologia, como coloca Clara Pelaez.

2. Estar nas redes sociais é não saber. Pela abundância e irregularidade das conexões, não é possível saber como uma informação ou idéia vai fluir, onde vai parar e como será transformada, reinterpretada, ou enterrada. Entendendo isso, twitter vem mudando sua configuração e possibilitando que os próprios usuários acoplem a ele seus aplicativos. A rede resiste ao aprisionamento e os negócios precisam ganhar plasticidade para acompanhá-la.

3. Viver em rede e cooperar são atributos humanos que foram fundamentalmente modificados pelas ferramentas disponíveis. A facilidade de conexão derrubou os custos de transação de cooperar em rede e viabilizou inúmeras iniciativas que não existiriam se fossem necessárias empresas que as gerissem. A empresa simplesmente não é um modelo para viabilizar grande parte dos projetos humanos devido aos seus custos de transação crescentes. Coordenar ações em rede é muito mais barato.

Além disso, as organizações deformam a rede e dificultam que a auto-organização aconteça, assim como os prédios dificultam ver a paisagem. Essa idéia estava já na abertura do evento, feita por Augusto de Franco.

4. O que dá vida à rede são as emoções por trás do discurso de cada integrante. Fala-se muito em informação rodando na rede, mas pouco em emoção. A rede é um lugar de contar histórias, coloca Pierre Levy. A rede é um lugar habitado por pessoas reais, por desejos reais e projetos reais. Talvez por isso as marcas tenham uma certa dificuldade em aparecerem de forma legítima nas redes sociais. Marcas não são pessoas.

5. A entrada numa rede tem que ser voluntária. Quem não entra voluntariamente, não se conecta de verdade, não compartilha conhecimentos e muito menos motivações. O involuntário nunca será um nodo vivo da rede. A rede é expressão.

Cacau Guarnieri conta uma experiência real de empresa em rede no Open Space

6. “Small is powerfull” quando se está conectado, coloca Clay Shirky. Esqueça as grandes redes. Mesmo dentro de uma rede maior, é a pequena rede que anima, energiza e faz acontecer. A ansiedade de uma grande organização, por exemplo, em ter uma grande rede não faz sentido nesse contexto. A rede não nasce a partir de um desejo central, mas de desejos capilares e da conexão entre eles.

7. A liderança na rede é volátil, evapora conforme se exaure a tarefa que ela ajuda a coordenar. Ou ela se engaja em outros desejos presentes na rede, ou será substituída. A grande diferença é que isso não é ruim. Viver em rede é desapegar-se do status, o movimento é constante e se você não for o líder da vez, vai poder ler, ir à praia ou simplesmente continuar vivendo em rede.

8. A grande fronteira das redes não é dada pelas ferramentas, mas pela cultura que as envolve. A rede cria um sistema comum de significados que se modifica e renova em seu fluir. Há crenças, valores e costumes próprios em cada rede. Clay Shirky nos diz que há uma barganha singular, ou seja, regras implícitas de funcionamento e, mais importante de tudo, um propósito, ou o “para quê” a rede foi criada. É a cultura que cria acordos e impedimentos que evidenciam o que está “fora” e “dentro da rede”. Esses limites, entretanto, são líquidos. A rede é um território móvel.

9. Tagear os conhecimentos dá um tipo de acesso à subjetividade do outro que conhece, que posta, que tageia. Há uma energia ligando os fenômenos e o processo discursivo que é a energia emocional. Essas e outras frases carregadas de interpretações estão na tag #2010CICI . Essa tag chegou a ficar entre as 10 mais do Twitter durante a CIRS e mostra que a discussão sobre  a semântica como indexador fundamental da web continua. Pierre Levy deixou um gostinho de quero mais. É por esse caminho que ele segue, ainda que não esteja falando do mesmo que Tim Berners-Lee. “A imagem de um sistema semântico coordenado, matematicamente processado onde podemos situar todos os conceitos e transformações que eventualmente venham a sofrer, além da circulação das emoções envolvidas.”.

Bom, quem viver e tiver paciência para explorar o site dele verá.

Pierre Lévy se inspira no I-Ching

10. Sem gestão pessoal do conhecimento não há gestão coletiva do conhecimento. Um enorme desafio hoje, conforme foi também apontado por Pierre Levy é o foco na busca de aprendizados e na produção pessoal que ocorre na web. A gestão do conhecimento pessoal é a base da inteligência coletiva porque dá início ao ciclo e explicitação do conhecimento e alimenta nossas conversações. “Quando conversamos, usamos palavras e conceitos, fazemos acordos, progressivamente criamos metadata comum, que torna-se a gestão conhecimento coletiva.”

…N. Aprende-se rede com redes. Ouvi isso do amigo Luiz Bouabci, um amigo profundamente envolvido com o estudo das redes sociais. Estava saindo do evento quando começamos a conversar. Sentamos nos degraus e ficamos olhando os operários desmontarem o painel título da conferência até abrir-se para nós a vista total em frente ao pavilhão.

Mais interessante do que a teoria é a prática das redes, onde tudo está sendo construído a cada instante. Há tantas variações possíveis que a teoria não daria e não dá conta de explicar. Além disso, explicar não substitui o viver, só estando em rede para saber como é.

Olho no olho x olho na tela – um paradoxo na Campus Party

“Estamos aqui para compartilhar” –  é o que todos dizem, mas na Campus Party o que mais se vê são pessoas absorvidas em seus próprios micros e debates em que os convidados mal se ouvem, em parte por causa da péssima acústica do local, em parte pela disposição das mesas. Sim, o evento foi incrível, mas fiquei intrigada com essa questão. Como compartilhar sem olhar nos olhos, sem ouvir o que o outro diz com cuidado? Onde aconteceram as verdadeiras conversas da Campus Party?

Claro, tem muita, mas muita vida online. Mesmo assim,  era algo estranho assistir diversos debates e ver que mesmo quando as pessoas estavam interessadas elas olhavam… para seus próprios micros. Já estavam postando, digitando, ouvindo música: multi-tarefas. É um novo modo de viver com as conexões acontecendo em outras dimensões e ocasionalmente…

“posso usar o cabo que está aí debaixo do seu pé?”

“Claro!” – retrucou a garota ao meu lado.

Tive a oportunidade de participar de alguns momentos em que essa rotina foi quebrada:

1. Ao encontrar amigos queridos apresentando seus trabalhos ou passeando: Dalton, Drica, HD, Maria, Talita, Murilo, Fábio, Ronaldo. Abraços! Podia ter um mob do abraço ali, mas acho que era mesmo hora de extravasar e sair gritando de tanto energético na veia.

2. Conversas na Vivo com pessoas super interessantes como a Lala Deheizelin, do Crie Futuros, Gil Giardelli, com seu blog cheio e entrevistas imperdíveis sobre a festa, Helder Araújo, do TED, Walter Takahara, Mafeteca… Ainda não inventaram algo tão divertido quanto sentar e compartilhar ideías com gente inteligente. Gracias, estou seguindo os links que ganhei de vocês.

3. Palestra algo bizarra, mas em formato aquário, que reuniu Augusto de Franco, da Escola de Redes, Walter Lima, da USP,  Bob Wollheim, Martha Gabriel e Rafael Barreiras entre tantos outros.

"o aquário"

O aquário consiste em manter no centro da conversação um grupo de debatedores com uma ou duas cadeiras vazias, oferecendo a todos que estão na platéia um espaço para participar em pé de igualdade com os convidados. Neste caso, ainda ficou o grande desafio de acolher outros pontos de vista e comunicar-se de forma não violenta. A composição entre as pessoas que estavam ali teria mais potência do que a contraposição. Quase terminou em briga, mas foi bom, muito bom assistir o único debate da Campus Party em que os convidados olharam nos olhos uns dos outros o tempo todo. Veja você mesmo. Valeu Algarra!

O processo foi tão interessante quanto o conteúdo, que vou postar assim que der… as aulas começam, a vida segue na grande cidade.

Quem está está conectado pode até estar em rede, mas nem sempre se comunica de fato.

boa excessão: o músico mineiro e sua infinita paciência de explicar como discotecar com cubos sobre o vidro.

Conversas presentes

No maravilhoso livro De Verdade, Sándor Márai fala das testemunhas. Ele dá esse nome àqueles velhos amigos com quem temos uma relação de cumplicidade tão verdadeira, que seu testemunho é essencial para nossa história. Para o autor, muitas vezes vivemos para as testemunhas, imaginando, ao tomarmos uma decisão, o que elas pensariam. Devo aceitar este trabalho? Esta paixão vai durar? Devo fazer esta viagem?

Outro dia encontrei uma testemunha. Fomos ao Centro do Rio tomar um café na maravilhosa Confeitaria Colombo.

Eu não tinha um presente ao dar ao meu amigo. Envelhecemos, mas estamos ambos renascendo. Ele falava animadamente (renascer rejuvenesce). Eu ouvia e viajava no tempo. Não sei quantas vezes já fizemos isso. Sei apenas que quanto mais ele me contava, mais eu sentia vontade de presentear-lhe com algo. Um pensamento, uma história, uma lanterna, algo que pudesse ajudá-lo a enxergar com mais clareza tudo o que está vivendo.

Acho que é disso que se tratam as boas conversas e os bons encontros. A gente sente uma vontade irresistível de dar um presente.

Foi então que me veio à mente um pensamento antigo que eu tivera sobre ele. Não era muito fácil de dizer, porque as testemunhas não estão na nossa vida pra agradar, mas eu disse.

Pude assistir o efeito que isso fez no seu rosto e nas rugas que carrega. Poucas vezes tive tanta certeza de ter dado um bom presente.

…Hoje em dia, nas festas de aniversário, as crianças mal olham os presentes que recebem. Eles ficam em cestos perto da porta e são abertos na ausência de quem os escolheu. Isso é triste. Ninguém vai receber de volta o olhar que eu recebi naquela mesa da Confeitaria Colombo.

Quantas conversas são presentes de fato? Quantas vezes recebemos de volta um olhar como esse?

Não acredito que isso possa vir apenas de uma testemunha, acho que pode vir de todas as pessoas com quem conversamos de fato.

Eu me senti premiada naquele instante e gostaria que mais pessoas se sentissem assim: sentadas num lindo lugar cheio de memórias, diante de um doce mil folhas e um café, enxergando dentro do outro, sentindo palavras.web2_DSC_0417

Vida online, geração facebook e a importância do diálogo

quais os seus valores?

quais os seus valores?

O artigo de Gary Hammel chamado The Facebook Generation and the Fortune 500 foi indicado por uma colega de Ning, Barbara Dieu, e considerei bem interessante.

Nesse artigo, Gary Hammel menciona 12 características da vida on line que dão o que pensar. Traduzi apenas os títulos, que já são “food for thought”.

Segundo ele, nesse ambiente:

1. todas as idéias competem igualmente

2. contribuições contam mais do que credenciais

3. hierarquias são naturais, não prescritas

4. líderem servem, mas do que presidem

5. tarefas são escolhidas, não designadas

6. grupos se auto-definem e organizam

7. recursos são atraídos, não alocados

8. o poder vem através do compartilhamento de informações e não do acúmulo

9. opiniões são compostas e decisões são revisadas pelos pares

10. usuários podem vetar a maioria das decisões/políticas

11. recompensas intrísecas são mais importantes

12. hackers são heróis.

Você pode até ainda não estar vivendo algumas dessas tendências, mas pense nisso como uma mudança de cultura que está tomando corpo diante dos seus olhos.

No mundo do trabalho, alguns setores estão mais expostos a essas modificações do que outros.

Se você trabalha na área de comunicação, tecnologia ou criação, provavelmente já está sentindo que a nova geração de profissionais vem  com essa cultura. Se trabalha com recrutamento e com jovens profissionais, é quase inevitável que saiba exatamente do que Hammel está falando.

Não sei como os ambientes de trabalho se tornarão atrativos para esses jovens, mas quem pensa em aprendizagem e inovação precisa parar para refletir com calma. Em que tipo de ambiente essas pessoas se sentirão a vontade? Quanto tempo elas trabalharão num escritório? Como engajá-las em projetos? O que fazer com as hierarquias? Como recompensá-las?

Fora a nova geração, o que dizer dos que já estão e que talvez tenham dificuldade de atuar e liderar nessa cultura?

Para não ficar só na angústia, vamos indicar uma das mais sábias tendências que conhecemos para lidar com tudo isso: o diálogo. Tão simples quanto isso. Seja na própria rede ou fora dela, os métodos de diálogos participativos (ou conversações abertas, como preferir) são acessíveis a qualquer um, catalizam o que emerge de cada grupo, são altamente engajadores e permitem que se construa conhecimento de forma simples e rápida. Além disso, esses métodos têm uma ética muito mais próxima daquela proposta nas 12 características acima do que os workshops tradicionais.

Um desses métodos é a investigação apreciativa que, segundo seus autores, “envolve uma descoberta sistemática do que dá vida a um sistema vivo quando este está mais vivo, mais efetio e mais capaz de construir em termos econômicos, ecológicos e humanos.” No Brasil ela ficou famosa devido ao caso da Nutrimental. Se você não conhece, vale a pena.

Logo postaremos mais sobre isso.