inspiração

Por que estimular o pensamento metafórico?

Dentro do grupo da Semana Global de Inovação e Criatividade (WCIW), liderada pela canadense Marci Segall, estão compartilhados alguns vídeos interessantes do Professor Mark Runco. Um deles fala sobre a importância do pensamento metafórico. Vale a pena assistir. É um dos temas que nos levou até o MAP-SE. A WCIW é uma iniciativa colaborativa de comemoração da criatividade que acontece desde 2001, na qual qualquer organização ou grupo pode criar seu próprio evento. Muito bacana!

Analogical and metaphorical thinking by Mark Runco

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Toda economia pode ser criativa

Vivemos talvez o momento mais criativo e grave da história da humanidade. Vivemos a “era da abundância, mas ainda carregamos a mentalidade da escassez”. Podemos pela primeira vez reconhecer a complexidade do mundo e temos em nossas mãos as ferramentas, as potências e o desejo para lidar com ela.

Esse mundo complexo nasce de uma conectividade inédita, de um fluxo de informações crescente, da diversidade aliada à perspectiva da unidade e de um caos que pode nos levar ao esfacelamento ou à descoberta de padrões que antes eram invisíveis.

Temos pressa. Pressa de conservar o planeta, pressa de evitar novas guerras, pressa de encontrar condições para a expressão da potência individual no trabalho, deixando de lado o terrível paradigma da dor como algo que enaltece o ser humano. Queremos carregar um certo sorriso por trás do que fazemos, não negando qualquer dor, mas sabendo que a dor é um estado que pode passar por nós como a água de um rio que conhece o seu próprio destino.

Amor e dor, poder e colaboração, não temos mais tempo para maniqueísmos. Queremos misturas. Temos pressa de viver.

Através da tela do computador buscamos bons encontros. Temos o desejo de tocar aqueles que compartilham a mesma vibração: é possível amar a vida sem ser inocente demais. É possível usar todas as capacidades técnicas, científicas e cognitivas que conquistamos em composição com o emocionar alegre, urgente e prático da dita geração Y. Em Y temos escolhas.

O desejo dessas novas composições vai então habitando projetos: ações certeiras, que impregnam o mundo a partir de uma escuta aberta e da contemplação de mapas complexos. “O velho desaparece não por colapso, mas porque fica obsoleto“.

Onde quer você esteja e com quem puder conversar, vai ouvir a mesma história. Queremos uma vida que tenha sentido. Escondida embaixo das mesas de reuniões nas empresas, estendida sobre as mesas de bar ou nos desenhos que os coaches fazem com seus pupilos, está essa perspectiva de projetos que vão se articulando e formando um mundo que ainda não conseguimos enxergar. É nesses projetos que queremos empregar nossas energias.

Temos pressa. Nunca houve tanta inspiração e tanta gente “solta”, em busca de um agenciamento positivo que ajude a exercer sua potência. Nunca houve tanta pressão para cozinharmos juntos nossos saberes, catalisando inovações sem autoria, que nascem no “entre”, nascem nas relações, mas com autoridade e recursos coletivos.

Inovação pode então parecer uma palavra mágica, um Santo Graal contemporâneo que todos desejam, mas ninguém sabe onde está. Isso porque ela é a possibilidade que habita o presente, é o próprio Zeitgeist, está em todo o lugar para quem tiver olhos de ver, ouvidos de escutar e desejo de realizar. Inovar é realizar transformações relevantes a partir e para as redes que habitamos. É um modo de viver em que um presente ampliado e esquivo nos desafia a agir com consistência e amplificar a geração de valor. Onde as cidades, as escolas e as organizações precisam de uma acupuntura certeira para que os pequenos pontos de luz ganhem força e ofusquem o que nos consome (e o que consumimos).

Estamos à altura do que nos acontece, se estivermos colados ao acontecimento. Toda a economia pode ser criativa.

2º Sarau de idéias: PKM, emoção e intuição

Terça-feira passada tivemos o segundo Sarau de idéias, com a presença do @lucianopalma e do @fmorais (Fabiano Morais), que entrou via Skype e de pessoas queridas entrando via Twitcam. O tema era PKM, que significa Personal Knowledge Management, ou Gestão Pessoal do Conhecimento. Segundo Harold Jarche, ela “consiste em métodos práticos para buscar sentido nos fluxos crescentes de informação que nos cercam.”

Começamos lembrando Pierre Levy e trazendo uma frase dele: “ somos processadores individuais de um potente processador social”. Imediatamente, Barbara Dieu (@bdieu) saltou da cadeira com uma pergunta bem relevante: “E onde fica a afetividade? Será que podemos usar uma metáfora como essa, onde todos somos parte de uma grande máquina?”

É interessante retomar a visão de Levy, até para lhe fazer justiça. Ele coloca que a humanidade ganhou alguns “presentes” cognitivos. O primeiro é a capacidade de fazer perguntas, que nos dá a possibilidade de assumir um papel de observadores de nós mesmos, questionando o que nos acontece. O segundo é o diálogo, através do qual podemos criar representações do processo cognitivo do outro e nos colocarmos no lugar dele, criando reciprocidade. O terceiro é a capacidade de contar histórias, passando adiante experiências impregnadas da vivência singular de cada um. A afetividade é parte fundamental desses três “presentes”. No Sarau, todos concordaram: PKM é um processo impregnado de afetividade.

Podemos ver no modelo proposto por Levy que as conversações, têm um papel central na construção desse “processador social”. Nelas, também colocamos nossa carga afetiva. Mesmo nas decisões ou ações ditas “racionais”, sabemos hoje que as emoções são fundamentais. O livro O Erro de Descartes é um dos mais populares a defender essa idéia. Nele Antonio Damasio propõe o conceito de emoções primárias e secundárias. As emoções primárias são controladas pelo sistema límbico, mais primitivo, que abriga disposições inatas a estímulos. Seriam emoções mais instintivas. Já as emoções secundárias envolvem categorizações de representações de estímulos associadas a respostas passadas que foram avaliadas como boas ou ruins. Então PKM é um tema que diz respeito não só a como nos organizamos e geramos conhecimento, mas ao nosso emocionar diante do mundo, das conversações e das vivências que vamos acumulando.

Fabiano Morais propôs conversarmos a partir do processo de PKM proposto por Levy, e com essa base nossa conversa fluiu.

O processo começa já com um grande desafio: a gestão da atenção. Ela está relacionada à habilidade de definir interesses e prioridades, manter o foco e ter sempre em mente o grande quadro daquilo que se quer produzir. Nesse início de processo é preciso ter em mente conhecimentos adquiridos e desejados. Veio à tona então a questão da busca de sentido no trabalho. A gestão da atenção costuma ser fácil quando estamos engajados afetivamente numa tarefa com um sentido maior.

Bárbara Dieu contribuiu com uma pesquisa recentemente publicada que joga mais luz sobre esta questão. O Idea Execution Audit procura investigar quanto as pessoas conseguem executar seus projetos e o que as afasta de conseguir essa “façanha”. Um dos dados interessantes é o fato dos e-mails serem um dos maiores fatores de distração. Esse fato foi apontado durante o nosso encontro. Alguns de nós, inclusive, evitam sistemas de alerta de e-mails e twitter por essa razão.

A segunda etapa proposta por Levy é a conexão com fluxos valiosos. Considerando que a conectividade crescente faz com que os fluxos sejam cada vez indomáveis, podemos dizer que o processo de PKM começa com a busca de um delicado equilíbrio. Ao mesmo tempo em que gerimos nossa atenção, precisamos estar conectados aos fluxos que, sim, podem nos “invadir”.

No Sarau, isso nos levou a uma discussão muito interessante sobre a sincronicidade. Vários de nós já tinham enfrentado a situação de entrar no twitter, no facebook ou em outra rede social exatamente no momento em que era postada a informação de que precisávamos. Assim como nos encontros presenciais, em que por vezes um amigo tem exatamente o contato de alguém que devemos encontrar, a conexão virtual com um certo fluxo positivo de encontros nos leva onde queremos chegar. Então talvez haja um grande componente intuitivo no processo de PKM.

Mas, voltemos aos passos de Levy e ali estamos coletando, categorizando fluxos de dados e gravando ma memória de longo prazo.

Bom, nesse instante voltamos nossa atenção para o tema das ferramentas.

“Ah, eu adoro ferramentas”, diz Fabiano. Unanimidade na sala. Ferramentas são um enorme apoio, mas o desafio é criar um ambiente pessoal de aprendizagem compondo todas elas. Na pesquisa indicada pela Bárbara, por exemplo, fica claro que muita gente ainda usa o velho e bom caderno. A gestão pessoal do conhecimento é, assim, uma colagem criativa de ferramentas, anotações e encontros on line e off line. É um mashup muito pessoal.

Usar o Zotero, para organizar, tagear e acessar arquivos, ou o Mindomo para mapear o que estamos pesquisando, usar o pomodoro para fazer a gestão da atenção… ferramentas são uma paixão fácil, ao compartilhá-las, experimentamos um clima divertido de colecionador de carros ou de troca de figurinhas. São brinquedos cognitivos contemporâneos.

Passamos então para as fases finais do ciclo: síntese, compartilhamento e comunicação. Alguém questiona: a síntese é algo pessoal ou está no “entre”? A wikipedia, por exemplo, contém sínteses, mas não é um ambiente que podemos chamar de pessoal.

Então surge uma idéia interessante: o mais importante é a síntese pessoal colocada em fluxo para gerar novas sínteses coletivas e ser modificada no grande processador pessoal que Levy menciona.

“Estamos numa época de intérpretes e não de compositores”, diz Fabiano. A síntese é um momento de expressão de uma dada singularidade, mas é o compartilhamento que amplifica esse olhar e possibilita a interpretação, jogando o conhecimento num processo complexo e criativo de transformação. Isso acontece na web, mas acontece especialmente nas conversações e nos bons encontros.

Fechamos refletindo sobre por que a gestão da atenção é um tema tão importante hoje. Fabiano trouxe, então, seu conceito de nowmadismo. Num mundo em crise, em que acontecem mudanças tão fortes na agenda coletiva e onde emerge um senso de urgência gigantesco, o agora (now) “engorda” e o futuro “emagrece”. “A gente não vai chegar a lugar algum se não viver o agora com qualidade” e, para isso, o PKM é essencial, ele nos ajuda a concretizar a contribuição singular de cada um, ele nos ajuda a construir, aqui, agora e com a nossa rede, essa nau para o futuro.

Semana que vem trem mais! A programação está no site da Dobra. Sejam bem vindos!

Eu só soube correr (ou como o esporte mudou a vida de uma pessoa péssima nos esportes)

Só soube correr.

difícil pacas jogar esse troço. Repara no tamanho da bolinha!

Não tinha pendor para os esportes de equipe e enfim um dia alguém me percebeu. (Acho que não era tão difícil, tendo em vista o meu ridículo desempenho no hóquei de grama…)

“Você só pode correr. É irremediavelmente ruim nos esportes com bola” – me disse a professora americana.

Foi uma profecia mas, ao mesmo tempo, uma boa orientação. Finalmente alguém me dizia alguma coisa absolutamente honesta e simples. Eu tinha então uns 16 anos e posso dizer que foi uma revelação sentir-me parte do pelotão da frente depois de anos de desastrosa aventura escolar sendo sempre a última a ser escolhida nas aulas de educação física.

Comecei então a correr seriamente. A professora era uma mulher fria, ruiva e masculina que não sei se botou fé ou sentiu compaixão por mim, mas me ajudou. No final ela sorria e me fazia sinais de positivo. Tínhamos vencido uma marca em mim, tínhamos aberto outro caminho, talvez uma coisa simples e sutil, mas na verdade poderosa na medida em que transformava em ilusão uma incapacidade que eu já considerava como um dado. Entretanto, sobrava meio veredito.

esta obviamente não sou eu!

Depois de anos, jogávamos frescobol numa praia em Ubatuba. O dia era lindo e nos protegíamos do sol intenso debaixo de um “chapéu de sol”. Meu amigo era carioca, chamava a árvore de amendoeira e dizia que não era possível eu jogar tão mal.

Contei então o veredito que me tinha sido dado anos antes pela professora americana. Eu não fora feita para os esportes com bola.

Ele riu muito! Era um cara engraçado e moreno, com cabelos encaracolados e que gostava de se atirar no mar de costas, em grandes splashs. Seu nome era (e é) Maurício, um amigo pra quem (garanto) nada é impossível.

Ele voltou da água pingando e me desafiou. Disse que jogaria comigo até que eu aprendesse, ou pelo menos “passasse a primeira rebentação” pra sair daquela marca de impossibilidade. E jogamos.

Fazia um calor terrível e nossa amiga Bia nos chamava de loucos enquanto se abrigava em sua canga. Os banhos de mar aliviavam um pouco o esforço e o dia já ia ganhando uns vermelhos quando decidimos parar. Ele tinha conseguido.

Nunca participarei de um campeonato, o esporte não me obstina e creio que realmente não fui feita para ele. Tudo bem. Mas jogo frescobol com enorme prazer.

Serve para mostrar de novo que vereditos não servem para nada.

Hoje a treinadora americana já deve ser uma velhinha, eu tenho dois filhos e meu amigo Maurício renasce em Londres, depois de um terrível acidente. Nada é impossível.

Vivemos o que percebemos do mundo e com nosso viver transformamos esse mesmo mundo. Que imensa responsabilidade em ter uma história que é, em grande parte, construída pelo modo como enxergamos a realidade. Eu que não corria, me percebo corredora ao correr. Eu que não jogava, ao jogar me transformo.

Humberto Maturana, anos atrás

Essa semana estive com o Humberto Maturana e a Ximena D´Ávila na formação em Biologia Cultural . Ao que tudo indica, grande parte do que é ‘viver bem’ diz respeito a conseguir olhar-se de fora, assim como na Yoga e em outros tantos lugares de sabedoria. Para mim faz sentido. Ao olhar-me de fora e perceber como estou fazendo o que estou fazendo tenho a possibilidade de rir de mim e de me instalar na multiplicidade da vida que esse olhar estabelece. Eu não sou só o que observo em mim num dado instante. Transformo-me a partir dos fazeres que crio para mim.

Faz sentido.

Em todo caso, para quem é muito pegajoso como eu e não tem essa plasticidade para descolar de si mesmo a qualquer instante, talvez seja melhor cercar-se de boas conversas. Assim, alguém poderá lhe fazer um convite para você se olhar de outro modo, como o meu amigo Maurício fez comigo ou, pelo menos, como profissionalmente fez minha professora americana.

Sobre esse mesmo tema dos limites e das possibilidades, não pude deixar de pensar no tema da educação. No Brasil, meu desempenho nos esportes era pífio, mas demorou anos para que alguém olhasse para mim. Talvez, mais do que ganhar a corrida, eu precisasse ser legitimada.

Ainda bem que aconteceu aos 16.

Fico pensando nas escolas em que nossos filhos estudam. Como será que eles escolhem os times hoje em dia? Será que percebem que nossos maiores aprendizados se dão nas relações? Será que são lugares de bons encontros?

Difícil.

Educar, mesmo em casa, não é tarefa simples exatamente por isso, porque se faz no fazer, não só no dizer. Vivemos tão divididos que muitas vezes nos esquecemos de descolar do cotidiano e perguntar: essa é a mãe que eu quero ser?

Um pequeno pensamento sobre propaganda

Talvez algo que possamos assistir como um filme, pensar que aquela idéia, aquelas imagens, aquela originalidade valeu. A obra foi  maior do que o artista.

Sim, isso já acontece hoje, mas ainda não é o que predomina. Sim, este não é um vídeo “que nunca foi feito” ou incrível, mas vai nessa linha.

Talvez descobrir a linguagem que interessa ou uma história que atravessa aquele público com quem se quer falar.

Que não seja alvo, posto que é gente, mas que seja possível entreter.