investigação apreciativa

Ele olhava o copo e lembrava da sede.

Ela olhava o copo e pensava nas propriedades líquidas da água.

Ele queria pegar o copo, mas estavam em silêncio há tanto tempo que tinha receio de qualquer movimento.

Ela se sentia escorrer, mesmo estando ali parada, diante dele.

“A conta por favor” – pediu ele ao garçom.

“Sim, vamos.” – ela disse.

Qual era então o futuro do copo d´água? Há alguns instantes ele não sabia se seria célula ou esgoto. Agora , sentado sobre a mesa, o copo d´água contemplava com transparente clareza, o futuro móvel de sua própria evaporação.

O que é o futuro? Como vivemos nossa própria passagem? Somos autores do que vai acontecer? O que é transformar-se? O que é inovar?

**************************

Minha amiga Maria é uma pessoa apreciativa. Estar no presente com ela é viver um mundo que tem algo de contente, onde o medo tenta ficar escondido. Mas sonhar é duro para muitos. Ninguém se recupera de ser adulto e encarar os paradoxos do mundo que nos invade (e nos nutre).

Ajudar a sonhar é uma arte esquecida, talvez seja como querer plugar-se num fluxo que vem do futuro.

**************************

Nossa memória atualiza, no presente, cada passado vivido e se move junto conosco sem rumo. O tempo é nossa própria essência em movimento.

(Ou somos a essência do tempo em movimento?).

Ximena contou-nos uma história. Estava em frente à praia, sozinha em casa, quando houve o terremoto no Chile. Imaginou que uma onda imensa poderia atingí-la. Seu futuro foi onda (e também o presente). A transformação acontece a despeito de nós, mas também dentro de nós.

**************************

Teoria: o momento em que se inaugura um projeto é um holograma de seu futuro. Um projeto que nasce a partir de bons encontros, carrega bons encontros. Um projeto que nasce do medo, carrega o medo, a não ser que haja um outro começo.

Os começos são oportunidades de desvio, doem apenas quando nos apegamos ao fim que houve antes deles.

Que bom que o dia amanhece sempre.

**************************

A ruptura, mesmo que pequena, gera uma dobra no fundo do mar, na vida, nas reflexões que fazemos juntos. Inovar talvez seja curvar-se.

Detal do rio Kolgrima, na Groelândia, em maravilhosa foto de Hans Strand.

Ressonâncias imediatas do Sonha Grande São Paulo

Acabou o workshop do Sonha Grande São Paulo.

Super interessante estar com um grupo tão diverso: ONGs, fornecedores, funcionários da Natura, amigos nossos, amigos do Movimento Nossa São Paulo. Era um grupo grande e diverso que encontrava-se a cada momento com seus sonhos e também com sua visão crítica entrando no caminho do sonho, criando nuvens para visualizar outros possíveis. Não é possível viver em São Paulo sem ser um pouco enfezado (palavra feia, porém adequada numa cidade em que tantas coisas cheiram mal).

Para alguns, foi um grande desafio livrar-se de tantos dados e informações pra criar um espaço livre de criação e sonho. Os olhos azuis do Maurício olhando para o céu, os olhos orientais da Sandra sorrindo, cheios de energia, os olhos contestadores da Malu… nenhum olho fechado. Não havia tempo para piscar. Poucas vezes tive um grupo tão grande durante todo o tempo atento e desejoso.

Alguns precisavam ir e ficaram.Outros foram e lamentaram. A contribuição aconteceu não só pelo que disseram mas pela presença plena do desejo de cada um entre tantos outros desejos legítimos.

Conflitos, diferenças… sim, somos demasiadamente humanos, somos nós mesmos um projeto em revisão, mas o olhar voltava-se sempre a para a nossa cidade, pobre cidade dormitório onde tantos jogam seus detritos e de onde tantos tiram seu sustento.

Sonhamos uma cidade com bicicletas e estrelas, com sorrisos de crianças brincando na rua, um rio vivo e gentileza, muita gentileza!

“Quase nunca nos encontramos sem reclamar da cidade” – diz o Sérgio.

“Só se chegar um argentino a gente fala bem.” – brinca Ale com a porteña Felicitas.

“Menos velocidade, mais fluidez!” – sonha um grupo.

Como facilitadoras, um grande desafio: co-inspirar-nos, respirar, acolher posições distintas e, sempre que possível, ter a invisibilidade necessária para que a magia do grupo se manifeste. Olhamos nos olhos, nos abraçamos cansadas.

Foi muito intenso sonhar a cidade.

Independente de qualquer organização, da prefeitura ou da ONU, é algo que poderíamos fazer mais conosco mesmos, na nossa casa, na nossa rua (já que tantas lindas ruas desenhamos na nossa cidade sonhada).

Assim que der vou postar o slide show das potências da cidade. Adorei fazer e espero que gostem de assistir!

Obrigada a todos!

Aprendizados sobre a importância do silêncio

André Tubero em silêncio

Andréa Tubero em silêncio

No último fim e semana participamos de um encontro muito interessante sobre o IVE, Imagens e Vozes de Esperança, que aconteceu na Brahma Kumaris em Serra Negra.

Foram muitas reflexões e meditações poderosas, por isso decidi partilhar algumas delas aqui no blog.

O IVE propõe um novo olhar e uma ampliação da consciência sobre o nosso papel como comunicadores, sejamos ou não pessoas que trabalham diretamente com o assunto. É um movimento que foi iniciado por Judy Rogers, famosa âncora de telejornalismo americana e parte do princípio de que “vozes criam mundos”.

Se você conhece alguns princípios básicos de física quântica, conhece os trabalhos de Humberto Maturana sobre o tema da percepção ou simplesmente assistiu o filme “Quem Somos Nós”, sabe que essa idéia é hoje uma constatação. Nossa percepção se constrói com base nos modelos mentais que criamos para conceber a realidade. Agimos de acordo com esses modelos, criando no mundo as imagens que estão em nossa mente, em nossa fala e nas nossas conversações.

Que mundo estamos criando nos diálogos que estabelecemos, nos textos publicamos e nas imagens que criamos?

Essa imensa responsabilidade e criatividade de criar mundos a partir da nossa “voz” está presente também na Investigação Apreciativa. De acordo com esse método, é preciso concretizar um sonho positivo de futuro para guiar nossas ações na direção que desejamos.

Luciana Ferraz

Luciana Ferraz

Durante o encontro do IVE, algumas contribuições adicionais aconteceram. Luciana Ferraz, uma experiente facilitadora de meditação da Brahma Kumaris, fez uma reflexão interessante. A quem serve o medo que hoje vemos disseminado nos processos de comunicação?

Segundo ela, o medo gera a insegurança (isso todos sentimos na pele todos os dias) e essa insegurança gera necessidade de aceitação. Claramente, seres inseguros são mais passíveis de manipulação, tendem a ser mais obedientes e a procurar realização através do consumo. Os objetos constroem para essas pessoas uma imagem que pode substituir, ao menos de forma ilusória, a segurança, o sucesso e o poder.

Christina Carvalho Pinto, do Mercado Ético/ Full Jazz, trouxe casos interessantes que ilustravam essa situação. Desconstruir a idéia de sucesso é uma das tarefas mais árduas que temos na busca de um mundo de relações transparentes e verdadeiras.

Segundo Luciana, há alguns passos muito simples que podemos tomar para evitar que esse ciclo de medo, insegurança e busca da aceitação via consumo tomem conta de nós. O silêncio é parte fundamental desse processo. “”O silêncio incomoda. Estar sozinho às vezes é como subir até o 20o andar com um desconhecido no elevador “.

Adorei essa metáfora. Quem nunca se sentiu assim? A auto-transformação é a base de todo processo de mudança e suportar o próprio silêncio é um dos primeiros passos para que ela aconteça.

O mesmo acontece nos grupos, talvez de forma mais evidente: o silêncio incomoda, ele nos leva a explorar o mundo interior e a aguçar nossa percepção do presente, onde não estamos acostumados a permanecer. Quando somos obrigados a nos observar nesse silêncio, o mal estar normalmente toma conta. Por que será? Talvez esse seja um exercício difícil mas necessário.

Luciana propôs então uma meditação no grupo a partir de uma seqüência muito simples: IN, UP, OUT.

No momento IN, resgatamos o que já somos de maneira simples, com palavras diretas, sem rodeios. Partilhamos quem somos.

No momento UP, sonhamos juntos a partir do melhor que cada um pode trazer para o grupo.

Finalmente, OUT, quando compartilhamos, dialogamos e refletimos sobre o que queremos entregar ao mundo.

Qualquer semelhança com a seqüência da investigação apreciativa, que propõe as etapas Discovery, Dream, Design e Destiny, não é mera coincidência.

Ao dialogarmos, no momento conclusivo da meditação proposta por Luciana, podemos nos conectar com as questões mais vitais presentes num grupo, iniciando de forma muito mais qualificada nossos processos de criação, de inovação e transformação organizacional. Por isso, um dos insights fundamentais para mim foi exatamente esse: a necessidade de contemplar o silêncio  quanto trabalhamos com times de inovação.

Mil agradecimentos a todos os encontros que tivemos no final de semana.

À Chistina, por suas preciosas histórias e seu infalível humor, à Brígida, pelo olhar mais brilhante que já vi, à Maria Fernanda (mafeteco), pela facilitação generosa. À Escobar, quase 90 anos e aprontando, à dança da Rita e à musica do Cícero. Espero que as idéias que construímos possam se tornar realidade.

Seguem finalmente, os princípios do IVE para quem quiser aprofundar esse conhecimento:

  • Criar raízes locais
  • Despertar a sabedoria inerente ao sistema
  • Compromisso com a Diversidade
  • Métodos de diálogo para a mudança positiva ( IVE utiliza sobretudo os métodos do World Café e da Investigação Apreciativa)
  • Importância de ouvir profundamente
  • Silêncio
  • Valorização do espaço artístico (e, portanto, da criatividade).
Ana Rita Ferraciolli abraça os resultados

Ana Rita Ferraciolli abraça os resultados