metadesign

Gestão do desconhecimento (ou por que é mais difícil perguntar do que responder)

Vivemos um mundo de perguntas com um mindset de respostas.
Cada vez que começo um projeto de inovação fico pensando sobre isso e vejo a cara de impaciência da equipe quando venho com esse papo de “mapear perguntas”. Pra que trazer mais incerteza? Vamos trabalhar com a pergunta que a organização já nos colocou! O escopo já está definido.
Só que é fundamental.
Costumamos nos preocupar com a gestão do conhecimento, sem lembrar que na verdade é no desconhecimento e nas perguntas “que doem” que a inovação mora. Queremos cumprir o cronograma, entregar, queremos definir os produtos finais, mas evitamos a dor de encarar que não sabemos por onde começar e muitas vezes nos guiamos por velhas perguntas. Começamos a perder o potencial criativo de um time de inovação aí mesmo. Afinal, várias cabeças, se por vezes não conseguem chegar a um acordo sobre a solução, podem ao menos gerar uma grande diversidade de questionamentos.
Uma pergunta como “qual será o nosso modelo de negócios no futuro” é uma pergunta “grávida”. Guarda dentro de si tantas outras perguntas, mais específicas, mais definidas, mais instigantes, que é preciso abri-la para enxergar o território que se forma em torno dela. É um parto que precisa ser feito, mesmo que seja a fórceps ou cesárea. Se isso não é feito, corremos o risco de responder brilhantemente a pergunta errada, como coloca Clayton Christensen, no seu livro The Innovators Dilemma.
Isso pode ser feito de forma simples, através da construção de um mapa mental, por exemplo, e deve ser feito no início de um projeto de inovação. Assim, podemos escolher os territórios que queremos explorar e os territórios a serem retirados do projeto. Podemos também identificar sobreposições com perguntas que estão sendo respondidas por outros projetos na organização, de forma a garantir que as respostas que já foram encontradas sejam trazidas para a mesa de trabalho e que o time de projeto não “reinvente a roda”.
Normalmente não sou afeita a dicas, mas esta, realmente já estava madura faz tempo pra desovar aqui no blog.
Como diz minha sábia amiga Tereza Vianna: Antes de buscar respostas, precisamos melhorar a qualidade das perguntas.

PS: estava lendo um livro do Peter Pal Pelbart que tem a seguinte citação do Deleuze no prólogo:
“Ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos ou que sabemos mal? É necessaria- mente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro.”
Tudo a ver!

 

PS: a propósito desse assunto, vale a pena ler Keats sobre a capacidade negativa que é uma das bases do processo criativo. Viver é viver com perguntas.

http://www.brainpickings.org/index.php/2012/11/01/john-keats-on-negative-capability/

Metadesign e Inovação

Quarta passada tivemos mais uma conversa interessante aqui no JuntoSP. Era para ser uma conversa sobre Metadesign, mas o tema da Inovação parece mesmo ser o que deixa os corações e as mentes intranquilos. Todo mundo quer entender.

Nossos convidados foram o Caio Vassão e o Luiz Algarra, além de executivos, profissionais de comunicação e design, parceiros da Dobra, enfim, uma mistura bem interessante.

De onde vem o termo meta?

Segundo Vassão, o primeiro termo com esse prefixo foi a Metafísica. Diz a lenda que foi uma forma de classificar os livros da filosófia primeira de Aristóteles, que não tinham nome. Como ficavam após (meta) os livros de Física, foi criado o termo metafísica. Mas a palavra metafísica tem decorrências importantes. Ela remete à questão da ontologia, ou seja, das próprias categorias de pensamento que utilizamos para refletir sobre algo. Trata também da possibilidade de adotarmos a posição do observadores de nossas próprias vidas: uma meta-posição.

Para mim, a pergunta de Maturana, “como fazemos o que fazemos?” é a grande e poderosa meta-pergunta. Podemos nos perguntar sobre como fazemos a física, como trabalhamos ou como fazemos o design dos espaços que habitamos. “O Metadesign é o projeto do próprio desenho de projeto”, diz Caio.

Ele deu então o exemplo do programa metafont (ou tex), um sistema de editoração para programar fontes. Quem programou o sistema que programa fontes, é o metadesigner.

Tentando fazer uma imagem, é como se a vida tivesse layers e fôssemos subindo e subindo para níveis cada vez mais altos para observar o que fazemos. Esses layers, coloca Caio, são os níveis de abstração. Ser um metadesigner é se colocar num nível mais alto de abstração.

Metadesign e sistemas complexos

Quando nos deparamos com sistemas complexos, como uma organização ou uma comunidade, por exemplo, não é possível criar um projeto fechado. O sistema está o tempo todo mudando e se adaptando. O metadesign cria então um ambiente de decisões composto de algumas diretrizes básicas, critérios e regras que facilitam a vida de quem atua dentro do sistema. Não são parâmetros de controle, mas operadores para atuar no sistema que são validados ou não mediante o uso.

O princípio por trás disso é: elementos simples podem gerar o complexo ou, revertendo o raciocínio, é possível encontrar elementos simples que ajudem a operar num sistema complexo. O metadesign procura identificar esses elementos simples, criando o que Pierce denomina sistema categórico oportuno.

Critérios compatilhados para operar num sistema complexo: é mais fácil dizer do que conseguir, mas eles podem ajudar a responder positivamente a pergunta: é possível projetar a complexidade?

Algarra então apontou uma distinção fundamental: o que nos torna humanos é o fato de conversarmos sobre esses critérios, ou ontologias. Esse é um dos fundamentos do conceito de Inteligência coletiva, que nasce em Bateson (Steps to na Ecology of Mind).

Parece duro, “cabeçudo”, ultra-reflexivo, mas então foi trazido um conceito interessante para alimentar a discussão: o de homo ludens. De acordo com esse conceito, a base da cultura é a brincadeira. O que nos torna humanos, então, é a nossa capacidade de brincar com ontologias e conceitos, ou seja, brincar com o desenho de como queremos viver o que vivemos. Essa me parece uma idéia preciosa: brincar é uma capacidade talvez esquecida, mas fundamental, pois nos leva e rever, combinar e gerar conceitos de forma criativa. Vivemos o que somos capazes de enxergar, ou o que somos capazes de conversar. Brincar com conceitos que fundamentam o nosso viver enquanto conversamos seria metadesign.

Foi a partir daí que começamos a falar de inovação.

O que é inovação afinal?

Algarra constrói a partir de Maturana: a inovação surge para conservar algo que queremos conservar. Queremos conservar um modo de vida, a possibilidade de ter energia acessível, a possibilidade de lidar com recursos escassos e mesmo assim ter conforto, queremos conservar os negócios de uma organização. É a partir daí que tudo se articula.

Vassão sugere: inovar é manipular ontologias. Podemos fazer isso top down, a partir de categorias pré definidas, ou bottom up, ao observarmos os acontecimentos e criarmos ontologias a partir dessa observação. Para Caio, esse segundo caminho é muito mais inovador.

Inovação seria então “afrontar as fronteiras cognitivas da realidade que construímos”. Twittei a fala do Caio. Paulo Ganns( @pganns sugere:) “Romper no lugar de “afrontar”?”. Bom, talvez inovar seja “dissolver as fronteiras cognitivas da realidade que construímos.”

Mas por que inovar?  De onde vem esse desejo?

Novamente voltamos ao ponto do encontro anterior: o porquê da inovação.

Foram abordadas então duas visões sobre a origem da nossa motivação para a ação: a reação (motivação negativa gerada por uma percepção de erro) ou afeição (segundo Deleuze, é o afeto que nos move). Quem trabalha com inovação sabe muito bem que existe uma grande diferença entre essas duas motivações!

Inovar em reação não é a mesma coisa que inovar em busca de um caminho indicado pelo afeto e pelo desejo. É muito mais difícil gerar inovação radical a partir do primeiro caminho, quando a decadência de algo já é eminente mas, sim, há muitos que se movem somente diante desse tipo de situação. Estamos dentro da caixa.

Alguém diz então: vivemos uma situação de alienação, de falta de consciência de onde estamos, fica difícil estar conectado aos próprios afetos quando se está nesse lugar.

Pensar fora da caixa? Qual caixa?

A caixa seria essa ontologia, essas categorias de pensamento que nos habitam sem que tenhamos consciência e condicionam o que somos capazes de enxergar. Uma conversa de metadesign abre essas caixas e essas categorias para refletir e brincar com elas. Como diria Maturana: eu quero conservar esse modo de pensar?

A inovação é sempre uma coisa boa?

Entramos então numa conversa sobre o binômio inovação e ética e voltamos ao começo para pensar a inovação num sistema complexo (as comunidades em que vivemos).

Num contexto complexo, uma inovação desencadeia uma série de reações sistêmicas. Vassão contou o caso do pocket car, projeto do qual participa. Pensar um novo tipo de carro significa repensar toda a cadeia produtiva do carro. Se o motor for ultra-simplificado, o que acontecerá com os empregos dos metalúrgicos que fazem motores? Se os carros forem compartilhados, o que acontecerá com as companhias de seguro?

Parece-me que essa idéia é muito  interessante: a inovação começa, na verdade, depois que um novo produto ou ação é lançado. Ela se multiplicará nas ações que teremos que realizar para lidar com as conseqüências sistêmicas do que lançamos.

Como surgem inovações na cultura?

A inovação se propaga através de novos conceitos que vão penetrando e se disseminando numa dada cultura. Pode ser um novo produto, mas pode ser simplesmente um conceito novo com que começamos a operar.

Alguém pergunta: vem de uma nova necessidade? Ou nós geramos novas necessidades?

Quem precisava do celular antes dele existir? A necessidade parece ser mais uma conseqüência. A inovação surge, acostumamo-nos ao que ela nos oferece e então a necessidade de consolida.

Mas não é necessário que a inovação seja um novo produto. Ela pode ser simplesmente um conceito, um novo modo de viver. (O termo “ficar”, por exemplo, foi criado há menos de 20 anos para denominar, enfim… relações mais instantâneas)

Esses conceitos facilmente replicáveis que vão alterando nosso viver são as memes.

A inovação é, então, um agenciamento de possibilidades. Se você não entendeu, não se preocupe, se ficou curioso, leia um pouco de Deleuze, mas é mais ou menos assim: as possibilidades são vetores que estão disponíveis, alguém ou algo encontra uma intersecção ou uma combinação nova entre essas possibilidades e, voilá, eis a inovação. (Oferta, já existia, comparação já existia pelo menosdesde as fiscais do Sarney, web veio a existir. Oferta+comparação+web=Buscapé).

Estou simplificando, mas vale, pois nos remete à importância de estarmos atentos aos acontecimentos que emergem à nossa volta sem categorizá-los a priori, permitindo-nos pensar em novas ontologias.

A inovação é experimental, diz Vassão.

Sim, vivemos em Beta.

Mariana Gogswell, outra colega por aqui coloca: Como desenvolver os recursos emocionais para viver assim?

Boa pergunta!

Complexidade e Metadesign

Estive na Escola de Inverno do Hub fazendo um curso com o Caio Vassão sobre Complexidade e Metadesign. Queria postar aqui algumas idéias rápidas que me chamaram a atenção.

ambiente de produção VW

Primeiro, o metadesign se ocupa e desenhar o espaço de decisão em que os designers atuam para produzir objetos, informações, interfaces, enfim, o mundo em que vivemos. Essa idéia de espaço de decisão já existe, por exemplo, na economia, mas pensar que ele é um objeto de design me trouxe uma nova perspectiva.

Maturana e Ximena têm proposto a questão “como fazemos o que fazemos” de forma insistente, quase como um mantra e o metadesign do espaço de desisão carrega essa pergunta. É um olhar de fora, um apropriar-se do lugar onde vivemos. Fico imaginando um gigante olhando um pequeno grupo de liliputianos numa caixa e pensando sobre como eles vivem. A novidade, contudo, é resgatar o caráter estético (e portanto ético) dessa pergunta. Imagine olhar para o seu processo, o seu próprio fazer, como arte? Imagine pensar sua casa ou seu espaço de trabalho como o artista que define como vai funcionar seu estúdio?

Aí é que entra a complexidade. Será que o ambiente que crio para a tomada de decisões me ajuda a lidar com a complexidade do mundo? Ele me ajuda a ser um parte criativa dessa complexidade?

Para o metadesigner, é preciso, sim, ter procedimentos estabelecidos, afinal, o mundo precisa funcionar, os programas de computador precisam rodar, as portas precisam se abrir. Mas ao lado disso é preciso lidar com o emergente. Ele não é mais ruído ou desvio, é uma linha de fuga que abre possibilidades que o próprio metadesigner, com seu distanciamento, não seria capaz de prever.

Segundo Vassão, os arquitetos contemporâneos não tentam mais controlar tudo o que fazem os pedreiros. Vão apenas dando contenção e modificando o projeto conforme as decisões dos “fazedores”, acontecem. São quase tutores do acontecimento da construção.

Bom, isso tem diversas decorrências para a vida. Seria ótimo ser capaz de ser o metadesigner de si mesmo e criar um ambiente que permita os ordenamentos funcionais que a vida cotidiana necessita, mas também tenha um espaço para a emergência, o inesperado e uma certa confusão que vai temperando imprevisívelmente os dias.

Agora, talvez pensar isso nas organizações (o enigma pra onde sempre acabo voltando nesse blog) seja um grande desafio. Como desenhar ambientes de decisão e ambientes de aprendizagem com essa visão do design, pensando no viver e no desenvolvimento das pessoas que habitam o sistema?

Acho que muitas vezes esquecemos dessa visão estética. Pouco paramos para nos questionar sobre como fazemos o que fazemos e para redesenhar com o olhar de um designer onde fazemos o que fazemos. Onde talvez seja a palavra: estamos falando de ambiente, de processos e procedimentos, de regras mas também de movimento e dos graus de liberdade que estão abertos para nossa atuação. Estamos falando em arquitetura física, mas também em arquitetura das relações.

É isso. Muitas questões e algumas descobertas.