Maturana

Cultura Organizacional e Inovação

O Sarau de ontem foi ótimo. Um grande grupo, com executivos, empreendedores, consultores e curiosos em geral. Sala cheia de boas histórias.

O tema foi Cultura Organizacional e Inovação e as moderadoras fomos eu, Luciana Annunziata da Dobra e Silvana Aguiar, da Antar Consultoria.

Começamos a partir de um lindo texto do romance De Repente, nas Profundezas do Bosque, de Amos Oz em que os lenhadores passam a seus filhos um antigo saber: “nunca, mas nunca mesmo, de maneira alguma, mas de maneira alguma mesmo” era permitido entrar na floresta durante a noite, pois Nehi, o demônio, vivia ali.

Então começamos explorando a inovação como esse lugar escuro, em que lidamos com a incerteza, algo que tentamos ancestralmente evitar. O medo de arriscar é passado de pai para filho, permeia nossa vida em diversos campos e o ambiente de trabalho é somente mais um lugar onde esse medo se manifesta.

Silvana colocou então a questão que guiou sua tese de doutorado: Que ecologia é essa que dá condições para que a inovação aconteça?

Uma das maneiras de entender essa ecologia é compreendendo o discurso que a permeia. O discurso revela o modo de viver da organização, revela os valores e crenças arraigados na cultura. Além do discurso, a leitura dos símbolos é fundamental, pois eles possibilitam e representam os pactos existentes na organização. A inovação se baseia nesses pactos.

Muitas histórias serviram como exemplo. Silvana contou do susto dos gestores ao serem convidados para uma reunião com comes e bebes na sala da presidência da Embraer, onde eles nunca haviam entrado. Era um símbolo. Contei a história do time sênior de P&D da Kibon e da observação que fiz do modelo de trabalho deles quando a empresa foi comprada pela Unilever. Era um time silencioso, mas que conversava e ria para definir a estação de rádio que seria selecionada. Era o rádio mais importante da empresa!

Luiz Butti veio com um contraponto, tinha ficado com a história da escuridão do bosque na cabeça. “Mas inovação é medo do escuro ou frio na barriga?” e foi complementado pelo Diego Dutra “é paixão!”.

“É uma cultura coerente em movimento”, disse a Silvana. Há empresas com uma cultura muito coesa, mas sem essa energia apaixonada que move a inovação. Ela deu o exemplo da Promon, com sua cultura de “alinhados briguentos”. Na análise de discurso dessa empresa, a palavra reinvenção era uma das que mais surgia. “E de onde vem a inovação?”, perguntava ela, “Sei lá, Silvana, vem das paredes”, respondiam eles.

Então a inovação tem ao mesmo tempo esse componente de medo, de frio na barriga e de paixão. Pra entrar nessa floresta, precisa estar bem acompanhado, e ter coragem, daí a necessidade de um mínimo de coesão cultural. “Você não vai entrar na floresta com alguém que acabou de conhecer”.

Caspar complementou: “a cultura de inovação é diferente em cada empresa, não dá pra copiar. A necessidade de inovação vai ser diferente dependendo do tamanho e do nível de maturidade da empresa, além do setor em que ela atua.” Quanto mais madura a empresa, mais difícil de manter viva a cultura de inovação. “What got you here, won´t get you there.”

Além disso, se a empresa está num setor ultra-dinâmico, como o de Telecom, ou o varejo, a inovação estará sempre no encalço. Não há tempo para cristalizar práticas e produtos, ou pelo menos o risco dessa perda de maleabilidade é enorme.

“Por que inovar nesta empresa neste momento?” Essa é uma pergunta fundamental, pois a inovação é totalmente contextual. Para entrar nessa floresta, é preciso que tenha sentido.

“E é necessário entender o processo de inovação. São habilidades diferentes a cada etapa e o que foi útil na criação, pode não ser necessário na implementação”, coloquei. Então a cultura de inovação lida com os paradoxos, vive num estado de jogo entre a estabilidade e a instabilidade, entre saber criar e saber analisar e implementar, entre ser estrutura  e ser rede. A cultura de inovação sabe habitar esses dois lugares ao mesmo tempo.

E como isso acontece na prática sem que tudo vire uma grande confusão?

É preciso conversar sobre inovação para esclarecer o seu significado específico na organização. A conversa é o que faz o sistema vibrar. Segundo Humberto Maturana, nós vivemos as nossas conversações e elas ditam o que podemos perceber. São a própria energia que alimenta aquela ecologia que a Silvana colocou no começo da conversa.

“O ambiente de trabalho inovador é o que permite vida”, diz Silvana. Eu diria, é o ambiente que pulsa nas conversações.

E onde acontece esse pulsar? Não somente quando verbalizamos. Falamos um pouco da teoria U que se apóia muito no poder da meditação e agora lembro do filósofo  Gilles Deleuze com sua famosa frase “eu não me mexo muito para não espantar os devires.” A inovação é esse futuro que vai chegando, mas que precisa ser percebido, seja nas conversas, seja nas pausas.

Então a cultura de inovação tem ritmo. É apaixonada, mas sabe pausar. Conversa, mas sabe focar. Gera negócios, mas também se questiona sobre seu modelo de negócios.

“E até onde vai essa cultura, quais os limites da organização nesse caso?”, pergunta alguém.

Ah, todos concordaram, essa é uma organização que transborda.

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Metadesign e Inovação

Quarta passada tivemos mais uma conversa interessante aqui no JuntoSP. Era para ser uma conversa sobre Metadesign, mas o tema da Inovação parece mesmo ser o que deixa os corações e as mentes intranquilos. Todo mundo quer entender.

Nossos convidados foram o Caio Vassão e o Luiz Algarra, além de executivos, profissionais de comunicação e design, parceiros da Dobra, enfim, uma mistura bem interessante.

De onde vem o termo meta?

Segundo Vassão, o primeiro termo com esse prefixo foi a Metafísica. Diz a lenda que foi uma forma de classificar os livros da filosófia primeira de Aristóteles, que não tinham nome. Como ficavam após (meta) os livros de Física, foi criado o termo metafísica. Mas a palavra metafísica tem decorrências importantes. Ela remete à questão da ontologia, ou seja, das próprias categorias de pensamento que utilizamos para refletir sobre algo. Trata também da possibilidade de adotarmos a posição do observadores de nossas próprias vidas: uma meta-posição.

Para mim, a pergunta de Maturana, “como fazemos o que fazemos?” é a grande e poderosa meta-pergunta. Podemos nos perguntar sobre como fazemos a física, como trabalhamos ou como fazemos o design dos espaços que habitamos. “O Metadesign é o projeto do próprio desenho de projeto”, diz Caio.

Ele deu então o exemplo do programa metafont (ou tex), um sistema de editoração para programar fontes. Quem programou o sistema que programa fontes, é o metadesigner.

Tentando fazer uma imagem, é como se a vida tivesse layers e fôssemos subindo e subindo para níveis cada vez mais altos para observar o que fazemos. Esses layers, coloca Caio, são os níveis de abstração. Ser um metadesigner é se colocar num nível mais alto de abstração.

Metadesign e sistemas complexos

Quando nos deparamos com sistemas complexos, como uma organização ou uma comunidade, por exemplo, não é possível criar um projeto fechado. O sistema está o tempo todo mudando e se adaptando. O metadesign cria então um ambiente de decisões composto de algumas diretrizes básicas, critérios e regras que facilitam a vida de quem atua dentro do sistema. Não são parâmetros de controle, mas operadores para atuar no sistema que são validados ou não mediante o uso.

O princípio por trás disso é: elementos simples podem gerar o complexo ou, revertendo o raciocínio, é possível encontrar elementos simples que ajudem a operar num sistema complexo. O metadesign procura identificar esses elementos simples, criando o que Pierce denomina sistema categórico oportuno.

Critérios compatilhados para operar num sistema complexo: é mais fácil dizer do que conseguir, mas eles podem ajudar a responder positivamente a pergunta: é possível projetar a complexidade?

Algarra então apontou uma distinção fundamental: o que nos torna humanos é o fato de conversarmos sobre esses critérios, ou ontologias. Esse é um dos fundamentos do conceito de Inteligência coletiva, que nasce em Bateson (Steps to na Ecology of Mind).

Parece duro, “cabeçudo”, ultra-reflexivo, mas então foi trazido um conceito interessante para alimentar a discussão: o de homo ludens. De acordo com esse conceito, a base da cultura é a brincadeira. O que nos torna humanos, então, é a nossa capacidade de brincar com ontologias e conceitos, ou seja, brincar com o desenho de como queremos viver o que vivemos. Essa me parece uma idéia preciosa: brincar é uma capacidade talvez esquecida, mas fundamental, pois nos leva e rever, combinar e gerar conceitos de forma criativa. Vivemos o que somos capazes de enxergar, ou o que somos capazes de conversar. Brincar com conceitos que fundamentam o nosso viver enquanto conversamos seria metadesign.

Foi a partir daí que começamos a falar de inovação.

O que é inovação afinal?

Algarra constrói a partir de Maturana: a inovação surge para conservar algo que queremos conservar. Queremos conservar um modo de vida, a possibilidade de ter energia acessível, a possibilidade de lidar com recursos escassos e mesmo assim ter conforto, queremos conservar os negócios de uma organização. É a partir daí que tudo se articula.

Vassão sugere: inovar é manipular ontologias. Podemos fazer isso top down, a partir de categorias pré definidas, ou bottom up, ao observarmos os acontecimentos e criarmos ontologias a partir dessa observação. Para Caio, esse segundo caminho é muito mais inovador.

Inovação seria então “afrontar as fronteiras cognitivas da realidade que construímos”. Twittei a fala do Caio. Paulo Ganns( @pganns sugere:) “Romper no lugar de “afrontar”?”. Bom, talvez inovar seja “dissolver as fronteiras cognitivas da realidade que construímos.”

Mas por que inovar?  De onde vem esse desejo?

Novamente voltamos ao ponto do encontro anterior: o porquê da inovação.

Foram abordadas então duas visões sobre a origem da nossa motivação para a ação: a reação (motivação negativa gerada por uma percepção de erro) ou afeição (segundo Deleuze, é o afeto que nos move). Quem trabalha com inovação sabe muito bem que existe uma grande diferença entre essas duas motivações!

Inovar em reação não é a mesma coisa que inovar em busca de um caminho indicado pelo afeto e pelo desejo. É muito mais difícil gerar inovação radical a partir do primeiro caminho, quando a decadência de algo já é eminente mas, sim, há muitos que se movem somente diante desse tipo de situação. Estamos dentro da caixa.

Alguém diz então: vivemos uma situação de alienação, de falta de consciência de onde estamos, fica difícil estar conectado aos próprios afetos quando se está nesse lugar.

Pensar fora da caixa? Qual caixa?

A caixa seria essa ontologia, essas categorias de pensamento que nos habitam sem que tenhamos consciência e condicionam o que somos capazes de enxergar. Uma conversa de metadesign abre essas caixas e essas categorias para refletir e brincar com elas. Como diria Maturana: eu quero conservar esse modo de pensar?

A inovação é sempre uma coisa boa?

Entramos então numa conversa sobre o binômio inovação e ética e voltamos ao começo para pensar a inovação num sistema complexo (as comunidades em que vivemos).

Num contexto complexo, uma inovação desencadeia uma série de reações sistêmicas. Vassão contou o caso do pocket car, projeto do qual participa. Pensar um novo tipo de carro significa repensar toda a cadeia produtiva do carro. Se o motor for ultra-simplificado, o que acontecerá com os empregos dos metalúrgicos que fazem motores? Se os carros forem compartilhados, o que acontecerá com as companhias de seguro?

Parece-me que essa idéia é muito  interessante: a inovação começa, na verdade, depois que um novo produto ou ação é lançado. Ela se multiplicará nas ações que teremos que realizar para lidar com as conseqüências sistêmicas do que lançamos.

Como surgem inovações na cultura?

A inovação se propaga através de novos conceitos que vão penetrando e se disseminando numa dada cultura. Pode ser um novo produto, mas pode ser simplesmente um conceito novo com que começamos a operar.

Alguém pergunta: vem de uma nova necessidade? Ou nós geramos novas necessidades?

Quem precisava do celular antes dele existir? A necessidade parece ser mais uma conseqüência. A inovação surge, acostumamo-nos ao que ela nos oferece e então a necessidade de consolida.

Mas não é necessário que a inovação seja um novo produto. Ela pode ser simplesmente um conceito, um novo modo de viver. (O termo “ficar”, por exemplo, foi criado há menos de 20 anos para denominar, enfim… relações mais instantâneas)

Esses conceitos facilmente replicáveis que vão alterando nosso viver são as memes.

A inovação é, então, um agenciamento de possibilidades. Se você não entendeu, não se preocupe, se ficou curioso, leia um pouco de Deleuze, mas é mais ou menos assim: as possibilidades são vetores que estão disponíveis, alguém ou algo encontra uma intersecção ou uma combinação nova entre essas possibilidades e, voilá, eis a inovação. (Oferta, já existia, comparação já existia pelo menosdesde as fiscais do Sarney, web veio a existir. Oferta+comparação+web=Buscapé).

Estou simplificando, mas vale, pois nos remete à importância de estarmos atentos aos acontecimentos que emergem à nossa volta sem categorizá-los a priori, permitindo-nos pensar em novas ontologias.

A inovação é experimental, diz Vassão.

Sim, vivemos em Beta.

Mariana Gogswell, outra colega por aqui coloca: Como desenvolver os recursos emocionais para viver assim?

Boa pergunta!

Inovação aberta, Aprendizagem e Redes Sociais

Muitos acontecimentos nas últimas semanas. A Sociedade em Rede e a Educação, seminário promovido pela Vivo, a conversa no auditório da FGV dia 20, com Jay Cross, Paul Pangaro e Ignácio Munhoz, o encontro de Open Innovation com a Procter&Gamble, promovido por Stefann Lindegaard e pela Terraforum.

Como sempre, aqui vão alguns dos aspectos que me chamaram a atenção.

Há uma pergunta de fundo que atravessa todos esses eventos, encontros e conversas: como o viver em rede muda nossa forma de aprender e fazer negócios?

Um novo cenário de aprendizagem

Jay, com seu mapa de aprendizagem informal, mostra um mundo lúdico, colorido, cheio de opções. A terra ainda é plana, podemos criar outras imagens, mas o aprendiz protagoniza um ambiente de escolhas.

Mapa de Aprendizagem informal, recorte.

Se por um lado isso traz liberdade, traz também muitas dúvidas, incertezas e a necessidade de ter maior clareza do que se deseja. Daí a importância do tema da Gestão Pessoal do conhecimento (PKM, em inglês) e de novas formas de educação onde a escola passa a ser apenas um dos lugares de aprendizagem.

@LucianoPalma, no no Twitter, deu um depoimento interessante. Foi conhecer a nova escola da filha e a diretora fez questão de garantir que todas as redes sociais eram bloqueadas na sala de informática. Ou seja, a escola ainda não entendeu nada, apesar do incrível nível de conexão que tem hoje uma criança de 10 anos.

A discussão do homeschooling também se conecta a essa. Qual o nosso papel como pais? Como preparar nossas crianças para enxergarem e conseguirem navegar no rico ambiente de aprendizagem que hoje está disponível para elas? Quanto dessa educação deve acontecer em casa?

Um novo cenário de negócios

As organizações também se deparam com esse viver em rede. A Procter&Gamble promoveu um encontro para falar do seu ambiente de Inovação Aberta, o Connect&Develop. Apresentou um discurso muito afinado e um modelo maduro em cada conexão é única, ou seja, cada parceiro (e cada contrato) é visto de forma individualizada. Temas difíceis, tais como a aproximação de concorrentes em projetos de inovação aberta, a propriedade intelectual e a escolha dos parceiros em que a empresa vai investir e desenvolver foram abordados pelos executivos da P&G. Ser 2.0 toma tempo.

Um dos pontos mais curiosos do evento foi conversar com outras empresas presentes na platéia e perceber que ainda não sabiam como entender e se aproximar de um gigante. Mudar a própria imagem, tornando-se acessível para poder aproveitar as contribuições de uma rede talvez ainda seja um desafio para as grandes corporações que querem trabalhar com inovação aberta em países em desenvolvimento.

A cultura é hierárquica, “us pequeno

bedesce us grande”, como diz o concretismo dessa pequena ode ao subdesenvolvimento. Este é o ponto de partida.

Uma outra inovação

Nesse contexto, como modelar a inovação? Como fazer um design de processo que respeite as condições de aprendizagem social em rede?

Para Paul Pangaro, uma das grandes questões é a variedade. Ganhei dele um grande mapa de inovação que representa seu modelo, cheio de mecanismos de conexão e feedbacks. Sua leitura me levou a pensar sobre a necessidade de colocar o Design Thinking em perspectiva.

A variedade é uma das sutilezas importantes que o modelo de Pangaro traz para primeiro plano. Trata-se de encontrar, a cada passo do processo de inovação, a variedade necessária de pessoas, pontos de vista e experiências para atingir um dado objetivo. Mudam os objetivos, mudam as pessoas. Estou imaginando como fazer um desenho de processo a partir dessa perspectiva, já que não é simples mudar as pessoas envolvidas com um projeto ao mesmo tempo. Mas faz um certo sentido, a obra deveria ser mais importante do que os artistas.

Papéis no processo de inovação

Surge também a discussão da diferença dos papéis de gestor e empreendedor na inovação. Esta questão está presente tanto no livro de Stefan Lindegaard quanto no modelo de Paul Pangaro e na fala da P&G, que enxerga gestores diferentes assumindo em etapas distintas do processo, exatamente porque nem todos conseguem assumir esses dois papéis fundamentais.

Esse ponto é importante para se desenhar a gestão de pessoas em torno do processo de inovação. Se entendemos que esses dois papéis não podem ser assumidos pela mesma pessoa, deve existir uma mobilidade de um projeto de uma mão para outra, conforme ele evolui. Se não for assim, podemos ter o mesmo gestor ao longo de todo um projeto de inovação. Food for thought

Perguntas e mais perguntas

Para Paul Pangaro, as perguntas abrem novas possibilidades de linguagem nas organizações e, assim, abrem o caminho para a inovação. Semana passada, Algarra e Munhoz fizeram um “pergunticídio”, ou uma meta-reflexão, para serem menos trágicos, no Results On. Estar nesse lugar “meta” abre a rede de conversações da organização para o inesperado e introduz um outro tipo de consciência no processo a partir do momento em que podemos ser observadores de nós mesmos.

A inovação aberta precisa incluir espaços para essas perguntas e é possível fazer isso. Tudo depende do desenho das conversações que lhe dão forma.

e… as descobertas continuam.

Complexidade e Metadesign

Estive na Escola de Inverno do Hub fazendo um curso com o Caio Vassão sobre Complexidade e Metadesign. Queria postar aqui algumas idéias rápidas que me chamaram a atenção.

ambiente de produção VW

Primeiro, o metadesign se ocupa e desenhar o espaço de decisão em que os designers atuam para produzir objetos, informações, interfaces, enfim, o mundo em que vivemos. Essa idéia de espaço de decisão já existe, por exemplo, na economia, mas pensar que ele é um objeto de design me trouxe uma nova perspectiva.

Maturana e Ximena têm proposto a questão “como fazemos o que fazemos” de forma insistente, quase como um mantra e o metadesign do espaço de desisão carrega essa pergunta. É um olhar de fora, um apropriar-se do lugar onde vivemos. Fico imaginando um gigante olhando um pequeno grupo de liliputianos numa caixa e pensando sobre como eles vivem. A novidade, contudo, é resgatar o caráter estético (e portanto ético) dessa pergunta. Imagine olhar para o seu processo, o seu próprio fazer, como arte? Imagine pensar sua casa ou seu espaço de trabalho como o artista que define como vai funcionar seu estúdio?

Aí é que entra a complexidade. Será que o ambiente que crio para a tomada de decisões me ajuda a lidar com a complexidade do mundo? Ele me ajuda a ser um parte criativa dessa complexidade?

Para o metadesigner, é preciso, sim, ter procedimentos estabelecidos, afinal, o mundo precisa funcionar, os programas de computador precisam rodar, as portas precisam se abrir. Mas ao lado disso é preciso lidar com o emergente. Ele não é mais ruído ou desvio, é uma linha de fuga que abre possibilidades que o próprio metadesigner, com seu distanciamento, não seria capaz de prever.

Segundo Vassão, os arquitetos contemporâneos não tentam mais controlar tudo o que fazem os pedreiros. Vão apenas dando contenção e modificando o projeto conforme as decisões dos “fazedores”, acontecem. São quase tutores do acontecimento da construção.

Bom, isso tem diversas decorrências para a vida. Seria ótimo ser capaz de ser o metadesigner de si mesmo e criar um ambiente que permita os ordenamentos funcionais que a vida cotidiana necessita, mas também tenha um espaço para a emergência, o inesperado e uma certa confusão que vai temperando imprevisívelmente os dias.

Agora, talvez pensar isso nas organizações (o enigma pra onde sempre acabo voltando nesse blog) seja um grande desafio. Como desenhar ambientes de decisão e ambientes de aprendizagem com essa visão do design, pensando no viver e no desenvolvimento das pessoas que habitam o sistema?

Acho que muitas vezes esquecemos dessa visão estética. Pouco paramos para nos questionar sobre como fazemos o que fazemos e para redesenhar com o olhar de um designer onde fazemos o que fazemos. Onde talvez seja a palavra: estamos falando de ambiente, de processos e procedimentos, de regras mas também de movimento e dos graus de liberdade que estão abertos para nossa atuação. Estamos falando em arquitetura física, mas também em arquitetura das relações.

É isso. Muitas questões e algumas descobertas.

Quem está conectado se enreda

Quem está conectado produz sua própria teia

Não sei se quem está conectado vive em rede, mas posso dizer duas coisas.

1. quem está conectado se enreda… em primeiro lugar em si mesmo.

2. quem está conectado só vive em rede se souber conversar.

Penso que a experiência de viver em rede nos leva a estarmos enredados em nossos próprios interesses. Estive com uma amiga que me disse que não tem tempo para estar conectada. Se ela não tem seu próprio tempo, quem terá? No viver em rede o campo de interesses próprio de cada um se expande  e toma vida, ligando o nosso fazer ao que está fora de forma definitiva. Já sabíamos disso desde a Física Quântica, as Teorias da Complexidade, mas viver isso, é diferente. Estar exposto ao acaso, ao movimento, ter que ouvir e a cada instante fazer uma leitura dos acontecimentos para poder navegar na própria vida é algo novo. Assista Moby Dick: é preciso ficar em silencia e ler os pássaros para saber de onde a baleia virá!

Nas redes vivemos mais padrões do que lugares definidos e esses padrões podem co-existir e penetrar paredes e construções, inclusive hierarquias.

Ao mesmo tempo, a rede requer coerência, existe um rastro, uma identidade (ainda que múltipla) que vai surgindo a cada registro que fazemos.

Quem está conectado se enreda no desejo de estudar um tema, no desejo de fazer amigos, no desejo de amar ou simplesmente fazer sexo. Talvez por isso seja tão complicado o apego a mecanismos de controle dentro de qualquer instituição que seja permeada pelo viver em rede. Aquela “distração” que tanto incomoda, aquele estar em dois lugares ao mesmo tempo e (sim) estar presente em ambos de alguma forma… esse tipo de viver não está fora da pessoa, mas a constitui. Na rede ela expressa quem ela é e, se uma organização quer controlar o alguém nesse nível, provavelmente vai gera um viver angustiante para ambas as partes.

Como disse o Raphael Barreiras no debate da Campus party: “as redes são dês-hierarquizantes, as empresas têm que entrar em diálogos e compartilhar parte do poder que elas tinham. É uma perspectiva um pouco mais humilde.”

2. Quem está conectado só vive em rede se souber conversar.

Sim, e possível estar conectado sem viver em rede, mas fiquei pensando: do ponto de vista do linguagear (como diriam Maturana e Ximena) o que seria viver em rede. Nos bons encontros, onde existe escuta e um aumento de potência, podem se estabelecer links, há um viver no amar em que as partes são legitimadas.

Por outro lado, existem os encontros que não se concretizam na escuta. São habitados pelo conflito e por uma certa cegueira. As partes não são legitimadas, o encontro se desfaz. Não há link, perde-se uma possibilidade de conexão. Com isso, perde-se uma possibilidade de composição de pensamentos e de energia.

Daí ser interessante pensar o que seria um linguagear em rede. Vamos em frente, literalmente vivendo e aprendendo.

Ah, quem quiser conhecer um pouco do pensamento da Margareth Wheatley e não está podendo ler muito agora, tem um montão de vídeos dela no you tube.

Eu só soube correr (ou como o esporte mudou a vida de uma pessoa péssima nos esportes)

Só soube correr.

difícil pacas jogar esse troço. Repara no tamanho da bolinha!

Não tinha pendor para os esportes de equipe e enfim um dia alguém me percebeu. (Acho que não era tão difícil, tendo em vista o meu ridículo desempenho no hóquei de grama…)

“Você só pode correr. É irremediavelmente ruim nos esportes com bola” – me disse a professora americana.

Foi uma profecia mas, ao mesmo tempo, uma boa orientação. Finalmente alguém me dizia alguma coisa absolutamente honesta e simples. Eu tinha então uns 16 anos e posso dizer que foi uma revelação sentir-me parte do pelotão da frente depois de anos de desastrosa aventura escolar sendo sempre a última a ser escolhida nas aulas de educação física.

Comecei então a correr seriamente. A professora era uma mulher fria, ruiva e masculina que não sei se botou fé ou sentiu compaixão por mim, mas me ajudou. No final ela sorria e me fazia sinais de positivo. Tínhamos vencido uma marca em mim, tínhamos aberto outro caminho, talvez uma coisa simples e sutil, mas na verdade poderosa na medida em que transformava em ilusão uma incapacidade que eu já considerava como um dado. Entretanto, sobrava meio veredito.

esta obviamente não sou eu!

Depois de anos, jogávamos frescobol numa praia em Ubatuba. O dia era lindo e nos protegíamos do sol intenso debaixo de um “chapéu de sol”. Meu amigo era carioca, chamava a árvore de amendoeira e dizia que não era possível eu jogar tão mal.

Contei então o veredito que me tinha sido dado anos antes pela professora americana. Eu não fora feita para os esportes com bola.

Ele riu muito! Era um cara engraçado e moreno, com cabelos encaracolados e que gostava de se atirar no mar de costas, em grandes splashs. Seu nome era (e é) Maurício, um amigo pra quem (garanto) nada é impossível.

Ele voltou da água pingando e me desafiou. Disse que jogaria comigo até que eu aprendesse, ou pelo menos “passasse a primeira rebentação” pra sair daquela marca de impossibilidade. E jogamos.

Fazia um calor terrível e nossa amiga Bia nos chamava de loucos enquanto se abrigava em sua canga. Os banhos de mar aliviavam um pouco o esforço e o dia já ia ganhando uns vermelhos quando decidimos parar. Ele tinha conseguido.

Nunca participarei de um campeonato, o esporte não me obstina e creio que realmente não fui feita para ele. Tudo bem. Mas jogo frescobol com enorme prazer.

Serve para mostrar de novo que vereditos não servem para nada.

Hoje a treinadora americana já deve ser uma velhinha, eu tenho dois filhos e meu amigo Maurício renasce em Londres, depois de um terrível acidente. Nada é impossível.

Vivemos o que percebemos do mundo e com nosso viver transformamos esse mesmo mundo. Que imensa responsabilidade em ter uma história que é, em grande parte, construída pelo modo como enxergamos a realidade. Eu que não corria, me percebo corredora ao correr. Eu que não jogava, ao jogar me transformo.

Humberto Maturana, anos atrás

Essa semana estive com o Humberto Maturana e a Ximena D´Ávila na formação em Biologia Cultural . Ao que tudo indica, grande parte do que é ‘viver bem’ diz respeito a conseguir olhar-se de fora, assim como na Yoga e em outros tantos lugares de sabedoria. Para mim faz sentido. Ao olhar-me de fora e perceber como estou fazendo o que estou fazendo tenho a possibilidade de rir de mim e de me instalar na multiplicidade da vida que esse olhar estabelece. Eu não sou só o que observo em mim num dado instante. Transformo-me a partir dos fazeres que crio para mim.

Faz sentido.

Em todo caso, para quem é muito pegajoso como eu e não tem essa plasticidade para descolar de si mesmo a qualquer instante, talvez seja melhor cercar-se de boas conversas. Assim, alguém poderá lhe fazer um convite para você se olhar de outro modo, como o meu amigo Maurício fez comigo ou, pelo menos, como profissionalmente fez minha professora americana.

Sobre esse mesmo tema dos limites e das possibilidades, não pude deixar de pensar no tema da educação. No Brasil, meu desempenho nos esportes era pífio, mas demorou anos para que alguém olhasse para mim. Talvez, mais do que ganhar a corrida, eu precisasse ser legitimada.

Ainda bem que aconteceu aos 16.

Fico pensando nas escolas em que nossos filhos estudam. Como será que eles escolhem os times hoje em dia? Será que percebem que nossos maiores aprendizados se dão nas relações? Será que são lugares de bons encontros?

Difícil.

Educar, mesmo em casa, não é tarefa simples exatamente por isso, porque se faz no fazer, não só no dizer. Vivemos tão divididos que muitas vezes nos esquecemos de descolar do cotidiano e perguntar: essa é a mãe que eu quero ser?

O que queremos sustentar?

Humberto Maturana, em uma de suas vidas, há muito tempo atrás.Meu avô tem 84 anos e me fez uma pergunta para tentar justificar a “sensação de fim da vida” em que diz se encontrar. “Você conhece alguém com 84 anos que está começando alguma coisa na vida?”

Conheço sim: Humberto Maturana. Estive na palestra desse incrível senhor e sua companheira de reflexões Ximena D´Ávila promovida pelo Banco Real, Natura e FIEP em São Paulo no dia 18 de junho e a sensação é de estar diante de um novo projeto.

A fala deles a princípio parece complicada de acessar, mas estando diante deles (e não somente de suas idéias num livro) fica claro o porquê.

Como não usar uma nova linguagem para falar de um mundo onde as pessoas vivem a partir da consciência profunda de sua integração com todos os seres vivos e toda a biosfera? Como não buscar um caminho de estranhamento quando se propõe que viver a ética em cada uma de nossas relações é o único caminho sustentável?

Entramos então na “viagem de um novo linguagear” que reflete “novas coordenações dos nossos fazeres no viver”. Trata-se de um convite a um “cambio de mirada”, um outro olhar que leve a um outro viver (mais leve?). Trata-se de um lugar onde o compromisso ético básico é extremamente simples: tu tens presença para mim e eu te escuto. Eu te escuto não porque sei que você pode me entregar algo, mas porque vivemos juntos o hoje.

O mundo que desejamos se constrói a partir desse viver presente durante o qual podemos nos questionar: O que queremos conservar? O que queremos criar com nosso viver? O que queremos sustentar?

Quando ouvi esta última questão fiquei surpresa com sua obviedade e  com o estranhamento que me provocou. “Como não pensei nisso antes? Por que não me fiz essa pergunta?”

Tantas vezes nos perguntamos se algo é sustentável e poucas vezes nos perguntamos o que queremos sustentar em nossas relações, nosso entorno, nas redes das quais participamos. A sustentabilidade não trata de “conservar o humano de qualquer maneira”, não trata de sustentar no tempo uma organização sem considerar que tipo de fazer ela reproduz ou sustenta entre as pessoas que dela fazem parte e na sua rede de relações. Trata-se de entender o que queremos sustentar dentro de cada uma das instâncias sociais das quais participamos, começando pelas mais simples, o encontro um a um. Dizem eles: “O tema não é sustentar algo, mas um certo tipo de fazer e de convivência” que começa com aquele princípio simples: tu tens presença para mim e eu te escuto.

E se há algo que você não deseja sustentar, há sempre a lei dos dois pés, inventada pelos criadores do Open Space: pegue seus dois pés e siga para outro local.

Se você achou essa conversa toda muito existencial, pense também no seguinte: quão inovador pode ser um pensamento que se guia pela questão que está no título?  Quantas vezes não inovamos porque simplesmente já não enxergamos como se dão as relações que nos cercamr? Será que você, como os peixes, não enxerga mais a água onde vive?